"As tempestades não testam as folhas"

Olha para uma árvore durante uma tempestade.

Não para a árvore num daqueles dias tranquilos em que o sol atravessa a copa, as folhas parecem quase imóveis e tudo à sua volta transmite uma falsa sensação de permanência.

Olha para ela quando o céu escurece.

Quando o vento começa a levantar-se.

Quando os ramos se vergam.

Quando as folhas deixam de obedecer à forma habitual da copa e começam a ser arrancadas uma a uma.

É nesse instante que percebemos uma coisa que os dias tranquilos conseguem esconder durante muito tempo:

uma árvore não é sustentada por aquilo que vemos.

A parte mais importante dela está debaixo da terra.

Escondida.

Silenciosa.

Invisível.

As raízes.

E talvez exista aqui uma das metáforas mais antigas e mais exactas para compreender a própria condição humana.

Também nós temos uma copa.

Aquilo que o mundo vê.

O sorriso que mostramos.

A maneira como falamos.

As fotografias que publicamos.

As conquistas que contamos.

A serenidade que aparentamos.

A roupa que vestimos.

A casa onde vivemos.

A família que apresentamos.

A profissão.

A reputação.

As convicções que afirmamos.

Até a nossa fé, por vezes.

Tudo isso são folhas.

Não necessariamente falsas.

Mas visíveis.

E aquilo que é visível pode ser cuidadosamente organizado.

Podemos escolher a fotografia.

Podemos escolher a frase.

Podemos escolher o momento em que aparecemos.

Podemos esconder o cansaço.

Podemos disfarçar o medo.

Podemos sorrir enquanto estamos a atravessar uma guerra interior que ninguém imagina.

O ser humano aprendeu extraordinariamente bem a construir copas.

Aprendeu a parecer inteiro mesmo quando está partido.

Aprendeu a dizer “está tudo bem” quando não está.

Aprendeu a transformar sofrimento em produtividade, insegurança em arrogância, medo em controlo, fragilidade em dureza e solidão em independência.

E, durante algum tempo, pode funcionar.

Até chegar a tempestade.

Porque há coisas que só uma tempestade consegue revelar.

Não necessariamente porque ela nos destrói.

Mas porque nos retira a possibilidade de continuar a representar.

A tempestade não está interessada na nossa imagem.

Não se impressiona com a nossa reputação.

Não sabe quantas pessoas gostam de nós.

Não sabe quantos elogios recebemos.

Não sabe quantos seguidores temos.

Não sabe quanto dinheiro ganhamos.

Não sabe quantas vezes fomos considerados fortes.

O vento simplesmente sopra.

E, quando sopra suficientemente forte, pergunta sem palavras:

“E agora? Em que estás realmente apoiada?”

É uma pergunta brutal.

Mas extraordinariamente honesta.

Porque podemos passar anos a construir uma vida inteira sobre coisas que confundimos com fundamentos.

Podemos acreditar que somos fortes porque nunca tivemos de enfrentar determinada perda.

Podemos acreditar que temos fé porque nunca tivemos de permanecer quando as respostas não chegaram.

Podemos acreditar que conhecemos o nosso carácter porque nunca fomos colocados perante uma escolha que nos obrigasse a sacrificar aquilo que desejávamos.

Podemos acreditar que conhecemos uma pessoa porque nunca tivemos de a ver sob pressão.

Podemos até acreditar que nos conhecemos a nós próprias.

Até a vida nos colocar diante de uma versão nossa que nunca tínhamos conhecido.

É por isso que algumas tempestades nos assustam tanto.

Não revelam apenas o mundo.

Revelam-nos.

E nem sempre gostamos daquilo que encontramos.

Há quem descubra que era mais dependente da aprovação alheia do que imaginava.

Há quem descubra que confundia amor com necessidade.

Há quem perceba que chamava paz àquilo que era apenas ausência de conflito.

Há quem descubra que a sua suposta independência era apenas uma maneira sofisticada de não voltar a precisar de ninguém.

Há quem descubra que a sua fé dependia demasiado de Deus fazer aquilo que a pessoa queria.

E há quem descubra algo ainda mais desconcertante:

que tinha passado anos a cuidar da copa e quase nunca tinha cuidado das raízes.

Porque as raízes exigem outro tipo de trabalho.

Não são bonitas.

Não são fotografáveis.

Não recebem aplausos.

Não produzem resultados imediatos.

Crescem no escuro.

E talvez seja precisamente por isso que tantas pessoas tenham dificuldade em construir uma vida interior.

Vivemos numa cultura obcecada pelo que aparece.

O exterior tornou-se uma espécie de currículo permanente.

