"Antes de querer alguém, aprende a conhecê-lo"

O que vos escrevo vale para eles e para elas.

Para homens e mulheres.

Para quem ama.

Para quem é casado.

Para quem namora.

Para quem é pai ou mãe.

Para quem é filho.

Para quem tem amigos.

Para quem procura alguém com quem partilhar a vida e para quem, simplesmente, deseja construir relações humanas que tenham mais profundidade do que aparência.

Porque existe uma pobreza relacional que não se mede pelo número de pessoas que temos à nossa volta, mas pela incapacidade de verdadeiramente conhecermos aquelas que estão perto de nós.

E talvez seja aqui que esteja uma das maiores confusões do nosso tempo:

confundimos acesso com intimidade.

Ter acesso ao corpo de alguém não significa conhecer essa pessoa.

Ter acesso à vida de alguém não significa compreender a sua história.

Saber onde alguém está não significa saber onde essa pessoa se encontra interiormente.

Conhecer os hábitos de alguém não significa conhecer aquilo que o inquieta quando fica sozinho.

E podemos viver vinte anos ao lado de uma pessoa e continuar a desconhecer partes essenciais dela.

A maioria dos homens não perde grandes mulheres por falta de beleza.

E muitas mulheres também não perdem grandes homens por falta de aparência.

Perdemo-nos uns dos outros, muitas vezes, por falta de profundidade.

Porque há pessoas que sabem desejar um corpo, mas não sabem aproximar-se de uma mente.

Sabem procurar atenção, mas não sabem oferecer presença.

Sabem seduzir, mas não sabem construir confiança.

Sabem conquistar, mas não sabem permanecer.

E existe uma diferença enorme entre despertar o interesse de alguém e ser capaz de sustentar uma relação com essa pessoa.

A aparência pode despertar o olhar.

A inteligência pode despertar a curiosidade.

A personalidade pode despertar admiração.

A confiança permite aproximação.

A intimidade exige segurança.

E uma relação verdadeira precisa de tudo isso, mas precisa ainda de algo mais difícil:

vontade de conhecer o outro continuamente.

Porque ninguém é uma fotografia.

Ninguém é uma primeira impressão.

Ninguém é apenas o corpo que vemos, a profissão que exerce, o papel que desempenha na família, o sorriso que apresenta aos outros ou aquilo que publica nas redes sociais.

Somos histórias.

Somos memória.

Somos educação.

Somos feridas.

Somos desejos.

Somos valores.

Somos medos.

Somos aquilo que aprendemos e aquilo que ainda estamos a aprender.

Somos também as contradições que demorámos anos a compreender.

E amar alguém é, em certa medida, aceitar o trabalho paciente de conhecer essa complexidade sem tentar reduzi-la a uma categoria conveniente.

Antes de quereres o corpo dela, aprende a alcançar a mente.

Mas também:

antes de desejares o corpo dele, aprende a compreender quem ele é.

Antes de procurares intimidade, aprende a construir confiança.

Antes de exigires amor, aprende a tornar-te alguém capaz de o receber sem o destruir.

Antes de quereres ser escolhido, pergunta-te se és alguém com quem valha a pena construir uma vida.

Porque uma relação não se sustenta apenas naquilo que sentimos quando estamos próximos.

Sustenta-se naquilo que fazemos quando estamos cansados.

Quando discordamos.

Quando estamos frustrados.

Quando o outro deixa de corresponder à imagem idealizada que construímos.

Quando surgem problemas.

Quando a paixão abranda.

Quando a vida deixa de parecer um filme e passa a ser aquilo que realmente é: contas, doenças, filhos, trabalho, preocupações, cansaço, responsabilidades, envelhecimento, perdas e decisões difíceis.

É aí que se descobre se existia apenas atracção ou se existia relação.

Porque a atracção pode aproximar duas pessoas.

Mas não lhes ensina necessariamente a permanecer.

O desejo pode incendiar.

Mas não sabe, sozinho, construir uma casa.

E uma relação precisa de uma casa emocional.

Precisa de respeito.

Precisa de escuta.

Precisa de admiração.

Precisa de curiosidade.

Precisa de reciprocidade.

Precisa de liberdade.

Precisa de espaço para que duas pessoas continuem a ser indivíduos sem deixarem de ser companheiros.

E precisa, sobretudo, de interesse genuíno pelo mundo interior do outro.

Quais são os sonhos dele?

O que é que a assusta?

Que experiências o marcaram?

Que princípios não está disposto a trair?

O que considera imperdoável?

O que o faz rir?

O que o faz chorar?

Que futuro imagina?

Que infância carrega?

