"Há pessoas que precisam de medir até o afecto dos outros"

É curioso como conseguimos perceber tanto sobre uma pessoa através de coisas aparentemente insignificantes.

Às vezes não é preciso ouvi-la falar durante horas.

Basta observar aquilo a que presta atenção.

Há quem repare numa paisagem.

Há quem repare numa conversa.

Há quem repare num gesto de carinho.

E há quem, mal entra num lugar, comece imediatamente a medir.

Quem tem mais.

Quem tem menos.

Quem conhece quem.

Quem é mais importante.

Quem recebe mais atenção.

Quem é mais admirado.

Quem parece ter uma vida mais preenchida.

E existe ainda uma forma particularmente curiosa de competição: aquela que nasce quando alguém observa a felicidade ou o afecto dos outros e, em vez de simplesmente o reconhecer, sente necessidade de o questionar.

Foi precisamente isso que me aconteceu.

Eu estava sentada num café com uma amiga de infância.

E dizer “amiga de infância” é pouco para explicar o que aquela pessoa representa na minha vida.

Conhecemo-nos há mais de quarenta anos.

Andámos no primeiro ciclo na mesma época.

A irmã dela foi minha colega de turma.

A irmã mais nova também se tornou minha amiga.

O pai dela foi o melhor amigo do meu pai.

Há relações que não precisam de ser alimentadas diariamente para continuarem a existir.

Não estamos juntas todas as semanas.

Nem sequer precisamos de estar.

Há amizades que sobrevivem à distância, às mudanças, às diferentes fases da vida, aos anos em que cada uma constrói a sua própria família e percorre caminhos diferentes.

Quando nos reencontramos, existe qualquer coisa de estranhamente familiar.

Como se uma parte da infância ainda soubesse exactamente onde a outra está.

Até temos outra coincidência curiosa: fazemos anos no mesmo mês e somos do mesmo signo.

Talvez seja apenas uma dessas pequenas coincidências que tornam uma história mais bonita.

Ou talvez seja simplesmente mais uma das muitas coisas que nos fazem sorrir.

Estávamos, portanto, sentadas, tranquilamente, a conversar.

Sem espectáculo.

Sem intenção de impressionar ninguém.

Apenas duas mulheres que se conhecem há mais de quatro décadas a conversar sobre a vida.

A certa altura, uma senhora aproximou-se da mesa e perguntou se podia sentar-se.

Respondemos que sim.

Até aqui, tudo perfeitamente normal.

Mas depois começou a conversa.

Disse o meu nome e perguntou-me como conseguia manter o Facebook com tantas reacções.

Perguntou por que razão eram quase sempre as mesmas pessoas a reagir e a comentar.

Umas mais.

Outras menos.

Mas algumas estavam quase sempre presentes.

E depois veio a observação que me fez ficar em silêncio durante alguns segundos:

não achava aquilo normal.

Havia pessoas que escreviam que me amavam.

Que diziam “querida”.

Que diziam que gostavam muito de mim.

E eu fiquei a olhar para ela.

Peguei na minha cidra.

Dei um gole, mais para molhar a garganta do que por ter sede.

E pensei:

Não posso responder exactamente como me ocorreu responder.

A minha amiga começou a rir.

Conhece-me há tempo suficiente para saber quando estou a fazer aquele silêncio que antecede uma resposta demasiado directa.

Olhei para ela.

E disse:

— Vamos fazer um pequeno exercício.

Porque, às vezes, uma pergunta não precisa de uma resposta agressiva.

Precisa apenas de contexto.

O meu Facebook é fechado.

Não tenho o perfil aberto ao público.

Não tenho uma multidão de desconhecidos entre os meus contactos.

Aliás, sou bastante selectiva.

Não aceito automaticamente pedidos de amizade.

Muitas vezes nem aceito pessoas que conheço apenas de vista.

Não tenho qualquer necessidade de transformar a minha rede social numa praça pública.

Tenho poucas pessoas.

E, precisamente por ter poucas pessoas, aquilo que acontece no meu perfil acontece dentro de uma comunidade que, na sua maioria, já me conhece.

Não sou uma influenciadora.

Nunca quis ser.

Não publico para contabilizar reacções.

Não acordo a pensar quantas pessoas vão gostar daquilo que escrevi.

Não tenho uma estratégia para parecer popular.

Não preciso de fabricar uma audiência.

E talvez seja precisamente isso que torna tão simples aquilo que, visto de fora, parece estranho.

Se tenho poucas pessoas e essas pessoas têm alguma relação comigo, é perfeitamente natural que muitas das reacções venham repetidamente das mesmas pessoas.

Não é um fenómeno estatístico extraordinário.

É simplesmente uma consequência lógica.

