"Às vezes, a vida tem um sentido de humor extraordinário"

Por vezes, a vida pega numa acção humana, coloca-a diante de nós e transforma-a numa espécie de comédia involuntária.

Foi exactamente assim.

Eu estava tranquila na minha vida, a escrever como sempre escrevi, sem grandes pretensões, sem procurar multidões, sem andar atrás de números, quando uma alma caridosa decidiu pegar naquilo que eu tinha escrito e oferecer-lhe uma interpretação completamente diferente daquela que lhe tinha dado origem.

Partilhou.

Comentou.

Escarneceu.

Vilipendiou.

Tentou diminuir a intenção, desfigurar o significado, retirar profundidade ao que estava escrito e, pelo caminho, até a autoria pareceu tornar-se um detalhe dispensável.

Confesso: na altura fiquei estupefacta.

E não gostei.

Seria desonesto fingir o contrário.

Quando alguém pega numa coisa em que colocámos pensamento, tempo, experiência e alguma parte de nós e a transforma deliberadamente noutra coisa, existe naturalmente um desconforto.

Sobretudo quando percebemos que não está a tentar compreender.

Está a tentar enquadrar.

E há uma diferença enorme entre interpretar uma obra e querer determinar aquilo que ela deve significar.

Mas hoje consigo olhar para tudo isso com uma distância diferente.

E sorrio.

Porque aquilo que, naquele momento, parecia uma tentativa de me prejudicar acabou por ser uma das melhores coisas que poderiam ter feito pelo meu trabalho.

O blogue tinha pouco alcance.

Poucas pessoas chegavam aos textos.

Havia publicações com quinze visualizações ou menos.

E não havia qualquer tragédia nisso.

Eu escrevia porque gostava de escrever.

Porque pensar me faz bem.

Porque colocar em palavras aquilo que observo, sinto ou compreendo é uma das minhas formas de organizar o mundo.

Mas aquela tentativa de exposição fez uma coisa que eu jamais teria conseguido produzir sozinha:

levou os textos para lugares onde eu não os teria levado.

De repente, aquilo que era lido por quinze pessoas começou a chegar a centenas.

Quinhentas.

Depois mais.

E mais.

E o curioso é que quanto mais tentavam apresentar aquilo que eu escrevia de uma determinada maneira, mais pessoas iam directamente à fonte.

Foram ler.

Foram procurar.

Foram comparar.

Foram descobrir.

E começaram a encontrar não aquilo que lhes tinham contado, mas aquilo que efectivamente estava escrito.

É aqui que a história se torna verdadeiramente interessante.

Porque a intenção era diminuir.

O resultado foi ampliar.

A intenção era ridicularizar.

O resultado foi divulgar.

A intenção era criar uma determinada narrativa sobre mim.

O resultado foi dar às pessoas a oportunidade de conhecerem directamente aquilo que eu fazia.

E talvez exista aqui uma pequena lição sobre a vida:

nem sempre conseguimos controlar aquilo que fazem com o nosso nome, mas podemos controlar aquilo que o nosso nome significa quando as pessoas finalmente nos conhecem.

Não me fizeram mal.

Pelo menos não da maneira que imaginaram.

Não me humilharam.

Não conseguiram tornar aquilo que escrevo menos válido.

Não conseguiram retirar-me conhecimento.

Não conseguiram retirar-me experiência.

Não conseguiram retirar-me a capacidade de pensar.

E, sobretudo, não conseguiram retirar-me a vontade de continuar.

Fizeram outra coisa.

Deram-me uma rampa de lançamento.

E eu, em vez de ficar parada a discutir com quem estava a tentar empurrar-me para baixo, decidi descobrir até onde conseguia subir.

Estudei mais.

Li mais.

Fiz formações.

Participei em workshops.

Treinei.

Questionei.

Reescrevi.

Reflecti.

Aprendi.

Voltei muitas vezes às minhas próprias palavras para perceber onde podia fazer melhor.

Porque existe uma coisa que sempre me interessou muito mais do que provar que alguém estava errado:

tornar-me melhor.

É uma diferença fundamental.

Provar que alguém está errado pode dar-nos uma satisfação momentânea.

Evoluir dá-nos uma vida inteira.

Por isso, aproveitei.

Se alguém me obrigou a olhar com maior rigor para aquilo que fazia, eu olhei.

Se alguém me fez estudar mais, estudei.

Se alguém me fez perceber que podia aprofundar determinado conhecimento, aprofundei.

Se alguém me mostrou uma fragilidade na minha escrita, trabalhei nela.

E se, no processo, me tornei uma escritora mais consciente, uma mulher mais preparada e, sobretudo, um ser humano mais atento, então talvez aquela tentativa de me diminuir tenha produzido exactamente o contrário do que pretendia.

Porque eu não quero escrever apenas melhor.

Quero pensar melhor.

E isso é muito diferente.

Escrever bem não é juntar palavras bonitas.

É saber o que estamos a dizer.

É conhecer a língua.

É compreender a estrutura.

É perceber o peso de uma palavra.

É saber quando uma frase precisa de silêncio.

É reconhecer que uma experiência pessoal pode conter uma reflexão universal.

É conseguir falar de nós sem presumir que somos o centro do mundo.

E é precisamente por isso que os meus textos são, muitas vezes, escritos para “tu”, para “nós”, para “vocês”.

Porque aquilo que vivemos individualmente raramente nos pertence exclusivamente.

A dor tem muitas casas.

A perda tem muitas vozes.

O amor conhece muitas formas.

A decepção atravessa pessoas diferentes.

A solidão não escolhe profissão.

A esperança não exige currículo.

E quando escrevo sobre uma experiência minha, não estou necessariamente a pedir que alguém a investigue como se fosse um processo judicial.