Que pessoa gostaria de ser?

O que ainda não conseguiu perdoar a si próprio?

O que precisa quando está triste?

O que faz quando tem medo?

O que significa, para ele, sentir-se amado?

E será que nós sabemos responder a estas perguntas sobre as pessoas que dizemos amar?

Às vezes conhecemos a cor preferida de alguém, mas não conhecemos os seus valores.

Conhecemos o prato de que gosta, mas não conhecemos aquilo que o faz perder o sono.

Conhecemos os seus hábitos, mas não conhecemos os seus princípios.

Conhecemos o corpo, mas nunca perguntámos verdadeiramente pela alma.

E isto não acontece apenas nos relacionamentos amorosos.

Acontece em todo o lado.

Acontece na amizade.

Há amizades que sobrevivem durante anos alimentadas apenas por memória.

Duas pessoas já não se conhecem verdadeiramente, mas continuam ligadas à versão antiga uma da outra.

“Ela é assim.”

“Ele sempre foi assim.”

E talvez já não sejam.

Talvez tenham mudado.

Talvez tenham sofrido.

Talvez tenham amadurecido.

Talvez tenham descoberto coisas sobre si próprios que ainda não conseguiram contar.

Uma amizade profunda não é aquela em que sabemos tudo sobre o outro.

É aquela em que continuamos interessados em descobrir quem ele está a tornar-se.

Porque as pessoas não são estátuas.

Estão em movimento.

E amar alguém, de qualquer forma, exige acompanhar esse movimento.

Também acontece entre pais e filhos.

Talvez aqui a nossa responsabilidade seja ainda maior.

Porque um filho não nasce para ser a continuação dos sonhos dos pais.

Nasce como pessoa.

Com uma personalidade que não escolhemos.

Com talentos que talvez não compreendamos.

Com sensibilidades diferentes das nossas.

Com sonhos que podem não coincidir com aquilo que imaginámos.

E há uma forma subtil de não conhecer um filho:

conhecer apenas aquilo que esperamos que ele seja.

Um pai pode saber as notas do filho, os horários, as actividades, os amigos, as obrigações e os resultados.

Mas sabe aquilo que o filho teme?

Sabe aquilo que o envergonha?

Sabe aquilo que o faz sentir-se inadequado?

Sabe quando ele precisa de conselho e quando precisa apenas de ser ouvido?

Sabe quais são as perguntas que ainda não teve coragem de fazer?

Sabe quem ele é quando ninguém está a olhar?

Educar não é apenas corrigir comportamentos.

É conhecer uma pessoa enquanto ela se constrói.

E talvez uma das maiores formas de amor que um pai pode oferecer a um filho seja esta:

“Eu quero conhecer-te como és, não apenas ensinar-te aquilo que espero que sejas.”

O mesmo vale para os filhos.

Há pais que envelhecem diante dos nossos olhos e continuam a ser tratados apenas pelo papel que desempenharam.

“É a minha mãe.”

“É o meu pai.”

Mas antes de serem nossos pais, eram pessoas.

Tiveram sonhos.

Tiveram medos.

Fizeram escolhas.

Erraram.

Apaixonaram-se.

Tiveram desilusões.

Tiveram ambições que talvez tenham ficado pelo caminho.

E há uma idade em que talvez devêssemos começar a perguntar aos nossos pais não apenas aquilo que precisamos deles, mas aquilo que eles foram antes de nós existirmos.

Quem eras tu antes de seres minha mãe?

O que sonhavas?

Do que tinhas medo?

O que querias fazer da tua vida?

Que coisas nunca me contaste?

Talvez descubramos que os nossos pais não são apenas as figuras que nos deram origem.

São seres humanos inteiros que também passaram pela difícil tarefa de aprender a viver.

E isto vale para todos os vínculos.

Porque o amor, quando é verdadeiro, não transforma o outro num objecto.

Nem num troféu.

Nem numa extensão de nós próprios.

Nem num fornecedor permanente de afecto, sexo, validação, segurança ou companhia.

O outro continua a ser outro.

E essa alteridade precisa de ser respeitada.

É precisamente por isso que a intimidade verdadeira é tão diferente da simples proximidade.

A proximidade aproxima corpos.

A intimidade aproxima mundos.

E duas pessoas podem estar fisicamente muito próximas e emocionalmente separadas por uma distância enorme.

Também podem existir milhares de quilómetros entre duas pessoas e uma compreensão extraordinariamente profunda.

A diferença está na qualidade do encontro.

Porque conhecer alguém é prestar atenção.

É reparar.

É recordar.

É perguntar.

É escutar.