Se eu tivesse cinco mil desconhecidos, provavelmente teria cinco mil comportamentos diferentes.

Mas não tenho.

Tenho pessoas.

Pessoas que conheço.

Pessoas que me conhecem.

Colegas de trabalho.

Pessoas que fizeram parte do meu percurso escolar desde o primeiro ciclo até ao ensino superior.

Professores.

Antigos patrões.

Pessoas com quem trabalhei.

Familiares próximos.

Amigos.

Pessoas que foram entrando na minha vida ao longo de décadas.

E algumas dessas pessoas continuam lá.

Não por obrigação.

Não porque lhes pedi.

Não porque existe uma estratégia de reciprocidade.

Estão porque existe uma relação.

E talvez esta seja uma coisa que, por vezes, nos esquecemos de compreender:

o afecto também tem história.

Quando alguém escreve “querida”, talvez não esteja a tentar impressionar ninguém.

Talvez esteja simplesmente a falar como fala comigo há vinte anos.

Quando alguém escreve “adoro-te”, talvez não esteja a representar uma personagem para uma audiência.

Talvez exista realmente uma amizade construída ao longo de décadas.

Quando alguém diz “amo-te”, nem sempre está a falar de amor romântico.

Há o amor entre amigos.

O amor fraterno.

O amor familiar.

O amor de quem atravessou momentos difíceis connosco.

O amor de quem nos conhece há tanto tempo que já não precisa de grandes explicações.

E isso é importante.

Porque talvez tenhamos começado a olhar para as relações humanas com os olhos da métrica.

Quantos seguidores?

Quantos gostos?

Quantos comentários?

Quantas pessoas reagiram?

Quem comentou?

Quem não comentou?

Quem apareceu?

Quem desapareceu?

Como se uma relação pudesse ser avaliada através de uma grelha estatística.

Mas as relações humanas não funcionam assim.

Uma amizade de quarenta anos não cabe numa reacção.

Uma família não cabe num comentário.

Uma história partilhada não cabe num coração digital.

Uma pessoa que nos acompanhou durante décadas não se transforma numa simples “interacção”.

Existe uma diferença enorme entre ser popular e ser querido.

A popularidade pode ser quantitativa.

O afecto é profundamente qualitativo.

Podemos ter milhares de pessoas a olhar para nós e não ter ninguém que saiba onde estamos verdadeiramente quando fechamos a porta de casa.

E podemos ter poucas pessoas à nossa volta e possuir uma riqueza afectiva extraordinária.

Talvez seja por isso que eu não compreenda muito bem esta necessidade de desconfiar quando alguém demonstra afecto.

Se uma pessoa tem relações longas, sinceras e afectuosas, por que razão isso haveria de ser suspeito?

Porque algumas pessoas dizem coisas bonitas umas às outras?

Porque alguns amigos escrevem publicamente que gostam de nós?

Porque existe carinho?

Não deveria ser precisamente isso uma coisa boa?

Ou chegámos a um ponto em que demonstrar afecto passou a parecer embaraçoso?

É curioso.

Vivemos numa época em que tanta gente se queixa de solidão.

Fala-se constantemente da dificuldade em criar vínculos.

Da superficialidade das relações.

Da ausência de comunidade.

Da dificuldade em confiar.

E, quando alguém mostra que possui relações duradouras e afectuosas, há quem procure imediatamente uma explicação para desvalorizar aquilo.

Talvez porque seja mais confortável suspeitar do que reconhecer.

Mais fácil pensar:

“Alguma coisa deve estar por trás disto.”

do que admitir:

“Esta pessoa construiu relações que eu não conheço.”

E aqui entra uma característica muito humana:

temos tendência para interpretar o mundo a partir daquilo que conhecemos.

Se nunca tivemos determinado tipo de relação, podemos ter dificuldade em reconhecer que ela existe na vida de outra pessoa.

Se para nós determinada demonstração de afecto seria artificial, presumimos que também o seja para os outros.

Se não estamos habituados a dizer “gosto de ti”, estranhamos quem o diz.

Se não temos amigos que demonstram carinho, podemos interpretar esse carinho como exagero.

Mas o facto de uma coisa não fazer parte da nossa experiência não significa que seja falsa na experiência de outra pessoa.

Esta é uma das formas mais subtis de egocentrismo:

confundir aquilo que conhecemos com aquilo que existe.

E eu não quero viver assim.

Não quero desconfiar automaticamente da felicidade alheia.

Não quero transformar amizade em competição.

Não quero medir o afecto.

Não quero perguntar quantas pessoas gostam de alguém.

Prefiro perguntar:

essas pessoas gostam verdadeiramente umas das outras?

Porque isso é completamente diferente.

Uma reacção numa publicação pode durar um segundo.

Uma amizade pode durar uma vida.

