"Estamos ligados a tudo e, por vezes, a ninguém"

Há uma imagem que se tornou tão banal que quase já não a vemos.

Duas pessoas sentadas à mesma mesa, lado a lado, aparentemente juntas, mas cada uma mergulhada no pequeno rectângulo luminoso que tem nas mãos.

Estão num restaurante.

Num café.

Num banco de jardim.

Num aeroporto.

Num sofá.

Até na cama.

Estão juntas.

Mas não estão necessariamente presentes.

E talvez esta seja uma das contradições mais estranhas do nosso tempo: nunca tivemos tantos instrumentos para comunicar e, no entanto, parece cada vez mais difícil estarmos verdadeiramente uns com os outros.

Temos mensagens instantâneas, chamadas de vídeo, redes sociais, grupos, fotografias, reacções, notificações, comentários, plataformas capazes de nos transportar em segundos para o outro lado do planeta.

Podemos saber o que uma pessoa está a fazer sem lhe perguntarmos.

Podemos acompanhar a vida de alguém sem nunca termos conversado verdadeiramente com essa pessoa.

Podemos estar permanentemente disponíveis e, ainda assim, emocionalmente ausentes.

E talvez seja aqui que começa a confusão.

Porque estar contactável não é o mesmo que estar disponível.

Estar online não é o mesmo que estar presente.

Responder não é necessariamente escutar.

Ver não é necessariamente reparar.

E falar muito não significa, obrigatoriamente, comunicar.

A comunicação humana exige uma coisa que nenhuma aplicação consegue substituir completamente: presença.

Aquela presença que não precisa de produzir conteúdo.

Que não precisa de fotografar o momento.

Que não precisa de o publicar.

Que não precisa sequer de ser preenchida por palavras.

Aquela presença capaz de permanecer diante de outra pessoa sem sentir imediatamente a necessidade de fugir para qualquer coisa.

Porque talvez uma das coisas mais reveladoras da nossa época seja precisamente esta:

começámos a ter medo do silêncio.

Sentamo-nos sozinhos e pegamos no telemóvel.

Esperamos dois minutos e verificamos notificações.

Entramos num elevador e procuramos um ecrã.

Esperamos por alguém e abrimos uma aplicação.

Estamos aborrecidos e procuramos estímulo.

Estamos ansiosos e procuramos distracção.

Estamos tristes e procuramos entretenimento.

Estamos desconfortáveis connosco próprios e procuramos qualquer coisa que nos impeça de ficar a sós com aquilo que estamos a sentir.

E talvez seja por isso que o problema não seja a tecnologia.

É muito mais incómodo do que isso.

O problema pode estar naquilo de que estamos a tentar fugir através dela.

Um ecrã pode ser uma ferramenta extraordinária.

Pode aproximar famílias separadas por milhares de quilómetros.

Pode permitir que uma criança tenha acesso a conhecimento que antes estava reservado a poucos.

Pode ajudar alguém isolado a encontrar uma comunidade.

Pode permitir que uma pessoa que vive sozinha fale diariamente com quem ama.

Pode ensinar.

Informar.

Criar.

Trabalhar.

Investigar.

Curar determinadas distâncias.

A tecnologia não é, portanto, uma espécie de demónio moderno que entrou nas nossas casas para destruir as relações humanas.

Seria intelectualmente preguiçoso concluir isso.

O problema começa quando a ferramenta deixa de servir a vida e começa a substituir a vida.

Quando deixamos de utilizar o ecrã para comunicar e passamos a utilizá-lo para evitar comunicar.

Quando deixamos de procurar informação e passamos a procurar estímulo.

Quando deixamos de usar as redes para encontrar pessoas e começamos a usá-las para não precisarmos de encontrar ninguém.

Quando deixamos de estar sozinhos por escolha e passamos a precisar permanentemente de ruído para suportar a própria companhia.

É uma diferença subtil.

Mas gigantesca.