Mostramos onde estamos.

O que fazemos.

Com quem estamos.

O que comprámos.

Onde fomos.

O que conseguimos.

O que pensamos.

Até a espiritualidade pode, por vezes, transformar-se em exposição.

Mas Deus não precisa da nossa montra.

Deus conhece a raiz.

Conhece aquilo que fazemos quando ninguém sabe.

Conhece o pensamento que não confessámos.

A escolha que fizemos em silêncio.

A tentação a que resistimos.

A palavra que decidimos não dizer.

O perdão que demos sem ninguém saber.

A oração que fizemos sem sentir absolutamente nada.

A noite em que chorámos e, mesmo assim, rezámos.

A manhã em que acordámos sem vontade de continuar e ainda assim continuámos.

É aí que a fé deixa de ser decoração e começa a ser fundamento.

Porque é fácil falar de Deus quando a vida está a correr de acordo com os nossos planos.

É fácil agradecer quando temos razões evidentes para agradecer.

É fácil confiar quando sabemos para onde estamos a ir.

Muito mais difícil é permanecer quando o mapa desaparece.

Quando pedimos e não recebemos a resposta que esperávamos.

Quando fazemos aquilo que acreditamos ser certo e a vida, em vez de facilitar, parece complicar-se.

Quando perdemos alguém.

Quando uma porta se fecha.

Quando uma relação termina.

Quando uma injustiça acontece.

Quando aquilo que julgávamos permanente deixa de existir.

Nesses momentos, a fé deixa de ser uma palavra.

Passa a ser uma decisão.

Uma espécie de permanência interior.

Não necessariamente uma certeza absoluta.

Às vezes, é apenas a decisão humilde de dizer:

“Eu não compreendo, mas não quero caminhar sozinha.”

E talvez Deus trabalhe precisamente aí.

No espaço onde a nossa necessidade de controlar começa a morrer.

Porque uma das maiores ilusões humanas é pensar que só estamos seguras quando conseguimos prever o que vai acontecer.

Queremos garantias.

Queremos saber o final.

Queremos compreender o motivo.

Queremos antecipar a perda para não sermos surpreendidas por ela.

Queremos controlar pessoas, acontecimentos, resultados, sentimentos.

Mas a vida não nos oferece esse contrato.

E talvez a fé seja, em parte, aprender a viver sem ele.

Não significa passividade.

Não significa deixar de agir.

Não significa aceitar tudo.

Significa reconhecer que existe uma parte da existência que não conseguimos controlar e que, ainda assim, podemos atravessá-la com sentido.

A árvore não controla o vento.

Não consegue impedir a chuva.

Não escolhe a intensidade da tempestade.

Mas pode estar profundamente enraizada.

E isso muda tudo.

Porque estar enraizada não significa não sentir o vento.

Significa ter onde permanecer quando o vento chega.

É uma diferença enorme.

Também uma pessoa profundamente enraizada em Deus não é necessariamente aquela que nunca sofre.

É aquela que, mesmo sofrendo, não perde completamente o centro.

Pode cair de joelhos.

Pode chorar.

Pode dizer “não consigo mais”.

Pode ter dúvidas.

Pode atravessar uma noite espiritual.

Pode sentir-se abandonada.

Mas existe qualquer coisa dentro dela que continua a procurar a luz.

Não porque seja invulnerável.

Mas porque as raízes continuam vivas.

E isto é importante dizer:

ser sacudida não é ser derrotada.

Há uma espécie de violência cultural na ideia de que precisamos de estar sempre bem.

Como se sofrer fosse sinal de fracasso.

Como se chorar significasse falta de fé.

Como se pedir ajuda fosse fraqueza.

Como se uma pessoa verdadeiramente espiritual tivesse de atravessar tudo com um sorriso sereno.

Não.

Uma árvore pode vergar-se sem cair.

Pode perder folhas sem morrer.

Pode ter ramos partidos e continuar viva.

Pode atravessar um inverno inteiro sem produzir frutos visíveis.

E ninguém olha para ela e diz:

“Esta árvore fracassou porque não está a florescer hoje.”

Nós, pelo contrário, somos extraordinariamente cruéis connosco.

Exigimos produtividade durante o luto.

Serenidade durante a crise.

Força durante o esgotamento.

Perdão instantâneo depois da ferida.

Clareza no meio da confusão.

E ainda temos a coragem de perguntar por que razão estamos cansadas.

Talvez porque confundimos crescimento com florescimento.

Mas existem fases em que crescer é simplesmente aprofundar raízes.

Não há frutos.

Não há flores.

Não há reconhecimento.

Há apenas trabalho subterrâneo.

