"Quem Eu Sou Agora"
Há algo de curioso e até irónico na maneira como as pessoas, que já não pertencem à nossa vida, se permitem ainda julgar que conhecem a nossa essência. Existe uma fragilidade no olhar que depositam sobre nós, como se o tempo e as experiências que nos formaram, que nos moldaram e nos transformaram, pudessem ser apagados ou ignorados pela memória superficial do que fomos um dia. E, no entanto, há sempre essa ideia insistente, essa impressão incorreta que os outros parecem ter, de que somos os mesmos, imutáveis, uma cópia congelada do que um dia fomos.
Mas a verdade, que por vezes só nós conseguimos ver com clareza, é que não sou a mesma. Não sou mais aquela que costumavas conhecer, mesmo que a fachada, o corpo, o nome, tudo aquilo que a primeira impressão sugira, seja familiar. Tu, que ficaste para trás, não sabes quem sou agora. O tempo não parou para ti, mas passou por mim de uma forma que me renovou, me alicerçou e me fez crescer. Cada experiência, cada dor, cada conquista, até os silêncios e as despedidas, tudo me esculpiu de maneira única, em nuances que tu jamais poderias entender.
Não é uma questão de distanciamento, mas sim de evolução. Os capítulos que escrevi enquanto o nosso contacto já era escasso moldaram-me de formas inesperadas. E mesmo que o meu nome ainda seja o mesmo, mesmo que a minha voz carregue ecos de quem um dia fui, tu não sabes nada de mim. O que conheces, na verdade, é uma versão em pó, um resíduo de quem fui, e até disso não és capaz de fazer justiça. Eu sou hoje o que o meu passado me permitiu ser, mas também sou as escolhas que fiz, as lições que aprendi, e as batalhas que conquistei por dentro. Sou as minhas desilusões e os meus recomeços, os meus pequenos triunfos e as minhas grandes derrotas. Sou o reflexo do tempo e do que esse tempo me ensinou.
Já não sou mais a mesma, porque a vida tem esse poder de nos transformar. As marés vão e vêm, e com elas, mudam-se os nossos horizontes. O que pensavas que sabias sobre mim ficou para trás, perdido numa estrada que seguimos de maneiras diferentes. Tu ficaste na memória de um momento, enquanto eu construí um novo caminho, cheio de incertezas, mas também de descobertas. Cada passo que dei desde então me distanciou do que éramos, e o que éramos já não faz sentido. O que era, já não é.
É engraçado que quem nos conhece de antes não perceba a magnitude das transformações silenciosas que nos acontecem. É engraçado, e também triste, ver como as pessoas têm uma ideia estática e limitada sobre quem somos, como se o nosso ser fosse um produto acabado e sem possibilidade de mudança. Talvez seja o medo do desconhecido que as faça querer manter a memória de quem fomos. Mas essa memória já não me pertence, porque já não sou aquela. O tempo, esse mestre implacável, fez de mim alguém irreconhecível.
E assim, o nome, a face, os ecos do que fomos, tornam-se sombras de algo que, em algum momento, foi verdadeiro, mas que, com o tempo, se desfez como poeira ao vento. Sou outra agora. Não melhor, nem pior, mas diferente. E, por mais que o teu olhar insista em me ver como a mesma, tu não sabes quem sou agora. O tempo, ao contrário do que pensas, não me conservou. Ele me redefiniu, me moldou, e é essa minha nova identidade que me faz única.
Eu já não sou a mesma, e isso é a mais pura das liberdades.
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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."