Um comentário pode desaparecer no meio de centenas.

Uma memória pode permanecer durante quarenta anos.

E talvez seja essa a parte que as redes sociais não conseguem medir.

A profundidade.

Não existe botão para medir quantas vezes alguém esteve connosco quando ninguém estava a ver.

Não existe reacção para contabilizar quem nos segurou quando estávamos a cair.

Não existe métrica para a pessoa que apareceu quando não tínhamos nada para oferecer.

Não há algoritmo capaz de calcular a importância de alguém que conhece a nossa história desde crianças.

E é precisamente por isso que não me interessa muito a contabilidade das reacções.

Fico feliz quando os meus amigos gostam do que partilho.

Claro que fico.

Seria mentira dizer o contrário.

Gosto de saber que alguém leu aquilo que escrevi.

Que se identificou.

Que se emocionou.

Que encontrou uma palavra minha num determinado dia e sentiu que ela lhe serviu para alguma coisa.

E também faço exactamente o mesmo.

Se vejo algo de alguém que gosto, reajo.

Se gostei, digo que gostei.

Se admiro, digo.

Se quero felicitar, felicito.

Se tenho carinho, não vejo qualquer razão para escondê-lo.

Não tenho o chamado “ADN de espectadora fantasma”.

Se aceitei alguém na minha vida, não quero fingir que não vi.

Se gostei, gosto.

Se li, li.

Se me tocou, digo.

Talvez seja uma característica minha.

Mas prefiro assim.

Não acredito que demonstrar afecto seja diminuir-nos.

Pelo contrário.

A capacidade de dizer “gosto de ti” exige, muitas vezes, muito mais segurança interior do que fingir indiferença.

Há pessoas que têm medo de demonstrar carinho porque receiam parecer vulneráveis.

Eu não.

Não acho que dizer a alguém que é importante nos torne menores.

Acho que nos torna humanos.

E talvez seja essa a verdadeira diferença.

Algumas pessoas acumulam contactos.

Outras acumulam relações.

Algumas coleccionam números.

Outras coleccionam histórias.

Algumas preocupam-se com quem está a olhar.

Outras preocupam-se com quem está realmente presente.

Eu sei onde quero estar.

Prefiro a segunda categoria.

Prefiro poucas pessoas que conheçam o meu nome, a minha história e algumas das minhas imperfeições a milhares de pessoas que saibam apenas reconhecer a minha fotografia.

Prefiro alguém que me diga “estás bem?” e espere pela resposta a centenas de reacções automáticas.

Prefiro uma amizade de quarenta anos a uma multidão que amanhã já não se lembra de mim.

E talvez seja por isso que, naquele café, depois de pensar em tudo isto, percebi que a pergunta dizia muito mais sobre quem a fazia do que sobre aquilo que estava a tentar compreender.

Não senti necessidade de provar nada.

Nem de justificar a minha vida.

Apenas expliquei.

O meu perfil é fechado.

As pessoas que estão lá foram escolhidas.

E muitas delas fazem parte da minha história.

É natural que algumas estejam frequentemente presentes.

Não existe mistério.

Existe apenas relação.

Existe respeito.

Existe carinho.

Existe uma coisa que hoje parece quase revolucionária:

pessoas que gostam umas das outras e não têm vergonha de o demonstrar.

E talvez devêssemos recuperar isso.

Parar de transformar tudo em competição.

Parar de medir quem é superior.

Parar de interpretar o afecto alheio como ameaça.

Parar de desconfiar da felicidade dos outros só porque ela não se parece com a nossa.

Há espaço suficiente no mundo para que outra pessoa seja admirada sem que isso nos diminua.

Para que alguém seja amado sem que isso nos retire valor.

Para que uma mulher tenha muitos amigos sem que seja necessário procurar uma explicação.

Para que um homem demonstre carinho sem que a sua masculinidade seja questionada.

Para que pessoas adultas digam umas às outras:

“Gosto de ti.”

“Tenho orgulho em ti.”

“És importante para mim.”

“Estou aqui.”

Sem vergonha.

Sem cálculo.

Sem estratégia.

Porque talvez a verdadeira riqueza não esteja em conseguir que muitas pessoas saibam quem somos.

Talvez esteja em conseguir que algumas pessoas saibam quem somos de verdade.

E, depois de mais de quarenta anos, sentada num café com uma amiga que conheço desde criança, percebi novamente uma coisa simples:

há relações que não precisam de ser explicadas a quem está de fora.

Basta vivê-las.

E quando alguém pergunta por que razão as mesmas pessoas continuam a aparecer, talvez a resposta mais bonita seja também a mais simples:

porque algumas pessoas não estão ali para assistir à nossa vida.

Estão ali porque fazem parte dela.

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