E esse trabalho conta.

Conta muito.

Talvez hoje estejas precisamente nessa estação.

Talvez olhes para a tua vida e penses que pouco está a acontecer.

Talvez tenhas perdido pessoas.

Talvez tenhas perdido sonhos.

Talvez já não reconheças a mulher que eras.

Talvez a tua vida exterior pareça menos bonita do que imaginavas.

Talvez estejas a atravessar uma fase em que tudo aquilo que costumava definir-te está a cair.

Não tenhas tanta pressa de concluir que estás a perder.

Talvez estejas a criar raízes.

Há perdas que não conseguimos compreender enquanto acontecem.

Só mais tarde percebemos que algumas coisas precisavam de cair para que deixássemos de depender delas.

Há relações que terminam e nos obrigam a descobrir quem somos sem aquela pessoa.

Há fracassos que nos obrigam a separar o nosso valor do resultado.

Há rejeições que nos ensinam a deixar de pedir autorização para existir.

Há períodos de solidão que nos fazem finalmente conhecer a nossa própria companhia.

Há silêncios de Deus que nos obrigam a descobrir se acreditávamos n'Ele ou apenas nas respostas que esperávamos d'Ele.

A tempestade não é necessariamente a mensagem.

Às vezes é o contexto no qual finalmente conseguimos ouvi-la.

E talvez a mensagem seja:

“Vai mais fundo.”

Mais fundo do que a opinião dos outros.

Mais fundo do que a necessidade de reconhecimento.

Mais fundo do que a aparência.

Mais fundo do que aquilo que perdeste.

Mais fundo do que aquilo que tens medo de perder.

Vai ao lugar onde ninguém consegue chegar por ti.

Ao lugar onde a tua consciência se encontra contigo.

Ao lugar onde Deus te encontra sem máscaras.

É aí que se decide quem somos.

Não no aplauso.

Não na fotografia.

Não na reputação.

Não naquilo que dizem de nós.

Mas naquilo que fazemos quando ninguém está a observar.

Porque carácter é precisamente aquilo que permanece quando não existe recompensa imediata.

E talvez a verdadeira espiritualidade seja isso:

aquilo que continuamos a fazer quando já não há ninguém para nos ver fazê-lo.

Continuar a ser honestas.

Continuar a perdoar.

Continuar a ajudar.

Continuar a procurar a verdade.

Continuar a rezar.

Continuar a amar sem nos destruirmos.

Continuar a escolher o bem sem precisar de reconhecimento.

Continuar a levantar-nos.

Não por orgulho.

Por fundamento.

A árvore não precisa de convencer o vento de que é forte.

Não discute com a tempestade.

Não grita para provar que vai sobreviver.

Permanece.

E talvez exista uma sabedoria enorme nisso.

Há momentos em que a nossa resposta mais poderosa não é fazer mais.

É permanecer.

Não responder a tudo.

Não explicar tudo.

Não justificar tudo.

Não convencer todos.

Não correr atrás de quem foi embora.

Não tentar controlar aquilo que já não está nas nossas mãos.

Permanecer.

Respirar.

Rezar.

Esperar.

Criar raízes.

E deixar que o tempo revele aquilo que nós, no meio da tempestade, ainda não conseguimos ver.

Mas há também uma advertência nesta metáfora.

Nem toda a árvore permanece de pé.

E nem toda a tempestade é atravessada apenas com força de vontade.

Existem raízes que precisam de ser cuidadas antes da tempestade.

É aqui que entra a responsabilidade pessoal.

Não podemos esperar profundidade interior se passamos toda a vida a alimentar apenas a superfície.

Não podemos querer uma fé robusta sem relação.

Não podemos querer carácter sem escolhas difíceis.

Não podemos querer paz enquanto alimentamos permanentemente aquilo que nos rouba a paz.

Não podemos pedir raízes profundas e continuar a viver apenas de aparências.

As raízes precisam de água.

Precisam de espaço.

Precisam de tempo.

Precisam de alimento.

Também a nossa vida interior.

Precisa de silêncio.

Precisa de reflexão.

Precisa de oração.

Precisa de verdade.

Precisa de relações que não nos obriguem a representar.

Precisa de capacidade para reconhecer o erro.

Precisa de humildade.

Precisa de limites.

Precisa de momentos em que desligamos o ruído exterior para conseguirmos ouvir aquilo que acontece dentro de nós.

E talvez aqui exista uma das grandes tragédias do nosso tempo:

temos acesso a quase tudo e contacto com quase todos, mas cada vez menos sabemos permanecer em silêncio connosco próprios.

Estamos permanentemente informados.

