"É também isto que é fazer amor"
Eu tenho um marido que me apoia diariamente.
E talvez seja precisamente por viver isto que consigo perceber, com tanta clareza, o valor extraordinário que existe em ser verdadeiramente acompanhado por alguém.
Não falo de uma relação perfeita. Não acredito em relações perfeitas porque não acredito em pessoas perfeitas. Falo de uma coisa muito mais concreta: duas pessoas que escolheram construir uma vida juntas e que, no meio da rotina, do cansaço, das diferenças, das preocupações e dos dias absolutamente banais, continuam a encontrar uma na outra um lugar onde podem repousar.
E pensei nas mulheres.
Nas esposas.
Nos homens.
Nos casais.
Será que sabemos realmente a importância que tem o apoio diário de quem amamos?
Porque, numa relação, tudo faz falta.
O desejo faz falta.
A atracção faz falta.
O beijo faz falta.
O toque faz falta.
A sexualidade faz falta.
A intimidade física é importante e não há nenhuma razão para fingirmos que não é.
Mas uma relação não se sustenta apenas naquilo que acontece quando os corpos se procuram.
Sustenta-se sobretudo naquilo que acontece quando a vida pesa.
E talvez seja aí que algumas pessoas ainda não compreenderam a verdadeira dimensão da intimidade.
É fácil estar apaixonado quando existe tempo, disposição, desejo, viagens, jantares, noites bonitas e tudo parece funcionar.
Mais difícil é amar quando chegam o cansaço, as preocupações, os filhos, o trabalho, as responsabilidades, os problemas, as contas, as noites mal dormidas e aqueles dias em que já não temos absolutamente nada para oferecer ao mundo.
É nesses dias que percebemos se temos ao nosso lado apenas alguém com quem partilhamos uma casa ou alguém com quem estamos verdadeiramente a partilhar uma vida.
Porque viver juntos não é necessariamente construir juntos.
E eu disse juntos.
Não significa um acumular responsabilidades enquanto o outro observa.
Não significa um carregar a casa, a família, as preocupações e a organização da vida enquanto o outro aparece apenas quando lhe é pedido.
Não significa chamar “ajuda” àquilo que deveria ser responsabilidade partilhada.
Construir uma vida a dois é outra coisa.
É repartir o peso.
É reparar.
É antecipar.
É cuidar.
É perceber que, às vezes, a pessoa que amamos não precisa de uma solução.
Precisa apenas de não estar sozinha.
E há qualquer coisa de profundamente íntimo num homem que conhece o cansaço da mulher que ama e, em vez de lhe acrescentar peso, se transforma em descanso.
Pensa nisso.
Chegas a casa depois de um dia inteiro a enfrentar o mundo.
Talvez tenhas resolvido problemas que ninguém viu.
Talvez tenhas sido forte porque não havia outra possibilidade.
Talvez tenhas cuidado de toda a gente.
Talvez tenhas sorrido quando só querias silêncio.
E finalmente fechas a porta de casa.
Ali dentro não precisas de ser forte.
Não precisas de provar nada.
Não precisas de estar sempre bem.
Não precisas de justificar o teu cansaço.
Podes simplesmente existir.
E alguém olha para ti e percebe.
Ser o lugar onde alguém pode finalmente deixar de se defender é uma das formas mais profundas de amor.
É por isso que um abraço, às vezes, diz muito mais do que aquilo que parece.
Dormir abraçados depois de um dia difícil pode parecer uma coisa pequena.
Não é.
Há uma linguagem silenciosa no corpo quando duas pessoas se aproximam sem pedir nada uma à outra.
É como dizer:
“Estou aqui.”
“Não precisas de enfrentar tudo sozinha.”
“Podes descansar.”
“Eu continuo contigo.”
E não existe necessariamente sexualidade nesse gesto.
Existe intimidade.
Existe segurança.
Existe pertença.
Existe afecto.
Existe a extraordinária sensação de que, apesar de tudo aquilo que aconteceu lá fora, existe um lugar onde não precisamos de permanecer permanentemente em estado de alerta.
E talvez seja por isso que tantas pessoas procurem, sem saber exactamente como nomeá-lo, aquilo que uma relação saudável deveria oferecer:
não apenas paixão, mas repouso.
Não apenas desejo, mas confiança.