Porque a solidão e a solitude não são a mesma coisa.

Há uma solidão que dói porque significa ausência de vínculo.

E existe uma solitude que pode ser profundamente fértil porque significa capacidade de permanecer connosco próprios.

O problema surge quando já não conseguimos distinguir uma da outra.

Uma pessoa pode estar sozinha e sentir-se inteira.

Outra pode estar rodeada de pessoas e sentir-se absolutamente abandonada.

Aliás, talvez uma das formas mais cruéis de solidão seja aquela que acontece ao lado de alguém.

Dormir ao lado de uma pessoa e sentir que não se consegue chegar até ela.

Jantar à mesma mesa e perceber que já não existe conversa.

Viver na mesma casa e habitar mundos emocionais completamente diferentes.

Ter alguém a poucos centímetros do corpo e a anos-luz da própria intimidade.

Isso não é falta de ligação física.

É falta de presença emocional.

E não há número de seguidores capaz de resolver isso.

Há pessoas com centenas, milhares ou milhões de seguidores que, quando a vida desaba, não sabem para quem telefonar.

Não porque não tenham contactos.

Mas porque contacto não é vínculo.

Uma lista de pessoas não é uma rede de apoio.

Um coração vermelho numa publicação não é necessariamente afecto.

Um comentário não é intimidade.

Uma visualização não é presença.

E uma multidão digital não substitui necessariamente uma única pessoa que saiba reconhecer, pela maneira como dizemos “estou bem”, que não estamos nada bem.

Talvez seja essa uma das coisas que estamos lentamente a perder:

a capacidade de conhecer o outro para além daquilo que ele diz.

Os nossos avós, os nossos pais, as pessoas que viveram antes desta hiperconectividade, tinham outras formas de leitura humana.

Conheciam silêncios.

Expressões.

Gestos.

Mudanças de comportamento.

Sabiam quando alguém estava diferente porque conviviam com a pessoa.

Não precisavam de uma publicação a dizer “não estou bem” para perceberem que alguma coisa estava errada.

Hoje podemos assistir diariamente à vida de alguém e continuar a não conhecer absolutamente nada sobre aquilo que se passa dentro dela.

Sabemos o que comeu.

Onde foi.

O que comprou.

Que música ouviu.

Onde passou férias.

Que livro recomenda.

Qual é a sua opinião sobre determinado assunto.

Mas talvez não saibamos:

“De que tens medo?”

“O que te está a doer?”

“Estás realmente feliz?”

“Tens alguém com quem falar?”

E essas perguntas são muito mais importantes do que todas as outras.

Porque uma pessoa não é aquilo que publica.

É também aquilo que não consegue publicar.

É o medo que esconde.

A vergonha que não confessa.

A tristeza que disfarça.

A contradição que ninguém vê.

A batalha que trava quando fecha a porta de casa.

E talvez seja precisamente por isso que algumas pessoas se sintam tão sós num mundo que lhes diz permanentemente que estão acompanhadas.

Existe uma diferença entre ser visto e ser conhecido.

E talvez estejamos a confundir as duas coisas.

Ser visto é aparecer.

Ser conhecido é ser compreendido.

Ser visto pode acontecer em segundos.

Ser conhecido exige tempo.

Ser visto pode acontecer diante de milhares.

Ser conhecido pode acontecer apenas diante de uma pessoa.

Ser visto alimenta a imagem.

Ser conhecido alimenta a pertença.

E o ser humano precisa de pertença.

Não apenas de audiência.

Isto torna-se particularmente delicado quando pensamos nas crianças.

Uma criança não precisa apenas de informação.

Precisa de relação.

Precisa de um adulto que olhe para ela quando fala.

Precisa de alguém que reconheça o seu entusiasmo.

Que tolere a repetição das perguntas.

Que perceba quando está triste mesmo que diga que não está.

Que leia uma história não apenas para lhe transmitir palavras, mas para partilhar um momento.