Permanentemente conectados.

Permanentemente expostos.

E, no entanto, profundamente desenraizados.

Sabemos o que aconteceu no mundo.

Sabemos o que os outros estão a fazer.

Sabemos o que alguém publicou há cinco minutos.

Mas nem sempre sabemos como estamos.

Nem sempre sabemos aquilo de que precisamos.

Nem sempre sabemos aquilo que estamos a sentir.

Nem sempre conseguimos distinguir desejo de necessidade, medo de intuição, solidão de amor, dependência de pertença.

Talvez seja necessário voltar às raízes.

Antes de perguntar:

“Como estou a parecer?”

perguntar:

“Como estou?”

Antes de perguntar:

“O que pensam de mim?”

perguntar:

“Quem sou eu quando ninguém está a olhar?”

Antes de perguntar:

“Porque é que Deus não mudou isto?”

talvez perguntar:

“O que é que está a acontecer dentro de mim enquanto atravesso isto?”

Não porque Deus seja responsável por todas as tempestades.

Nem porque toda a dor tenha sido enviada por Deus.

Não.

Há sofrimento que nasce das escolhas humanas.

Há sofrimento que nasce da fragilidade do corpo.

Há sofrimento que nasce da injustiça.

Há sofrimento que simplesmente pertence à condição humana.

Mas mesmo aquilo que não escolhemos pode tornar-se lugar de transformação.

E talvez essa seja uma das coisas mais misteriosas da existência:

não escolhemos todas as feridas que recebemos.

Mas podemos, dentro dos limites da nossa humanidade, escolher o que fazemos com elas.

Podemos tornar-nos mais amargas.

Ou mais conscientes.

Mais duras.

Ou mais sábias.

Mais fechadas.

Ou mais criteriosas.

Mais desconfiadas de tudo.

Ou mais capazes de distinguir confiança de ingenuidade.

A cicatriz não decide por nós.

A tempestade não escreve necessariamente o nosso carácter.

Ela revela-o, desafia-o e, por vezes, obriga-nos a reconstruí-lo.

E é aqui que a fé pode ser extraordinariamente transformadora.

Porque Deus não nos promete uma vida sem tempestades.

Promete-nos presença.

E talvez haja uma diferença profunda entre querer que Deus elimine todas as tempestades e aprender a reconhecer a Sua presença enquanto atravessamos uma.

Uma coisa procura controlo.

A outra constrói confiança.

E confiança é raiz.

Por isso, se hoje estás a passar por uma tempestade, não te perguntes apenas:

“Quando é que isto acaba?”

Pergunta também:

“Quem estou a tornar-me enquanto isto acontece?”

Porque essa pergunta pode mudar tudo.

Talvez a tempestade esteja a ensinar-te a dizer não.

Talvez esteja a ensinar-te a pedir ajuda.

Talvez esteja a ensinar-te que não podes salvar toda a gente.

Talvez esteja a ensinar-te a deixar ir.

Talvez esteja a ensinar-te a não confundir amor com auto-anulação.

Talvez esteja a ensinar-te a distinguir quem fica de quem apenas aparece quando tudo está bem.

Talvez esteja a ensinar-te a não depender da aprovação.

Talvez esteja a ensinar-te a confiar em Deus sem exigir compreender imediatamente.

Talvez esteja a ensinar-te que és mais forte do que pensavas.

Ou talvez, simplesmente, esteja a ensinar-te a ser mais humilde.

A reconhecer que também precisas de colo.

Também precisas de ajuda.

Também precisas de descanso.

Também precisas de alguém que te diga:

“Não tens de conseguir tudo sozinha.”

Até uma árvore precisa da terra.

Até a árvore mais resistente depende de algo que não controla.

E talvez isso seja humildade:

reconhecer que força não é independência absoluta.

É saber onde estão as nossas raízes.

Por isso, não tenhas vergonha das folhas que caíram.

Não tenhas vergonha das partes de ti que já não parecem iguais.

Não tenhas vergonha de dizer que estás cansada.

Não tenhas vergonha das cicatrizes.

Não tenhas vergonha de admitir que houve momentos em que a tua fé vacilou.

Não tenhas vergonha de teres chorado.

Não tenhas vergonha de teres precisado de alguém.

A árvore não precisa de estar bonita para estar viva.

E tu também não precisas de parecer bem para continuares a ter valor.

Deus não ama uma versão editada de ti.

Ama-te inteira.

Com folhas.

Com ramos partidos.

Com zonas ainda em crescimento.

Com raízes profundas e outras que ainda precisam de crescer.

Com fé e com dúvidas.

Com coragem e com medo.

