"Aventura, medo e superação"
No passado domingo vivi uma das experiências mais intensas, absurdamente
desafiantes e, ao mesmo tempo, mais humanas dos últimos tempos. Fui com uma amiga e com o meu filho de 10 anos explorar o desconhecido no coração do Cabo Espichel, numa aventura subterrânea à impressionante Gruta Garganta do Cabo. À partida parecia apenas mais uma atividade diferente para quebrar a rotina, mas rapidamente se transformou numa viagem emocional feita de medo, adrenalina, gargalhadas nervosas, claustrofobia, coragem e superação.O Cabo Espichel recebia-nos com aquele cenário quase cinematográfico: falésias imponentes, vento agressivo, cheiro intenso a maresia e o oceano a bater violentamente contra as rochas, como se quisesse lembrar-nos constantemente quem manda ali. O ambiente tinha qualquer coisa de selvagem e misterioso. Quanto mais nos aproximávamos da entrada da gruta, mais sentia aquela mistura estranha entre entusiasmo e arrependimento. Daquele género de pensamento muito humano: “Porque é que eu achei que isto era uma boa ideia?”
Os três técnicos que nos acompanhavam moviam-se com uma calma irritantemente tranquilizadora. Enquanto nós olhávamos para o abismo como quem pondera mudar de identidade e fugir dali discretamente, eles preparavam cordas, capacetes e sistemas de segurança como se estivessem simplesmente a organizar um passeio de domingo no jardim. O meu filho observava tudo em silêncio, com os olhos enormes, claramente assustado, mas a tentar desesperadamente parecer corajoso.
E foi aí que comecei a perceber algo que me acompanhou durante toda a aventura: ele estava cheio de medo… mas provavelmente com mais coragem do que eu.
Quando chegou o momento da descida, o meu coração entrou oficialmente em pânico. Olhei para baixo e tive imediatamente a sensação de que todos os meus órgãos internos tinham decidido abandonar funções. Já o meu filho, apesar de branco como uma parede e agarrado às cordas como quem abraça a própria sobrevivência, conseguiu ainda perguntar ao técnico:
— “Isto é seguro… mesmo seguro… ou seguro tipo filme?”
Toda a gente se riu, incluindo ele, embora com aquele riso típico de quem está a segundos de reconsiderar todas as escolhas da vida.
A descida começou lentamente. A luz natural desaparecia pouco a pouco e o interior da gruta revelava-se húmido, frio e profundamente impressionante. As paredes tinham formas irregulares esculpidas pela água e pelo tempo ao longo de milhares de anos. Havia passagens tão estreitas que respirar fundo parecia um luxo. Em certos momentos, sentia a claustrofobia apertar-me o peito de forma quase irracional. O silêncio era tão intenso que conseguíamos ouvir gotas de água a cair ao longe, misturadas com o eco das nossas respirações aceleradas.
E no meio daquela tensão toda, surgiam momentos absolutamente caricatos.
A certa altura, ao tentar passar por uma abertura apertadíssima entre duas rochas, fiquei literalmente presa durante alguns segundos. Não muitos… mas suficientes para entrar em modo dramático interior. Enquanto eu tentava manter a dignidade e fingir calma, o meu filho olhou para mim e disse, com a maior naturalidade do mundo:
— “Mãe… se ficares aí presa, eu digo ao pai que lutaste bravamente.”
Os técnicos riram-se. A minha amiga quase caiu para o lado a rir. E eu, dividida entre o pânico e a vontade de o estrangular amorosamente, acabei também a rir às gargalhadas no meio da gruta.
O mais impressionante foi vê-lo enfrentar os próprios medos. Houve momentos em que os olhos dele se enchiam de lágrimas. Outros em que dizia baixinho “eu não consigo”. Mas conseguia sempre. Respirava fundo, agarrava-se às cordas, ouvia as instruções dos técnicos e avançava outra vez. Sem fazer espetáculo. Sem fingir que não tinha medo. Apenas avançava apesar dele. E talvez seja isso a verdadeira coragem.
Numa das galerias mais apertadas, onde praticamente tínhamos de rastejar, ele decidiu quebrar completamente a tensão e perguntou:
— “Se aparecer aqui um morcego, ele paga renda ou mora de graça?”
A gargalhada coletiva ecoou pela gruta inteira. Naquele instante percebi algo muito simples: o humor também salva. Humaniza o medo. Dá-nos ar quando sentimos falta dele.
A aventura deixou rapidamente de ser apenas física. Tornou-se emocional. Íntima. Quase simbólica. Lá em baixo, no interior da terra, sem distrações nem conforto, éramos apenas nós perante os nossos limites. O medo deixava de poder ser escondido. Mas também a força aparecia onde menos esperávamos.
A natureza ali dentro era brutalmente bela. Selvagem. Autêntica. Sem filtros. As lanternas iluminavam minerais brilhantes nas paredes húmidas, o eco da água criava uma atmosfera quase irreal e o cheiro da terra misturado com o mar dava a sensação de estarmos num mundo completamente à parte do resto da vida.
Quando finalmente regressámos à superfície, senti um alívio tão grande que quase me apetecia beijar o chão. O vento voltou a bater-nos na cara, a luz pareceu mais intensa e durante alguns segundos ficámos todos em silêncio, como quem regressa de qualquer coisa difícil de explicar.
Mas o melhor momento veio depois.
Hoje de manhã, enquanto acompanhava o meu filho para a escola, ele não parou um segundo de falar da aventura. Contou detalhes, exagerou perigos, imitou os técnicos, recriou os momentos mais assustadores como se tivesse sobrevivido a uma missão militar secreta e, claro, repetiu pelo menos cinco vezes o episódio em que eu fiquei presa entre as rochas.
E enquanto o ouvia falar com aquele entusiasmo todo, percebi que aquela experiência lhe deu muito mais do que adrenalina. Deu-lhe memória. Confiança. Histórias para contar. E talvez até uma pequena prova de que ter medo não impede ninguém de ser corajoso.
Agora só resta saber se, quando sair à hora de almoço, ele ainda vai falar da gruta… ou se já passou para outro assunto completamente diferente, como Pokémon, futebol ou comida. Mas tenho quase a certeza de que esta aventura ficará guardada dentro de nós durante muito tempo. Talvez para sempre.
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