Não apenas companhia, mas presença.
Não apenas alguém que nos queira, mas alguém com quem possamos baixar a guarda.
Porque existe uma diferença enorme entre ser desejada e sentir-se querida.
Precisamos das duas coisas.
Uma não substitui a outra.
O desejo diz:
“Quero-te.”
O carinho diz:
“Importas-me.”
A presença diz:
“Estou aqui.”
O compromisso diz:
“Fico.”
A cumplicidade diz:
“Conheço-te.”
E o cuidado diz:
“Reparei que estás cansada.”
Talvez o amor adulto seja precisamente a capacidade de deixar estas linguagens coexistirem.
Não escolher entre paixão e ternura.
Não substituir sexualidade por afecto.
Não transformar o casamento numa amizade sem desejo.
Mas também não transformar o casamento numa relação onde o corpo recebe atenção enquanto a pessoa permanece emocionalmente sozinha.
Porque isso também existe.
Há casais que têm intimidade física e uma enorme distância emocional.
Dormem na mesma cama, mas vivem em mundos diferentes.
Conhecem o corpo um do outro e desconhecem o cansaço.
Conhecem os desejos e desconhecem os medos.
Conhecem os hábitos e já não conhecem os sonhos.
E isso é uma forma particularmente silenciosa de solidão.
Por isso, quando digo que um abraço pode valer mais do que um momento íntimo de prazer, não estou a diminuir a sexualidade.
Estou a dizer outra coisa.
Estou a dizer que existem momentos em que aquilo de que mais precisamos não é de intensidade.
É de segurança.
Há noites em que o corpo quer desejo.
E há noites em que a alma quer colo.
Há dias em que queremos paixão.
E há dias em que queremos apenas encostar a cabeça ao peito de quem amamos e deixar que o mundo fique, por alguns minutos, do lado de fora.
E saber distinguir uma coisa da outra também é intimidade.
Amar alguém é aprender a lê-lo para além das palavras.
É perceber que “estou bem” pode significar “não tenho forças para explicar”.
É perceber que uma irritação pode ser cansaço.
Que um silêncio pode ser necessidade de repouso.
Que uma distância momentânea pode não ser rejeição.
E que, às vezes, a melhor declaração de amor não é dizer “amo-te”.
É fazer alguma coisa que permita ao outro sentir:
“Eu sei que a tua vida está pesada e não vou ser mais um peso.”
Isto é parceria.
E talvez seja por isso que tenha cada vez mais dificuldade em compreender relações onde duas pessoas competem para saber quem está mais cansado.
Quem fez mais.
Quem sofreu mais.
Quem tem mais direito a descansar.
O casamento não deveria ser uma contabilidade de sacrifícios.
Não deveria existir uma espécie de livro de contas emocional onde cada pessoa regista aquilo que fez para poder cobrar mais tarde.
“Eu fiz isto.”
“Eu fiz aquilo.”
“Eu sacrifiquei mais.”
“Eu dei mais.”
Isso não é construção.
É contabilização.
E ninguém consegue sentir-se verdadeiramente em casa numa relação onde está constantemente a prestar contas.
Uma relação saudável não significa ausência de conflitos.
Significa que o conflito não destrói a dignidade.
Não significa concordarmos sempre.
Significa sabermos discordar sem transformar o outro em inimigo.
Não significa estarmos sempre disponíveis.
Significa sabermos que, quando um de nós cai, o outro não aproveita a queda para provar que tinha razão.
É isto que torna o apoio diário tão extraordinariamente importante.
Porque ele diz:
“A tua vida também importa para mim.”
Não no sentido de controlar.
Não no sentido de salvar.
Não no sentido de deixar de existir individualmente.
Mas no sentido mais bonito da palavra companhia:
não estás sozinha nesta construção.
E isto vale para os homens também.
Não escrevo isto como uma acusação aos homens nem como uma idealização das mulheres.
Há mulheres que não sabem cuidar.
Há homens que cuidam extraordinariamente bem.
Há casamentos profundamente equilibrados e outros onde uma pessoa carrega quase tudo.
Não é uma questão de género.
É uma questão de consciência.
De maturidade.
De reciprocidade.
De capacidade de amar para além daquilo que recebemos.
Porque amar alguém não é apenas perguntar:
“Como me fazes sentir?”