Com dias luminosos e noites em que quase não consegues ver.

E talvez seja precisamente isso que significa estar enraizada:

não ser perfeita.

Ser inteira diante de Deus.

A tempestade pode levar aquilo que todos conheciam de ti.

Pode mudar a tua aparência.

Pode alterar os teus planos.

Pode obrigar-te a começar novamente.

Mas existe uma parte de ti que ninguém consegue arrancar enquanto continuares a alimentá-la.

A tua consciência.

O teu carácter.

A tua capacidade de amar.

A tua liberdade interior.

A tua fé.

A tua relação com Deus.

Essas são as raízes.

E é por isso que algumas pessoas atravessam acontecimentos devastadores e, apesar de profundamente feridas, não se tornam aquilo que lhes aconteceu.

Continuam humanas.

Continuam capazes de amar.

Continuam capazes de confiar com discernimento.

Continuam capazes de olhar para a vida sem a reduzir àquilo que perderam.

Não porque a tempestade tenha sido pequena.

Mas porque as raízes eram profundas.

Talvez seja esse o verdadeiro milagre.

Não sair da tempestade exactamente como entrámos.

Mas sair dela com raízes que antes não tínhamos.

Mais profundas.

Mais silenciosas.

Mais conscientes.

Mais humildes.

Mais próximas de Deus.

E, quando finalmente o céu clareia, talvez percebamos que a árvore não precisava de recuperar imediatamente todas as folhas.

Precisava apenas de continuar viva.

Depois virão os rebentos.

Depois a sombra.

Depois os frutos.

Depois a Primavera.

Tudo tem o seu tempo.

Por isso, se hoje a tua vida parece despida, não desesperes.

Há árvores que parecem mortas durante o Inverno e estão apenas a preparar silenciosamente a próxima Primavera.

Não julgues a tua vida por uma estação.

Não julgues a tua fé por uma noite.

Não julgues o teu carácter por um momento de fraqueza.

Não julgues o teu futuro pelo aspecto que o presente tem hoje.

E não confundas o silêncio de Deus com a Sua ausência.

As raízes crescem em silêncio.

A vida também.

Talvez não vejas ainda aquilo que está a acontecer.

Talvez ninguém veja.

Mas isso não significa que nada esteja a acontecer.

Continua.

Reza.

Pensa.

Aprende.

Corrige.

Perdoa.

Descansa.

Volta a começar quando for necessário.

Cuida das tuas raízes.

E deixa cair aquilo que já não precisa de permanecer.

Porque talvez algumas folhas estejam a cair não para te destruir, mas para te ensinar que nunca foram elas que te sustentaram.

A tua força não estava naquilo que todos viam.

Estava naquilo que Deus viu primeiro.

E quando a próxima tempestade chegar — porque chegará, como chegam todas as coisas humanas — talvez já não perguntes:

“Como vou conseguir suportar isto?”

Talvez consigas simplesmente respirar e dizer:

“Eu sei onde estão as minhas raízes.”

E isso muda tudo.

Porque uma árvore profundamente enraizada pode ser sacudida.

Pode perder folhas.

Pode vergar-se.

Pode sofrer.

Pode passar pelo Inverno.

Mas não é facilmente arrancada.

E uma alma profundamente enraizada em Deus também pode chorar.

Pode tremer.

Pode cansar-se.

Pode não compreender.

Pode até cair.

Mas encontra sempre, algures dentro de si, uma razão para voltar a procurar a luz.

Não porque nunca tenha conhecido a escuridão.

Mas porque aprendeu que a escuridão não é a última palavra.

A tempestade não decide quem és.

Pode revelar-te.

Pode ferir-te.

Pode mudar-te.

Mas não precisa de definir-te.

As folhas contam aquilo que o mundo vê.

As raízes contam aquilo que realmente és.

E quando tudo o resto cai,

quando os aplausos acabam,

quando as pessoas se afastam,

quando os planos falham,

quando a aparência deixa de poder proteger-te,

quando já não tens respostas,

quando até a tua própria força parece insuficiente,

fica a pergunta essencial:

o que existe dentro de ti que ainda consegue permanecer?

Cuida disso.

Alimenta isso.

Protege isso.

Leva isso até Deus.

Porque, no fim, talvez a grande questão nunca tenha sido evitar as tempestades.

Talvez tenha sido aprender a criar raízes suficientemente profundas para que, quando elas chegassem, ainda conseguíssemos permanecer de pé.

E, se um dia perderes quase todas as folhas, não olhes apenas para aquilo que desapareceu.

Lembra-te da árvore.

A vida mais profunda sempre esteve onde ninguém via.

E talvez a tua também.

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