Que brinque.

Que converse.

Que espere.

Que esteja.

Nenhum programa educativo consegue substituir completamente uma relação humana significativa.

Porque educar não é apenas transmitir informação.

É também transmitir segurança, linguagem emocional, curiosidade, limites, confiança, capacidade de esperar, capacidade de reparar uma relação depois de um conflito.

Uma criança aprende muito daquilo que lhe ensinamos.

Mas aprende talvez ainda mais daquilo que experimenta na relação connosco.

Se cresce num ambiente em que todos estão fisicamente presentes mas emocionalmente dispersos, aprende uma coisa sem que ninguém lha ensine explicitamente:

que estar junto não significa necessariamente estar disponível.

E depois admiramo-nos quando os adultos têm dificuldade em permanecer numa conversa sem consultar o telemóvel.

Não surgiram assim por geração espontânea.

Foram ensinados, muitas vezes sem intenção, a preencher cada intervalo.

Cada silêncio.

Cada espera.

Cada desconforto.

E uma pessoa que nunca aprende a esperar pode tornar-se uma pessoa que também não sabe tolerar frustração.

É aqui que a questão ultrapassa a tecnologia e entra profundamente na formação humana.

Porque o desenvolvimento psicológico exige também capacidade para suportar pequenas doses de vazio.

Nem tudo precisa de ser imediatamente preenchido.

Nem toda a tristeza precisa de ser imediatamente distraída.

Nem toda a ansiedade desaparece porque abrimos uma aplicação.

Nem todo o silêncio precisa de música.

Nem todo o aborrecimento é um problema que necessita de solução.

Há experiências interiores que precisam de tempo para se organizar.

Uma criança que se aborrece pode começar a imaginar.

Um adolescente que fica algum tempo sem estímulo pode descobrir interesses.

Um adulto que permanece em silêncio pode finalmente ouvir pensamentos que vinha a evitar há meses.

O vazio, por vezes, não é ausência de vida.

É espaço para que alguma coisa possa nascer.

E talvez estejamos perigosamente habituados a não deixar espaço para nada.

Preenchemos.

Deslizamos.

Actualizamos.

Consumimos.

Saltamos.

Passamos de uma coisa para outra.

E depois perguntamos porque não conseguimos concentrar-nos.

Talvez porque treinámos precisamente o contrário.

Treinámos a interrupção.

Treinámos a novidade constante.

Treinámos a recompensa imediata.

Treinámos o cérebro para esperar que alguma coisa aconteça a cada poucos segundos.

E uma conversa humana não funciona assim.

Uma conversa tem pausas.

Tem hesitações.

Tem silêncios.

Tem momentos em que não sabemos o que dizer.

Tem histórias longas.

Tem repetições.

Tem emoções que precisam de tempo.

Tem até momentos aborrecidos.

E isso não significa que seja uma má conversa.

Significa que é uma conversa humana.

Talvez uma das tarefas mais importantes da nossa época seja precisamente reaprender a permanecer.

Permanecer numa conversa.

Permanecer diante de uma criança.

Permanecer com alguém que está triste.

Permanecer diante do silêncio.

Permanecer connosco próprias.

Permanecer numa refeição sem necessidade de fotografar tudo.

Permanecer num passeio sem transformar cada segundo numa publicação.

Permanecer na vida enquanto ela acontece.

Porque existe uma ironia dolorosa:

podemos passar horas a documentar a nossa vida e, ao mesmo tempo, passar muito menos tempo a vivê-la.

Fotografamos o jantar e esquecemo-nos de saboreá-lo.

Filmamos o concerto e quase não vemos o palco.

Publicamos a viagem e perdemos parte da experiência a tentar provar que estivemos lá.

Registamos a infância dos nossos filhos e, por vezes, esquecemo-nos de simplesmente estar com eles.

Queremos guardar tudo.

E, paradoxalmente, podemos perder o próprio momento que queríamos guardar.

