"Bom dia. Como estás hoje?"

 Bom dia. Como estás hoje?

Espero que estejas bem.

Eu gosto imenso de caminhar e falar.

Há qualquer coisa nas caminhadas que me parece mais verdadeira do que muitas conversas sentadas frente a frente. Talvez porque quando caminhamos não estamos apenas a trocar palavras — estamos a avançar. O corpo acompanha o pensamento. As ideias respiram melhor. Os silêncios pesam menos.

Anda.

Acompanha-me.

Não precisamos de saber exactamente para onde vamos. Às vezes basta começar.

Caminhemos devagar.

Sem obrigação de resolver o mundo antes do meio-dia.

Sem a urgência de chegar.

Porque aprendi uma coisa que demorou mais tempo do que eu gostaria de admitir:

nem sempre são os caminhos direitos que nos levam mais longe.

Há percursos que parecem simples e acabam por nos deixar exactamente onde começámos.

E depois há aqueles caminhos sinuosos, inclinados, cansativos — aqueles que nos obrigam a parar, a ajustar o passo, a reaprender a respirar — e que, sem nos apercebermos, nos transformam.

Não porque o sofrimento tenha virtude em si mesmo.

Mas porque existe qualquer coisa que só se desenvolve quando somos obrigadas a continuar apesar do desconforto.

Força.

Resistência.

Paciência.

Humildade.

Descobrimos coisas estranhas sobre nós quando já não podemos fugir.

Descobrimos que conseguimos mais do que imaginávamos.

E também descobrimos que não precisamos de ser fortes todos os dias para continuar.

Porque caminhar não exige heroísmo constante.

Às vezes exige apenas mais um passo.

E depois outro.

Que as pedras que encontramos nunca sejam motivo de desistência.

Mas também que não nos convençamos de que todas as pedras existem para ser ultrapassadas.

Há obstáculos que servem para ensinar persistência.

E há outros que servem para ensinar mudança de direcção.

Nem tudo o que resiste merece insistência.

Nem todos os caminhos fechados são derrotas.

Alguns são protecção.

Outros são redireccionamento.

Entre vales e montanhas encontramos de tudo.

Encontramos paisagens que nos lembram porque começámos.

E encontramos nevoeiro suficiente para duvidarmos de tudo.

Há dias em que caminhamos leves.

Há dias em que arrastamos os pés.

Há dias em que queremos companhia.

Há dias em que precisamos de silêncio.

Há momentos em que subimos e pensamos que finalmente compreendemos a vida.

E há momentos em que descemos e percebemos que ainda estamos a aprender.

Porque talvez viver seja exactamente isto:

aceitar que o caminho não nos deve explicações.

E mesmo assim continuar.

Com curiosidade.

Com alguma coragem.

E, se possível, com um pouco de ternura para quem somos enquanto aprendemos.

Que cada uma de nós saiba encontrar a direcção a seguir.

Mas mais do que isso —

que saibamos reconhecer quando chegou o momento de mudar de rota sem chamar fracasso à mudança.

Que não confundamos velocidade com progresso.

Nem cansaço com incapacidade.

Nem demora com erro.

Porque há caminhos que parecem atrasos e afinal eram preparação.

E há destinos que só fazem sentido porque demorámos a chegar.

Por isso anda.

Continua.

Olha em volta.

Respira.

Fala se te apetecer.

Cala-te se precisares.

Mas não pares só porque o terreno ficou difícil.

Às vezes, é precisamente depois da curva mais cansativa que aparece a vista que ainda não sabíamos que estávamos à procura.

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