Estou a transformar uma experiência em reflexão.

É literatura de vivência.

É observação.

É pensamento.

É tentativa de compreender aquilo que somos enquanto seres humanos.

E talvez seja justamente aí que reside a maior protecção contra quem tenta distorcer aquilo que fazemos.

A autenticidade.

Porque uma coisa pode ser interpretada de mil maneiras.

Mas aquilo que fazemos repetidamente, ao longo do tempo, acaba por revelar quem somos.

A essência não precisa de publicidade.

A essência aparece.

Na linguagem.

Nas escolhas.

Na coerência.

Na forma como tratamos os outros.

Naquilo que fazemos quando ninguém está a olhar.

E, sim, também na escrita.

Quem escreve para parecer alguma coisa precisa de sustentar uma personagem.

Quem escreve a partir daquilo que realmente pensa pode simplesmente continuar a ser.

Eu não preciso que todos gostem do que escrevo.

Nem sequer quero isso.

Não preciso que todos concordem.

Não preciso que todos compreendam.

E muito menos preciso que todos me considerem boa pessoa.

Isso seria entregar a minha identidade à avaliação permanente de quem lê.

Escrevo.

Quem quiser, lê.

Quem não gostar, pode passar adiante.

Quem discordar pode discordar.

Quem quiser conversar, conversa.

Mas existe uma diferença entre discordar de uma ideia e tentar desumanizar quem a escreveu.

E foi precisamente essa tentativa que acabou por me ensinar uma coisa preciosa:

há pessoas que nos fazem publicidade sem perceberem que estão a fazê-lo.

Não porque tudo aquilo que fazem seja bom.

Mas porque, quando a nossa obra tem consistência, a exposição acaba por permitir que mais pessoas a encontrem.

E depois já não controlamos o que acontece.

Porque o leitor pensa.

E o leitor compara.

E o leitor decide.

Não pela narrativa que lhe entregaram.

Pelo contacto directo com aquilo que existe.

Talvez seja por isso que nunca tenha tido medo de deixar os textos falar.

Eles sabem defender-se melhor do que eu.

Não porque sejam perfeitos.

Não são.

São humanos.

Alguns são antigos.

Alguns nasceram de momentos em que eu própria ainda estava a aprender.

Alguns poderiam hoje ser escritos de outra maneira.

E isso também é crescimento.

Não tenho vergonha de ter sido menos conhecedora para me tornar mais conhecedora.

Não tenho vergonha de ter aprendido.

Pelo contrário.

Tenho orgulho.

Porque uma pessoa intelectualmente viva não é aquela que escreve sempre exactamente da mesma maneira.

É aquela que continua a perguntar:

“Como posso compreender melhor?”

Foi isso que fiz.

Peguei numa experiência desagradável e transformei-a em aprendizagem.

Peguei numa tentativa de exposição e transformei-a em alcance.

Peguei numa tentativa de inferiorização e transformei-a em exigência.

Peguei no incómodo e transformei-o em trabalho.

E continuei.

Talvez seja por isso que hoje consigo olhar para trás e dizer, com alguma ironia:

obrigada.

Não pela crueldade.

Não pelo escárnio.

Não pela falta de respeito.

Mas pelo efeito involuntário.

Porque, sem querer, fizeram aquilo que eu provavelmente demoraria muito mais tempo a fazer.

Abriram uma porta.

Eu entrei.

E depois fiz aquilo que sempre soube fazer:

trabalhei.

Não fiquei melhor porque alguém me atacou.

Fiquei melhor porque decidi o que fazer com aquilo que me aconteceu.

E essa distinção é tudo.

A vida está cheia de pessoas que nos oferecem acontecimentos que não escolhemos.

Não podemos escolher todas as pessoas que nos ferem.

Mas podemos escolher o que fazemos depois da ferida.

Podemos ficar a discutir a intenção de quem nos magoou.

Ou podemos usar o acontecimento como matéria-prima para crescer.

Eu escolhi crescer.

E talvez esta seja a ironia final.

Tentaram diminuir aquilo que eu escrevia.

E fizeram com que mais pessoas o lessem.

Tentaram diminuir-me.

E obrigaram-me a conhecer melhor o meu próprio valor.

Tentaram definir-me.

E fizeram-me estudar ainda mais aquilo que eu própria queria ser.

Tentaram fechar uma porta.

E acabaram por abrir uma estrada.

Por isso, sim.

Há uma certa verdade naquela velha ideia de que toda a publicidade pode ser boa publicidade.

Mas existe uma condição.

É preciso haver alguma coisa por detrás da publicidade.

Porque a exposição, por si só, não cria essência.

Pode apenas torná-la visível.

E quando aquilo que aparece é autêntico, consistente e verdadeiramente nosso, mais cedo ou mais tarde percebe-se.

Na escrita, sobretudo, é difícil esconder completamente quem somos.

Podemos tentar parecer inteligentes.

Podemos tentar parecer profundos.

Podemos copiar estilos.

Podemos imitar vozes.

Podemos construir personagens.

Mas existe qualquer coisa que escapa sempre.

A maneira de pensar.

A forma de olhar para o mundo.

O modo como usamos as palavras.

Aquilo que escolhemos dizer.

E, principalmente, aquilo que escolhemos não dizer.

A autenticidade tem uma assinatura.

Não precisa de ser anunciada.

Lê-se.

E talvez tenha sido essa a maior consequência de tudo isto:

deram-me leitores.

Eu fiquei com o trabalho.

Eles ficaram com a intenção.

E eu fiquei com uma coisa muito mais importante:

a possibilidade de continuar a evoluir.

No fundo, fizeram publicidade.

Eu fiz o resto.

______________________________________________

© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.

Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"II Escola da fé"