"II Escola da fé"

Revelação: quando Deus Se dá a conhecer

Se o primeiro passo foi compreender o que significa religião, o passo seguinte é inevitável: o que distingue a fé cristã de uma simples procura humana pelo transcendente?

A resposta encontra-se numa palavra fundamental de toda a teologia cristã:

Revelação.

Sem Revelação, teríamos religião no sentido mais amplo do termo: o ser humano procurando Deus, interrogando o sentido da existência, elevando os olhos para aquilo que o ultrapassa.

Com a Revelação, porém, acontece uma inversão extraordinária.

Já não somos apenas nós a procurar Deus.

É Deus quem Se dá a conhecer.

E esta pequena diferença contém praticamente toda a arquitectura da fé cristã.


Revelação não significa simplesmente “Deus contar coisas”

Quando ouvimos a palavra “revelação”, podemos imaginar alguém que possui uma informação secreta e decide transmiti-la.

Não é esse o sentido cristão.

A Revelação não consiste primariamente na transmissão de informações acerca de Deus.

Consiste na autocomunicação de Deus.

Deus não revela apenas algo sobre Si.

Deus revela-Se.

É uma diferença teologicamente decisiva.

Uma pessoa pode fornecer-me informações sobre si sem estabelecer comigo uma relação profunda. Mas quando alguém se revela verdadeiramente, abre a sua interioridade, oferece a sua confiança e permite que o outro entre numa relação pessoal consigo.

Na perspectiva cristã, é isso que acontece entre Deus e a humanidade.

A Revelação é simultaneamente palavra e relação.

Deus fala, mas aquilo que comunica é inseparável daquilo que é.


Revelação natural e Revelação sobrenatural

A tradição teológica distingue habitualmente dois modos fundamentais através dos quais o ser humano pode chegar ao conhecimento de Deus.

Revelação natural

É aquilo que o ser humano pode reconhecer através da criação, da razão e da própria realidade.

A ordem do universo, a existência, a contingência das coisas, a consciência moral, a inteligência e a experiência humana podem conduzir a perguntas acerca de um fundamento último da realidade.

A criação pode ser compreendida como um vestígio.

Não é Deus.

Mas pode apontar para Deus.

É por isso que a tradição cristã nunca considerou a razão inimiga da fé.

A inteligência humana pode perguntar:

Porque existe alguma coisa?

Porque existe ordem?

Existe um fundamento último da realidade?

De onde vem a inteligibilidade do universo?

Existe uma realidade transcendente?

Estas perguntas não são ainda o Evangelho.

Mas podem preparar o caminho para ele.

Revelação sobrenatural

Aqui entramos num âmbito diferente.

A razão humana pode procurar Deus, mas não poderia, por si própria, inventar a história da salvação.

Não poderia deduzir filosoficamente que Deus faria uma aliança com Abraão.

Não poderia concluir simplesmente pela razão que o Verbo assumiria a natureza humana.

Não poderia demonstrar que Jesus de Nazaré ressuscitaria dos mortos.

Não poderia construir racionalmente o mistério da Trindade.

Tudo isso pertence à iniciativa gratuita de Deus.

A Revelação sobrenatural significa precisamente que Deus comunica à humanidade aquilo que esta não poderia alcançar apenas pelas suas próprias capacidades.


Deus revela-Se na história

Uma das características mais extraordinárias da Revelação bíblica é o seu carácter histórico.

O Deus bíblico não aparece como uma abstracção filosófica desligada do tempo.

Ele entra na história.

Chama pessoas concretas.

Forma um povo.

Estabelece alianças.

Liberta.

Corrige.

Perdoa.

Promete.

Envia profetas.

E conduz progressivamente a humanidade para uma plenitude.

Por isso, a Bíblia não deve ser lida como um manual de frases religiosas isoladas.

É uma história de relação entre Deus e a humanidade.

Há uma pedagogia divina.

Deus revela-Se progressivamente.