Não estou a dizer que devemos abandonar a tecnologia.

Nem que devemos romantizar um passado que também tinha solidão, violência, incomunicabilidade e famílias emocionalmente distantes.

Seria absurdo.

O passado não era um paraíso.

A tecnologia trouxe possibilidades extraordinárias e continuará a transformar profundamente a nossa forma de viver.

A questão é outra:

quem está a utilizar quem?

Somos nós que utilizamos a tecnologia?

Ou é a tecnologia que começou a organizar a nossa atenção, os nossos hábitos e até a nossa disponibilidade emocional?

Essa é uma pergunta muito mais séria.

Porque aquilo a que prestamos atenção durante horas acaba, inevitavelmente, por participar na construção da nossa vida.

A atenção não é infinita.

É um recurso humano.

Onde colocamos a atenção colocamos uma parte da existência.

E talvez devêssemos perguntar, com alguma honestidade:

Para onde está a ir a minha?

Para as pessoas que amo?

Para os meus filhos?

Para o meu companheiro?

Para os meus pais?

Para os meus amigos?

Para o meu próprio mundo interior?

Ou para uma sucessão interminável de coisas que, cinco minutos depois, já não consigo sequer recordar?

Talvez não precisemos de menos tecnologia.

Precisemos de mais consciência.

Mais capacidade para fechar o ecrã sem sentir que estamos a perder alguma coisa.

Mais capacidade para olhar alguém nos olhos.

Mais coragem para suportar uma refeição em silêncio sem procurar imediatamente um estímulo.

Mais disponibilidade para ouvir uma história que já conhecemos.

Mais paciência para uma criança que pergunta pela décima vez.

Mais atenção para a pessoa que está sentada ao nosso lado.

Mais disposição para telefonar sem motivo.

Mais coragem para dizer:

“Como estás?”

e esperar pela resposta verdadeira.

Não aquela resposta automática.

Não o “está tudo bem” socialmente aceitável.

A resposta verdadeira.

Porque talvez a grande pobreza do nosso tempo não seja tecnológica.

É relacional.

Não é falta de meios para comunicar.

É falta de disponibilidade para escutar.

Não é falta de pessoas.

É falta de vínculos.

Não é falta de informação.

É falta de significado.

Não é falta de contacto.

É falta de presença.

E talvez um dia percebamos que não precisávamos de ter estado permanentemente ligados ao mundo.

Precisávamos de ter estado ligados às pessoas certas.

Àquelas que nos conheciam sem filtros.

Àquelas que não precisavam de saber tudo para permanecer.

Àquelas diante de quem podíamos pousar o telemóvel e, finalmente, pousar também o peso que carregávamos.

Porque talvez o verdadeiro luxo do futuro não seja ter acesso a mais tecnologia.

Talvez seja poder sentar-nos diante de alguém que amamos, pousar o telefone sobre a mesa, olhar nos olhos dessa pessoa e não sentir necessidade nenhuma de o voltar a tocar.

E talvez seja nesse gesto aparentemente insignificante que recuperamos uma coisa que nenhuma inteligência artificial, nenhuma rede social e nenhum algoritmo poderá viver por nós:

a experiência irrepetível de estar verdadeiramente presente na vida de outro ser humano.

No fim, não será a tecnologia que decidirá se estamos próximos ou distantes.

Seremos nós.

A tecnologia pode ocupar a mesa.

Mas não precisa de ocupar o lugar da conversa.

Pode estar no bolso.

Não precisa de estar entre duas pessoas.

Pode aproximar quem está longe.

Não precisa de afastar quem está perto.

Pode servir a vida.

Só não podemos permitir que passe a substituí-la.

Porque um dia, talvez, vamos perceber que aquilo de que mais sentíamos falta não era de mais notificações.

Era de alguém que levantasse os olhos do ecrã,

olhasse para nós

e dissesse simplesmente:

“Estou aqui.”

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