"Tempos coevos"
No tempo dos meus avós, os porcos tinham uma função simples e bastante apreciada: serviam para as típicas bifanas, às quais poucos conseguem ficar indiferentes.
Nos tempos coevos, porém, os porcos parecem ter evoluído. Já não se limitam a grunhir, chafurdar na lama e acabar numa bifana: alguns falam, escrevem, fazem vídeos, dão lições e, aparentemente, até possuem licenciatura em tudo aquilo sobre que decidem opinar. A ciência académica dos mesmos já não se resume à lama — embora, por vezes, o conteúdo continue surpreendentemente próximo dela.
O problema, naturalmente, não está em ter uma opinião. A liberdade de expressão é demasiado importante para ser confundida com isso. O problema começa quando a internet passa de espaço de diálogo a megafone de boatos; quando a insinuação é apresentada como facto, a mentira ganha o estatuto de “informação” e a ofensa é disfarçada de coragem.
Há quem pareça ter descoberto uma fórmula extraordinária: fala-se mais alto, repete-se mais vezes, publica-se um vídeo, escolhe-se um alvo e, de repente, a opinião transforma-se em sentença. Quem discorda deixa de ser interlocutor e passa a ser inimigo. Quem questiona é silenciado. E quem ousa apresentar factos arrisca-se a ser acusado de tudo, menos de pensar.
É assim que se constrói um perigoso monopólio da opinião: não através da razão, mas através da repetição, do ruído, da humilhação pública e da exploração do ressentimento. E quando o objectivo deixa de ser discutir ideias para passar a ser destruir pessoas, já não estamos perante uma troca de opiniões — estamos perante propaganda pessoal com ligação à internet.
Talvez seja esta a grande ironia dos nossos tempos: nunca tivemos tanta informação ao alcance de um clique e, simultaneamente, nunca foi tão fácil transformar um boato em “verdade”, uma ofensa em argumento e o ódio em conteúdo.
No tempo dos meus avós, a lama ficava no chiqueiro.
Hoje, há quem a transmita em alta definição.
A “bússola dos tempos” está realmente de pantanas. E talvez o mais preocupante não seja já não sabermos para onde aponta, mas termos começado a confundir o ruído com o norte.
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