Não porque Deus evolua ou passe de ignorante a sábio, mas porque o ser humano é progressivamente preparado para receber aquilo que Deus lhe comunica.

A Revelação possui, portanto, uma dimensão pedagógica.


A Aliança

Uma das grandes categorias bíblicas para compreender a Revelação é a Aliança.

Deus não quer apenas ser conhecido.

Quer estabelecer uma relação.

Encontramos esta lógica desde Noé, Abraão e Moisés até à Nova Aliança realizada em Cristo.

A Aliança não é simplesmente um contrato.

Um contrato estabelece obrigações jurídicas entre partes.

A Aliança bíblica possui uma dimensão relacional muito mais profunda.

Deus estabelece comunhão.

É por isso que a linguagem bíblica utiliza frequentemente imagens familiares:

Deus como Pai.

Israel como filho.

Deus como esposo.

O povo como esposa.

Cristo como Esposo.

A Igreja como Esposa.

A Revelação é, portanto, inseparável da relação.

Deus revela o Seu rosto porque quer conduzir o ser humano para a comunhão consigo.


A Revelação culmina em Cristo

Aqui chegamos ao centro.

Tudo aquilo que encontramos no Antigo Testamento aponta para uma plenitude.

Essa plenitude é Jesus Cristo.

O cristianismo não afirma simplesmente que Jesus trouxe uma mensagem de Deus.

Afirma algo incomparavelmente maior:

Jesus é a própria Palavra de Deus feita carne.

O prólogo do Evangelho segundo São João exprime isto de forma extraordinariamente profunda:

“E o Verbo fez-Se carne.”

O termo grego utilizado é Logos.

O Logos não é simplesmente “uma palavra” no sentido corrente.

É Palavra, Razão, Sentido, princípio inteligível.

O cristianismo afirma que este Logos eterno, pelo qual todas as coisas foram criadas, entrou na história humana.

Isto é o coração da Cristologia.

E é precisamente aqui que a Revelação deixa de ser apenas uma comunicação verbal.

Deus torna-Se presente numa existência humana concreta.

Jesus de Nazaré.


Jesus Cristo não é apenas mensageiro

Esta distinção é essencial.

Um profeta diz:

“Assim fala o Senhor.”

Jesus, porém, fala com uma autoridade extraordinariamente diferente.

Não apresenta simplesmente uma mensagem recebida de outro.

Fala com autoridade própria.

“Eu sou…”

“Eu digo-vos…”

“Quem Me vê, vê o Pai.”

Esta linguagem explica por que razão a cristologia se tornou tão central nos primeiros séculos.

A Igreja teve de responder à pergunta:

Quem é realmente Jesus?

Se fosse apenas homem, não seria possível compreender a dimensão daquilo que os primeiros cristãos afirmavam sobre Ele.

Se fosse apenas Deus e não verdadeiramente homem, a Encarnação perderia o seu significado.

A fé cristã chegou, através de séculos de reflexão, debates e concílios, a uma formulação fundamental:

Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Não metade Deus e metade homem.

Não uma mistura.

Não duas pessoas.

Uma única Pessoa divina, o Filho eterno, com verdadeira natureza divina e verdadeira natureza humana.

Aqui começamos a entrar no coração do Mistério Cristológico.


A Encarnação

A Encarnação significa que o Filho eterno de Deus assumiu verdadeiramente a natureza humana.

Não significa que Deus simplesmente “pareceu” humano.

Jesus teve corpo humano.

Nasceu.

Cresceu.

Sentiu fome.

Sentiu sede.

Cansou-Se.

Chorou.

Sofreu.

Amou.

Teve relações humanas.

Foi sujeito à morte.

Mas, simultaneamente, permanece o Filho eterno do Pai.

É precisamente por isso que a Encarnação é tão radical.

Deus não salva a humanidade mantendo-Se exterior à condição humana.

Entra nela.

Assume-a.

