"Há coisas que não estão no texto. Estão apenas nos olhos de quem o lê."
Por vezes é difícil fazer alguém compreender uma coisa muito simples:
aquilo que procuras não está neste espaço.
Nunca esteve.
E talvez a dificuldade não esteja naquilo que escrevi, mas naquilo que decidiste procurar antes de começar a ler.
Eu escrevo.
Escrevo sobre carácter, sobre pessoas, sobre vivências, sobre aquilo que observo, sobre aquilo que aprendi, sobre aquilo que me atravessou e sobre aquilo que, em determinados momentos, precisei de compreender dentro de mim.
Escrevo pensamentos.
Escrevo perguntas.
Escrevo sentimentos.
Escrevo aquilo que a vida me ensinou quando deixou de ser teoria e passou a ser experiência.
Mas aquilo que vivi não é uma história inventada.
Foi real.
Foi duro.
Foi doloroso.
Teve consequências.
Teve silêncios que ninguém ouviu, pensamentos que nunca foram publicados e experiências que não precisam de ser explicadas para serem verdadeiras.
E existe uma diferença enorme entre escrever sobre aquilo que se viveu e escrever para contar uma história sobre alguém.
Eu conheço essa diferença.
E talvez seja precisamente por conhecer demasiado bem o peso das palavras que não preciso de transformar a minha escrita num tribunal.
Não escrevo para acusar.
Não escrevo para absolver.
Não escrevo para construir personagens escondidas atrás de pessoas reais.
E, sobretudo, não escrevo para alimentar aquilo que alguém decidiu acreditar sobre mim.
A minha escrita não é um processo judicial.
É um espaço de elaboração.
Às vezes escrevo para compreender.
Outras vezes escrevo porque uma experiência me ensinou alguma coisa.
Outras ainda porque uma ideia ficou demasiado tempo dentro de mim e precisava de encontrar uma forma de existir fora da minha cabeça.
É assim que escrevo.
E não há nada de misterioso nisso.
O que pode tornar tudo mais complicado é quando alguém chega ao texto já convencido de que sabe aquilo que vai encontrar.
Nesse momento, deixa de ler para compreender.
Passa a ler para confirmar.
E quando a pessoa procura confirmação, qualquer frase pode tornar-se uma espécie de prova.
Uma palavra ganha um significado que nunca teve.
Uma metáfora transforma-se numa acusação.
Uma reflexão passa a ser interpretada como uma mensagem.
Uma experiência humana transforma-se numa suposta referência pessoal.
E, a partir daí, já não existe propriamente leitura.
Existe uma investigação orientada para uma conclusão previamente escolhida.
Mas eu não posso responder a uma pergunta que nasceu de uma certeza que não é minha.
Nem posso explicar indefinidamente aquilo que nunca aconteceu.
Porque há uma diferença entre perguntar:
"O que quiseste dizer?"
e afirmar silenciosamente:
"Eu sei o que isto significa."
A primeira contém curiosidade.
A segunda já contém uma sentença.
E quando alguém não quer realmente conhecer o teu lado, não importa quantas explicações ofereças.
A explicação será sempre insuficiente.
Não porque não tenhas explicado.
Mas porque a pessoa não estava à procura da tua verdade.
Estava à procura de confirmação para a sua.
É aqui que aprendi a não insistir.
Não por arrogância.
Não por orgulho.
Não porque pense que tenho sempre razão.
Mas porque existe um momento em que continuar a explicar deixa de ser diálogo e começa a ser uma tentativa inútil de convencer alguém a abandonar uma interpretação que lhe é conveniente.
E eu não quero convencer ninguém.
Quem me conhece sabe que não sou assim.
Eu prefiro conversar.
Perguntar.
Ouvir.
Apresentar perspectivas.
Admitir quando não sei.
Reconhecer quando erro.
Mas também sei distinguir uma conversa genuína de uma procura incessante por aquilo que nunca existiu.
E talvez seja essa a parte mais triste.
Desperdiçar tempo à procura de uma coisa que não está lá.
Procurar uma mensagem escondida.
Uma intenção oculta.
Uma confirmação.
Uma explicação para aquilo que alguém já decidiu sentir.
E, no fim, encontrar apenas palavras que falam de vida, de dor, de crescimento, de pessoas e de tudo aquilo que nos torna humanos.