É também perguntar:
“Como te faço sentir quando estás comigo?”
Esta pergunta devia ser feita muito mais vezes.
Quando a pessoa que amas chega a casa, sente alívio ou tensão?
Sente que pode descansar ou que precisa de continuar a funcionar?
Sente que pode falar ou precisa de medir cada palavra?
Sente-se admirada?
Respeitada?
Desejada?
Ouvida?
Amparada?
Livre?
Porque o lar não é apenas o lugar onde dormimos.
Pode ser o lugar onde recuperamos de tudo aquilo que o mundo nos exige.
E quando duas pessoas conseguem construir esse espaço uma para a outra, acontece qualquer coisa extraordinária.
A vida pode continuar difícil.
Os problemas não desaparecem.
As contas continuam.
O trabalho continua.
As preocupações continuam.
Mas já não se enfrenta tudo sozinho.
E isso muda tudo.
Talvez seja por isso que eu tenha chegado a uma conclusão muito simples:
o amor não vive apenas nos grandes momentos.
Vive na chávena de café que alguém prepara sem perguntar.
Na porta que alguém abre.
Na mensagem para saber se chegámos bem.
No silêncio respeitado.
Na preocupação discreta.
Na mão que procura a nossa durante a noite.
Na pessoa que percebe que estamos cansados antes de dizermos.
Na capacidade de dividir o peso sem transformar a divisão numa dívida.
No abraço depois de um dia difícil.
Na cumplicidade de um olhar.
No riso que ainda existe depois de tantos anos.
Na vontade de continuarmos a conhecer uma pessoa que julgávamos já conhecer tão bem.
E é aqui que deixo de falar apenas sobre aquilo que penso.
Porque eu tenho isto.
Tenho um marido que me apoia diariamente.
E sei exactamente o que isso significa.
Tenho um homem que, para mim, é presença quando preciso de presença, colo quando preciso de colo, cumplicidade quando preciso de cumplicidade e apoio quando a vida pesa.
É aquele que me conhece sem me reduzir ao que conhece.
Que me acompanha sem me prender.
Que me apoia sem me diminuir.
Que está comigo sem precisar de me apagar para existir.
E isso faz toda a diferença.
Não digo que ele seja perfeito.
Nem eu sou.
Não vivemos numa história sem dificuldades.
Vivemos numa vida real.
E talvez seja precisamente por ser real que valorizo tanto aquilo que temos.
Porque sei que o amor não se mede apenas pelo que sentimos nos momentos extraordinários.
Mede-se também pelo modo como tratamos alguém quando estamos cansados.
Pela forma como dividimos a rotina.
Pela maneira como atravessamos os dias difíceis.
Pelo cuidado que existe quando ninguém está a assistir.
Pela vontade de continuar a escolher a mesma pessoa mesmo quando o entusiasmo de um determinado dia já passou.
E, sobretudo, pela segurança de saber que existe alguém ao nosso lado que não torna a vida mais pesada do que ela já é.
Eu tenho esse lugar.
Tenho esse abraço.
Tenho esse homem.
E tenho plena consciência da sorte que isso representa.
Por isso, quando falo de intimidade, não falo apenas de corpos.
Falo de duas pessoas que se conhecem por dentro.
Que se desejam, sim.
Mas que também se protegem.
Que se tocam.
Mas também se escutam.
Que se beijam.
Mas também se amparam.
Que partilham a cama.
Mas também partilham o peso da vida.
Porque fazer amor não acontece apenas quando os corpos se encontram.
Às vezes acontece quando um de nós está exausto e o outro lhe tira um pouco do peso dos ombros.
Acontece quando cuidamos sem contabilizar.
Quando escutamos sem procurar imediatamente corrigir.
Quando abraçamos sem esperar nada.
Quando fazemos alguma coisa para que o outro possa respirar.
Quando protegemos a paz da pessoa que amamos.
Quando fazemos da nossa presença um lugar seguro.
E talvez seja essa a forma mais bonita de intimidade:
chegar ao fim de um dia em que o mundo nos pediu tudo e encontrar alguém que não nos pede absolutamente nada.
Apenas abre os braços.
E diz, sem precisar de palavras:
“Vem. Já chegaste a casa.”
Isso também é fazer amor.
E eu sei.
Porque é assim que sou amada.
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