Vive-a.

E leva-a, através da morte e da ressurreição, à sua plenitude.


A Revelação possui um centro: o amor

Se Deus Se revela, temos de perguntar porquê.

Não porque Deus tenha necessidade de ser conhecido.

Não porque precise de adoradores para completar alguma carência.

Não porque o ser humano possa acrescentar alguma coisa à perfeição divina.

Deus revela-Se por amor.

A Revelação é, portanto, inseparável da lógica da graça.

Deus oferece-Se.

A criação é dom.

A aliança é dom.

A encarnação é dom.

A redenção é dom.

A graça é dom.

A salvação é dom.

E é precisamente por isso que a fé não pode ser reduzida a uma lista de obrigações religiosas.

Antes da obrigação existe uma iniciativa.

Deus ama primeiro.

A resposta humana vem depois.


Escritura, Tradição e Magistério

Se Deus Se revelou na história, surge uma pergunta inevitável:

Como chega essa Revelação até nós?

A resposta católica não é simplesmente “através da Bíblia”.

A Bíblia é absolutamente central, mas a Igreja compreende a transmissão da Revelação através da íntima relação entre Sagrada Escritura e Sagrada Tradição, confiadas à Igreja e interpretadas autenticamente pelo Magistério.

Isto não significa que existam três revelações diferentes.

Existe uma única Revelação divina.

Aquilo que existe são diferentes dimensões da sua transmissão, conservação, celebração e interpretação.

A Escritura é Palavra de Deus escrita sob a inspiração do Espírito Santo.

A Tradição transmite aquilo que os Apóstolos receberam de Cristo e do Espírito Santo e confiaram à Igreja.

O Magistério possui a missão de servir a Palavra de Deus, não de se colocar acima dela.

Este ponto é fundamental.

A Igreja não é proprietária da Revelação.

É sua serva e guardiã.


Inspiração bíblica não significa ditado divino

Outro equívoco frequente consiste em imaginar que Deus “ditou” a Bíblia palavra por palavra aos seus autores.

A doutrina católica da inspiração é muito mais rica.

Deus é verdadeiro autor da Escritura.

Mas os autores humanos também são verdadeiros autores.

Escreveram utilizando a sua linguagem, cultura, conhecimentos, géneros literários e circunstâncias históricas.

Por isso, estudar a Bíblia exige também hermenêutica.

É necessário perguntar:

Quem escreveu?

Em que época?

Para quem?

Com que finalidade?

Que género literário está a ser utilizado?

Qual é o contexto histórico?

Qual é a intenção teológica do autor?

Uma leitura intelectualmente responsável da Bíblia não pode arrancar uma frase do seu contexto e transformá-la numa espécie de slogan religioso.

A Palavra de Deus não precisa da nossa desonestidade intelectual para ser defendida.


Revelação e fé

Deus revela-Se.

Mas a Revelação exige uma resposta.

Essa resposta chama-se .

A fé não é uma espécie de salto irracional no vazio.

É uma resposta livre à iniciativa de Deus.

Por isso, a fé possui simultaneamente dimensões intelectuais, volitivas, relacionais e existenciais.

Eu reconheço aquilo que Deus revela.

Dou-lhe assentimento.

Confio.

Entrego-me.

Vivo de acordo com essa confiança.

A fé cristã é, portanto, muito mais do que afirmar que certas proposições são verdadeiras.

É confiar numa Pessoa.

E essa Pessoa é Cristo.


O silêncio de Deus

Existe, porém, uma questão profundamente humana.

Se Deus Se revela, porque parece tantas vezes silencioso?

Porque existem pessoas que procuram e não encontram?

Porque há sofrimento?

Porque há momentos em que rezamos e parece que nenhuma resposta chega?

A Revelação não elimina automaticamente estas perguntas.

A própria Bíblia está cheia delas.

Os Salmos perguntam.

Os profetas lamentam.

Jó interroga.

