"Oração de um Hipócrita em Fúria"
Há orações que sobem aos céus como incenso; outras, como esta, sobem apenas até ao teto — e ainda assim fazem eco suficiente para alimentar um culto inteiro em torno do próprio ego. É fascinante, quase poético, observar como a fé pode ser manipulada para servir a vaidades com assinatura personalizada e moralidade sob medida. Nesta oração — que mais parece um espelho onde poucos ousariam olhar com honestidade — não há espaço para a autenticidade espiritual, apenas para a performance. Trata-se de uma súplica embebida em sarcasmo e revestida com a mais fina hipocrisia litúrgica, com a qual muitas consciências confortavelmente se cobrem ao domingo.
Como mulher, como pensadora, como observadora crítica da fé tornada espetáculo, trago-vos esta prece: um retrato pungente da religiosidade domesticada pelo algoritmo, onde a piedade se mede em visualizações e a santidade se vende em embalagens recicláveis. Que esta oração sirva não como guia, mas como alerta — um espelho de linguagem polida e alma rotativa, onde Deus é pretexto, e o altar, palco.
Segue-se, então, a “Oração de um Hipócrita em Fúria”.
Oração de um Hipócrita em Fúria
Senhor,
Tu que sondas corações mas nunca abriste meu histórico de busca,
ouve a minha oração feita em voz alta para que todos ouçam:
Eu te agradeço, ó Deus,
por me fazer parte dos escolhidos —
não porque sou bom, mas porque aprendi a parecer.
Ensina-me, Senhor, a continuar limpo por fora
enquanto apodreço por dentro em nome da tua glória.
Que a minha língua seja sempre afiada
para cortar pecados alheios,
mas que jamais se volte contra minha própria podridão.
Dá-me a paz de um túmulo pintado,
branco por fora, pútrido por dentro —
e a autoridade de um santo de plástico em campanha de autopromoção.
Livra-me das tentações do pensamento,
pois pensar me afasta da tua unção.
Guarda-me da leitura crítica, da filosofia, da empatia, pois essas coisas não dão likes nos meus reels de adoração.
Senhor,
derrama sobre mim teu óleo —
mas em garrafa térmica personalizada com meu nome, pra mostrar àquele irmão que eu sou mais ungido.
Perdoa, Pai, os pecadores…
mas só os que estão fora da minha igreja.
Os que votam diferente. Os que amam diferente.
Os que vivem — e isso me fere.
Abençoa-me com prosperidade,
pois prefiro riqueza em nome de Jesus
a pobreza com integridade.
Multiplica meus seguidores,
cura minha reputação,
e se for da tua vontade —
fecha as portas da reflexão.
Amém.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
Comentários
Enviar um comentário