"Pensamos em tanto… e somos tão pouco"
Pensamos em tanto… e somos tão pouco.
Temos o mundo e desvalorizamos o que de bom ele nos dá.
Há dias em que esta ideia me aparece quase como uma provocação.
Pensamos em tanto.
Planeamos tanto.
Interpretamos tanto.
Antecipamos tanto.
Criamos cenários, hipóteses, versões alternativas da realidade que nunca chegam a existir.
Vivemos dentro da cabeça com uma dedicação impressionante.
E, no meio disso tudo, esquecemo-nos frequentemente de uma coisa desconfortável:
somos tão pouco.
E digo isto sem pessimismo.
Não no sentido de insignificância triste.
Mas no sentido de proporção.
Porque existe qualquer coisa de profundamente curiosa na condição humana.
Somos suficientemente pequenos para não controlar quase nada — e suficientemente conscientes para sofrer por isso.
Passamos anos a acreditar que somos o centro da narrativa.
Que tudo depende de nós.
Que precisamos de resolver, prever, organizar, decidir.
Como se a existência fosse um projecto de gestão.
E depois basta uma notícia.
Um diagnóstico.
Uma despedida.
Um acaso.
Uma coincidência improvável.
Um encontro.
Uma perda.
E percebemos como afinal somos frágeis diante do movimento das coisas.
Pensamos em tanto.
E esquecemo-nos de olhar.
É quase cómico, se pensarmos bem.
Temos tecnologia suficiente para observar galáxias distantes e não sabemos estar cinco minutos em silêncio numa varanda.
Temos acesso imediato ao mundo inteiro e deixámos de reparar na luz que entra numa divisão ao fim da tarde.
Sabemos o preço de tudo.
Mas perdemos a capacidade de reconhecer valor.
Temos o mundo.
Literalmente.
Uma quantidade absurda de beleza disponível.
Árvores.
Mar.
Música.
Línguas.
Livros.
Pessoas.
Cidades.
Estações do ano.
O cheiro do pão.
A sensação de entrar numa cama limpa.
Aquele momento exacto em que alguém nos compreende sem precisarmos de explicar mais.
E ainda assim existe em nós uma tendência quase trágica para habituação.
Aquilo que temos deixa de ser visto.
Aquilo que permanece deixa de ser celebrado.
Aquilo que está disponível deixa de ser considerado extraordinário.
É estranho.
Passamos meses à espera de férias e depois passamos as férias preocupadas com o regresso.
Esperamos pelo fim-de-semana e usamos o fim-de-semana a antecipar segunda-feira.
Queremos crescer.
Depois queremos voltar atrás.
Queremos estabilidade.
Depois queremos mudança.
Queremos companhia.
Depois queremos espaço.
Parece que existe em nós uma dificuldade persistente em habitar o momento sem imediatamente o transformar noutra coisa.
E talvez seja por isso que tantas vezes sentimos vazio mesmo quando objectivamente não nos falta quase nada.
Não porque sejamos ingratas.
Mas porque o ser humano adapta-se.
Aquilo que ontem parecia extraordinário torna-se normal.
E aquilo que se torna normal deixa de ser visto.
Talvez por isso a maturidade não seja acumular mais.
Talvez seja recuperar espanto.
Voltar a olhar para o habitual como quem ainda não o possui.
Perceber que a vida não acontece apenas nos acontecimentos grandes.
Ela acontece na repetição.
No café que fazemos sem pensar.
Na mensagem que respondemos.
Na caminhada que adiamos.
Na conversa que tivemos e esquecemos.
No corpo que funciona sem nos pedir reconhecimento.
No coração que passou o dia inteiro a trabalhar sem receber um único agradecimento.
Pensamos em tanto.
Mas às vezes viver exige menos pensamento e mais presença.
Porque talvez sejamos mesmo tão pouco.
Não no sentido de sermos irrelevantes.
Mas no sentido de sermos breves.
Limitadas.
Temporárias.
E curiosamente é exactamente isso que torna tudo tão valioso.
Se fôssemos infinitas, nada teria urgência.
Se houvesse tempo para tudo, nada seria precioso.
Mas não há.
E talvez o mundo esteja constantemente a oferecer-nos coisas pequenas que recusamos porque estamos demasiado ocupadas a procurar coisas grandes.
Talvez a felicidade não tenha falhado.
Talvez nós é que passamos por ela distraídas.
No fim, penso cada vez mais que o problema não é termos pouco.
É olharmos tanto para aquilo que nos falta que deixamos de ver aquilo que já nos foi dado.
E é uma pena.
Porque às vezes o mundo está ali — inteiro, silencioso, generoso —
e nós estamos demasiado ocupadas a pensar para reparar que ele já nos estava a acontecer.
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