Tenho pena.
Não de não encontrares aquilo que procuras.
Mas de veres sofrimento onde talvez exista apenas reflexão.
De leres como ferida aquilo que foi escrito como aprendizagem.
De procurares uma acusação onde existe apenas uma experiência transformada em pensamento.
Porque nem tudo o que nos toca foi escrito para nós.
Nem tudo o que nos incomoda é uma mensagem dirigida à nossa consciência.
E nem tudo aquilo que reconhecemos num texto pertence à pessoa que o escreveu.
Às vezes reconhecemo-nos numa frase simplesmente porque aquela frase tocou numa ferida nossa.
E isso diz mais sobre quem lê do que sobre quem escreveu.
É uma característica profundamente humana.
Procuramos sentido.
Preenchemos silêncios.
Ligamos acontecimentos.
Construímos narrativas.
Tentamos organizar aquilo que nos inquieta.
Mas precisamos também de humildade suficiente para admitir:
"Talvez não seja sobre mim."
Essa pequena frase pode poupar-nos muito sofrimento.
Pode impedir-nos de transformar literatura em confissão.
Reflexão em acusação.
Memória em provocação.
E palavra em ameaça.
Por isso, se aquilo que procuras neste espaço é uma confirmação para uma história que já construíste dentro de ti, tenho receio de te desiludir.
Não vais encontrá-la.
Porque nunca existiu.
E não existe texto algum que possa transformar uma inexistência numa verdade apenas porque alguém precisa dela para explicar alguma coisa.
Eu sei aquilo que vivi.
Sei aquilo que senti.
Sei aquilo que escrevi.
E também sei aquilo que nunca escrevi.
Não preciso de transformar a minha verdade numa batalha para que ela exista.
A minha vida não precisa de ser validada pela interpretação de quem nunca esteve dentro dela.
E a minha escrita também não.
Talvez por isso, hoje, eu prefira dizer-te isto com serenidade e até com estima:
sê generosa contigo.
Não leias aquilo que te faz mal à procura de uma dor que pode nem sequer estar lá.
Não te obrigues a regressar repetidamente a palavras que te provocam sofrimento apenas para tentar descobrir uma resposta que não foi escrita.
Não procures feridas em cada frase.
Não transformes a leitura numa forma de te magoares.
Porque, mesmo quando um texto toca em alguma coisa dolorosa, isso não significa necessariamente que tenha sido escrito para te ferir.
Às vezes uma palavra apenas encontra uma ferida que já existia.
E eu não quero que te magoes a tentar encontrar em mim aquilo que nunca coloquei.
Por isso, se alguma coisa que escrevo te faz mal, tens uma escolha que talvez seja mais importante do que qualquer explicação minha:
podes simplesmente não ler.
Não tens de permanecer diante de uma porta que te causa sofrimento.
Não tens de procurar respostas em páginas que te perturbam.
Não tens de encontrar uma intenção escondida em cada pensamento.
Podes fechar o texto.
Seguir a tua vida.
Guardar aquilo que é teu.
E deixar-me guardar aquilo que é meu.
Porque a liberdade também consiste nisso:
eu tenho o direito de escrever sobre aquilo que vivi;
e tu tens o direito de escolher aquilo que queres ler.
Sem acusações.
Sem julgamentos.
Sem histórias inventadas sobre histórias que nunca escrevi.
Talvez esta seja, afinal, a única explicação que realmente importa:
eu escrevo aquilo que a vida me ensinou.
Não aquilo que alguém gostaria que eu tivesse vivido.
E aquilo que eu vivi não precisa de ser transformado numa narrativa conveniente para caber na interpretação de outra pessoa.
Foi a minha vida.
Foram as minhas dores.
Foram as minhas escolhas.
Foram os meus erros.
Foram as minhas aprendizagens.
E são, hoje, matéria daquilo que escrevo.
Nada mais.
E nada menos.
Por isso, com toda a serenidade que consigo colocar nestas palavras, repito aquilo que já disse uma vez e que agora digo novamente, com estima:
por favor, sê generosa contigo.
Não leias aquilo que te magoa apenas porque sentes que precisas de encontrar uma confirmação.
Talvez ela não esteja lá.
Talvez nunca tenha estado.
E talvez a verdadeira liberdade esteja precisamente em aceitar isso.
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