"Tu nas redes sociais... Quem és "
Há uma personagem dominante do nosso tempo que merece observação antropológica séria: o habitante profissional da atenção. O nome muda conforme a plataforma — influencer, TikToker, YouTuber — mas a lógica é frequentemente semelhante: transformar presença em moeda e reação em rendimento.
Primeiro, sem caricaturas simplistas.
Um influencer deveria ser alguém que influencia — ideias, consumo, gostos, hábitos, cultura. Em teoria, é neutro: pode ser um divulgador científico brilhante ou alguém que filma diariamente o próprio café como se estivesse a documentar o renascimento florentino.
Um TikToker trabalha sobretudo no território da velocidade psicológica: segundos para capturar, segundos para provocar, segundos para impedir que o dedo deslize.
Um YouTuber opera num formato mais longo e potencialmente mais rico — mas também aí existe desde documentário sério até novela emocional em alta definição.
Até aqui tudo normal.
O fenómeno interessante começa quando observamos uma parte muito visível destes ecossistemas.
Muitos não parecem particularmente educados.
Muitos não parecem especialmente cultos.
Muitos não parecem intelectualmente curiosos.
Muitos não demonstram grande sentido de humor — pelo menos não humor como observação, inteligência, construção, ironia ou surpresa.
E ainda assim acumulam milhões.
Então aparece a pergunta que incomoda:
Como?
Porque talvez estejamos a partir da hipótese errada.
Talvez estas plataformas não tenham sido desenhadas para premiar inteligência.
Foram desenhadas para premiar retenção.
E retenção não é cultura.
Retenção é permanência.
Uma biblioteca quer que saias mais informado.
Uma plataforma quer que saias mais tarde.
São objetivos diferentes.
Por isso surge uma forma muito específica de conteúdo.
Não é interessante.
É estimulante.
Não é profundo.
É imediato.
Não é memorável.
É impossível de ignorar por alguns segundos.
E aqui entra uma matéria-prima quase inesgotável:
sentimentalismo barato.
Não emoção genuína.
Isso exige vulnerabilidade.
Sentimentalismo.
A versão industrial da emoção.
Música triste.
Expressão estudada.
Legenda do género:
“ninguém sabe o que passei…”
corte.
silêncio.
olhar para o vazio.
mais corte.
comentários:
“força guerreiro ❤️”
Talvez tenha acontecido algo grave.
Talvez tenha apenas acabado um contrato de publicidade.
O público já nem sabe.
Mas reage.
E reação é valor.
Depois existe outro combustível extremamente eficiente:
raiva.
Porque poucas coisas prendem tanto como indignação.
Fazer rir exige talento.
Fazer pensar exige trabalho.
Fazer alguém ficar zangado exige muito menos.
Basta simplificar.
Escolher um vilão.
Falar alto.
Fingir certeza absoluta.
E pronto.
Vídeo viral.
Outro género muito lucrativo:
o absurdo exibicionista.
Fazer coisas tão ridículas, tão desproporcionadas, tão embaraçosas que o cérebro humano não consegue abandonar.
Não porque admire.
Porque quer confirmar que viu mesmo aquilo.
É uma curiosidade quase zoológica.
Como quem observa um fenómeno raro e pensa:
“não pode ser.”
Mas continua a olhar.
E depois comenta.
E ao comentar alimenta.
E ao alimentar promove.
E ao promover recompensa.
E nasce uma ironia extraordinária:
pessoas que passam o dia a dizer que certo criador é patético ajudam diretamente esse criador a crescer.
O algoritmo não possui ética.
Não distingue:
“isto mudou a minha vida”
de
“isto é o ponto mais baixo da civilização europeia”.
Só vê atividade.
Atenção recebida.
Distribuir mais.
E os criadores aprendem rapidamente.
Alguns chegam com ideias.
Recebem silêncio.
Publicam um vídeo ridículo.
Explode.
Recebem uma lição económica.
Não sobre valor.
Sobre procura.
E começam a adaptar-se.
Menos pensamento.
Mais reação.
Menos nuance.
Mais escândalo.
Menos personalidade.
Mais personagem.
Até que um dia já não sabemos se aquela pessoa é realmente assim ou se está simplesmente a representar a versão estatisticamente mais lucrativa de si própria.
Mas o banho de realidade não termina aí.
Porque culpar apenas os criadores é confortável.
O público participa.
Há quem diga que quer conteúdo inteligente.
Depois ignora quem produz investigação, ensaio, humor sofisticado, história, ciência, arte.
E consome quatro horas de pessoas a discutir quem traiu quem numa casa com luzes LED.
Não porque seja inferior.
Mas porque o cérebro cansado procura recompensa rápida.
E recompensa rápida raramente vem com notas de rodapé.
No fundo, talvez o fenómeno não revele a decadência dos criadores.
Revela algo mais desconfortável.
Mostra o que uma parte enorme das pessoas escolhe quando o custo de escolher é zero.
E a conclusão mais ácida talvez seja esta:
Nunca houve tanta informação.
Nunca houve tantas ferramentas para aprender.
Nunca houve tanto acesso ao conhecimento humano.
E nunca foi tão fácil ganhar dinheiro sem dizer praticamente nada — desde que se consiga impedir alguém de fechar a aplicação durante mais sete segundos.
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