É perceber mudanças.

É não transformar imediatamente tudo aquilo que o outro diz numa defesa pessoal.

É permitir que ele tenha uma realidade interior diferente da nossa.

E isto exige maturidade.

Porque uma das tentações mais perigosas das relações humanas é amar a pessoa que imaginámos em vez da pessoa que realmente temos diante de nós.

Construímos uma imagem.

Apaixonamo-nos por ela.

Depois, quando a realidade aparece, sentimos que o outro mudou.

Às vezes não mudou.

Nós é que finalmente começámos a vê-lo.

Por isso, não procures apenas alguém que te atraia.

Procura alguém cuja presença te desperte respeito.

Não procures apenas alguém que te deseje.

Procura alguém que tenha curiosidade pelo teu mundo interior.

Não procures apenas quem diga que te ama.

Observa como te trata quando não concorda contigo.

Não procures apenas quem te admira quando tudo corre bem.

Observa quem permanece quando estás vulnerável.

E não te esqueças de fazer exactamente o mesmo.

Porque é muito fácil exigir profundidade aos outros e continuar superficial na forma como nos relacionamos.

Queremos ser compreendidos, mas interrompemos.

Queremos ser respeitados, mas desvalorizamos.

Queremos confiança, mas escondemos.

Queremos reciprocidade, mas damos apenas quando nos convém.

Queremos que alguém conheça a nossa alma, mas nunca fazemos perguntas suficientes para conhecer a alma de quem está diante de nós.

Uma relação profunda não é uma espécie de milagre que acontece entre duas pessoas excepcionais.

É um trabalho quotidiano de atenção.

É lembrar aquilo que o outro contou há seis meses.

É perceber que determinada data lhe custa.

É saber quando um silêncio significa cansaço e quando significa sofrimento.

É conhecer o modo particular como alguém pede ajuda sem dizer directamente que precisa dela.

É saber quando abraçar.

Quando falar.

Quando calar.

Quando ficar.

E quando, por amor e respeito, dar espaço.

Talvez seja isto que diferencia uma relação que apenas existe de uma relação que verdadeiramente vive.

Porque no fim não queremos apenas alguém que esteja connosco.

Queremos alguém que nos veja.

E também queremos ser capazes de ver.

Ver para além do rosto.

Para além do corpo.

Para além do papel social.

Para além daquilo que nos é conveniente.

Ver a pessoa.

A pessoa inteira.

Com a sua história e as suas imperfeições.

Com as suas forças e fragilidades.

Com aquilo que mostra e aquilo que ainda não consegue mostrar.

E talvez seja essa a forma mais bonita de amar:

não querer possuir uma pessoa, mas querer conhecê-la.

Não querer moldá-la, mas compreender quem ela é.

Não procurar apenas aquilo que ela pode oferecer-nos, mas perguntar também aquilo que podemos oferecer-lhe.

Porque quem procura apenas um corpo encontra um corpo.

Quem procura apenas companhia encontra companhia.

Quem procura apenas utilidade encontra utilidade.

Mas quem procura uma pessoa encontra um universo.

E quando dois universos conseguem encontrar-se sem se destruírem, sem se anularem e sem deixarem de ser eles próprios, acontece qualquer coisa extraordinariamente rara:

uma relação.

Não apenas uma presença.

Não apenas uma necessidade.

Não apenas uma atracção.

Não apenas um vínculo imposto pelo sangue.

Mas um verdadeiro encontro humano.

E talvez seja isso que devêssemos procurar uns nos outros.

Menos aparência.

Mais presença.

Menos posse.

Mais compreensão.

Menos julgamento.

Mais curiosidade.

Menos necessidade de sermos admirados.

Mais capacidade de admirar.

Porque, no fim, a pergunta mais importante talvez não seja:

“Quão atraente é esta pessoa?”

Nem:

“O que é que ela pode dar-me?”

Mas:

“Quem é ela quando ninguém está a olhar?”

E, sobretudo:

“Tenho vontade suficiente de a conhecer para descobrir?”

É aí que começa a verdadeira intimidade.

É aí que começa a amizade.

É aí que começa uma família emocionalmente viva.

É aí que começa um casamento que não depende apenas da paixão.

É aí que começa uma relação entre pais e filhos baseada não apenas na autoridade, mas no conhecimento mútuo.

E é aí, talvez, que começamos finalmente a deixar de procurar pessoas para preencher lugares e começamos a encontrá-las como aquilo que realmente são:

seres humanos inteiros, irrepetíveis, complexos e dignos de serem conhecidos antes de serem julgados, desejados, corrigidos, escolhidos ou amados.

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