"Dia da Mãe"
Ser mãe não é uma definição — é uma transformação irreversível.
Não começa num momento exacto, nem se limita a um acontecimento biológico. Há algo na maternidade que antecede o próprio gesto de gerar: uma disposição interior, uma capacidade de amar para além de si, de se descentrar sem se perder, de existir em duplicado — por dentro e por fora.
Ser mãe é, muitas vezes, viver com o coração deslocado.
É saber que há uma parte de nós que já não nos pertence totalmente.
Que respira noutro corpo, que cresce noutra história, mas que permanece, de forma indelével, ligada à nossa.
E, no entanto, essa ligação não é feita apenas de ternura.
Há cansaço.
Há silêncio.
Há noites longas que ninguém testemunha.
Há decisões difíceis, dúvidas persistentes, momentos em que se dá mais do que aquilo que se tem.
Mas há também uma força que nasce precisamente nesse dar contínuo.
Uma força discreta, sem necessidade de reconhecimento, que sustenta, orienta, corrige, acolhe — mesmo quando a própria mãe precisaria de ser acolhida. Porque há uma dimensão pouco dita da maternidade: a de continuar a cuidar mesmo quando se está cansada, mesmo quando se precisava de colo, mesmo quando ninguém pergunta como estás.
E, ainda assim, continua-se.
Não por obrigação cega, mas por uma forma de amor que não se mede, não se negocia, não se interrompe.
Hoje foi um desses dias em que esse amor regressa em forma visível.
Estive em casa.
Com os meus filhos.
E, embora todos os dias tragam gestos de carinho — porque a relação constrói-se na continuidade — hoje houve um cuidado diferente. Um detalhe a mais. Uma intenção que se quis tornar memória.
Os três levaram-me o pequeno-almoço à cama.
É um gesto que já faz parte da nossa rotina em dias especiais, mas hoje havia algo mais. Havia panquecas. Havia o cuidado de fazer diferente, de acrescentar, de marcar o dia com um pequeno desvio à normalidade.
E são esses desvios que, por vezes, dizem tudo.
Houve também a prenda da escola — aquela que nunca é apenas um objecto. Um postal feito com tempo, com mãos pequenas, com atenção. Um poema. Palavras simples, mas carregadas de uma verdade que não precisa de sofisticação para ser profunda.
A minha filha trouxe-me um ramo de rosas.
O meu genro ofereceu-me uma pulseira — delicada, pensada, simbólica.
O meu marido trouxe uma caixa de bombons.
E, no meio de tudo isto, percebi algo que não é imediato, mas é essencial: a maternidade também regressa.
Regressa nos gestos dos filhos.
Na forma como cuidam.
Na forma como replicam, à sua maneira, aquilo que receberam.
Não é uma repetição exacta — é uma continuidade transformada.
Porque aquilo que damos nunca volta da mesma forma. Mas volta.
Volta em atenção.
Volta em presença.
Volta em pequenos gestos que, juntos, constroem um sentido de pertença difícil de traduzir.
E talvez seja isso que mais me toca: perceber que, mesmo nas minhas imperfeições, algo ficou. Algo foi transmitido. Algo encontrou lugar dentro deles.
Porque ser mãe não é ser perfeita.
É estar.
É tentar.
É falhar e corrigir.
É amar mesmo quando não se acerta totalmente.
E, nesse processo, há também espaço para a consciência.
Consciência de que nem tudo o que somos lhes pertence.
Que os nossos erros são nossos.
Que as nossas fragilidades não definem aquilo que quisemos dar.
Mas também consciência de que o essencial — o amor — esse, quando é verdadeiro, encontra sempre forma de permanecer.
Hoje não foi um dia extraordinário no sentido grandioso da palavra.
Foi um dia cheio.
Cheio de gestos.
Cheio de presença.
Cheio de significado.
E, no fim, talvez seja isso que define a maternidade com mais verdade do que qualquer frase idealizada:
Não os grandes momentos,
mas a soma silenciosa de tudo o que se constrói, dia após dia.
E hoje, nessa soma, senti — com uma clareza tranquila — que vale a pena.
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