Jesus, na cruz, entra no abismo do sofrimento humano.

A fé cristã não é uma anestesia contra a realidade.

Não promete uma existência sem silêncio.

Promete uma presença.

E esta distinção é enorme.

Às vezes, a Revelação não consiste em Deus responder a todas as nossas perguntas.

Consiste em Deus permanecer connosco dentro da pergunta.


O mistério permanece

Conhecer Deus não significa eliminar o mistério de Deus.

Pelo contrário.

Quanto mais profundamente se entra na teologia, mais se percebe que Deus não pode ser reduzido a uma definição.

Podemos dizer que Deus é amor.

Podemos falar da Trindade.

Podemos estudar a Encarnação.

Podemos analisar os Concílios.

Podemos estudar a Escritura durante uma vida inteira.

Podemos conhecer Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, os Padres da Igreja, os grandes teólogos e os documentos do Magistério.

E, ainda assim, Deus permanece infinitamente maior.

Isso não é fracasso.

É precisamente aquilo que significa mistério.


Da Revelação à liturgia

Existe ainda uma consequência extraordinária.

A Revelação não é apenas algo que estudamos.

É algo que celebramos.

É aqui que Revelação e Liturgia se encontram.

Quando a Igreja proclama a Escritura, quando celebra os sacramentos, quando baptiza, quando unge, quando perdoa sacramentalmente, quando celebra a Eucaristia, quando percorre o Ano Litúrgico, não está simplesmente a recordar acontecimentos antigos.

Está a entrar sacramentalmente no mistério de Cristo.

A liturgia é, por isso, inseparável da Revelação.

Aquilo que Deus revelou é aquilo que a Igreja anuncia, celebra e procura viver.

A teologia procura compreender.

A liturgia celebra.

A espiritualidade vive.

A missão anuncia.

E tudo converge para Cristo.


A Revelação pede uma transformação

No fim, compreender a Revelação não pode deixar-nos exactamente onde estávamos.

Se Deus Se revela, a pergunta não pode ser apenas:

“O que aprendi?”

Tem de ser também:

“O que faço com aquilo que aprendi?”

Porque conhecer Cristo e permanecer indiferente a Cristo é uma contradição que merece ser interrogada.

Conhecer a misericórdia e continuar incapaz de perdoar.

Conhecer a dignidade humana e humilhar o outro.

Conhecer o Evangelho e utilizá-lo para julgar constantemente.

Conhecer a cruz e fugir sempre do compromisso.

Conhecer a Eucaristia e esquecer o irmão.

Tudo isto mostra que conhecimento religioso e conversão não são necessariamente a mesma coisa.

Podemos saber muito sobre Deus e viver pouco de Deus.

É por isso que a verdadeira teologia deve conduzir à vida.


Para guardar

A Revelação cristã pode ser resumida numa sequência que será fundamental para tudo aquilo que estudaremos daqui para a frente:

Deus revela-Se → o ser humano escuta → responde pela fé → entra numa relação de aliança → Cristo constitui a plenitude da Revelação → a Igreja recebe e transmite essa Revelação → a liturgia celebra o mistério → a vida cristã procura encarná-lo.

E no centro de tudo permanece Cristo.

Não uma ideia.

Não uma filosofia.

Não uma personagem distante da história.

Uma Pessoa.

É por isso que estudar teologia não é simplesmente aprender conceitos religiosos.

É tentar compreender, com a inteligência e com a fé, o mistério de um Deus que decidiu não permanecer desconhecido e que, em Jesus Cristo, entrou na história humana para Se dar a conhecer e para nos chamar à comunhão consigo.

E talvez seja precisamente aqui que a frase inicial desta caminhada ganha todo o seu peso:

para amar, temos de conhecer.

Mas, na fé cristã, acontece também o movimento inverso:

quanto mais profundamente conhecemos Aquele que amamos, mais percebemos que ainda temos infinitamente mais para conhecer.

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