"Lucidez"
Existe algo de profundamente caricatural nas pessoas que vivem arqueologicamente instaladas no passado e, pior ainda, esperam que tu também aceites residência permanente nas ruínas emocionais que elas próprias transformaram em património histórico. Como se evoluir fosse uma afronta pessoal. Como se a paz alheia tivesse o desplante imperdoável de lhes recordar aquilo que nunca conseguiram alcançar dentro de si.
É um fenómeno quase filosófico, embora com fortes elementos de comédia involuntária: certas pessoas alimentam memórias antigas como quem conserva relíquias religiosas. Limpam-nas, reorganizam-nas, dramatizam-nas, repetem-nas até lhes retirarem qualquer ligação saudável à realidade. E depois observam-te com desconforto genuíno quando percebem que tu já não habitas emocionalmente esse lugar. Há nelas uma espécie de indignação silenciosa perante quem ousa sobreviver sem carregar permanentemente o cadáver psicológico do passado às costas.
E talvez o mais simultaneamente triste e hilariante seja a convicção com que acreditam que a sua leitura limitada da realidade constitui verdade absoluta. Contam apenas com a fragilidade da própria inteligência — uma inteligência frequentemente alimentada por viés confirmatório, ressentimento reciclado e interpretações emocionalmente convenientes. Imaginam que toda a gente funciona da mesma forma rudimentar: escolhe uma narrativa, agarra-se a ela com fervor quase religioso e passa a vida inteira a procurar pequenas migalhas emocionais que a validem.
Mas não, minha querida.
Nem toda a gente possui essa relação artesanalmente tóxica com a própria consciência.
Há pessoas que observam antes de concluir. Que analisam antes de assumir. Que reconhecem nuances, padrões, contradições, coerências linguísticas, estruturas argumentativas, escolhas semânticas, arquitectura emocional. Há pessoas cuja mente não vive faminta de confirmação emocional, mas orientada pela lucidez. E isso torna-se profundamente desconcertante para quem confunde intensidade dramática com profundidade intelectual.
Porque eu sei exactamente onde estou na minha vida: estruturada, tranquila, reconciliada comigo mesma. O passado existe, evidentemente. Não sou amnésica emocional. Mas existe uma diferença monumental entre memória e prisão. A cicatriz permanece — naturalmente permanece — mas já não abre. Já não sangra. Já não governa. E talvez seja precisamente isso que mais incomoda certas pessoas: perceberem que aquilo que esperavam continuar a ser uma ferida se transformou apenas numa marca sem dor.
Então surge o espectáculo quase cómico de tentarem “abrir” algo que já cicatrizou. E fazem-no com uma dedicação admirável, quase científica. Escavam frases antigas, ressuscitam episódios ultrapassados, insinuam emoções inexistentes, como arqueólogos emocionais desesperados por encontrar vestígios de sofrimento activo. O problema é que confundem cicatriz com vulnerabilidade. E isso revela mais sobre a dependência delas em relação ao caos do que sobre mim.
Há pessoas tão habituadas à própria turbulência emocional que não conseguem acreditar na serenidade dos outros. Quando encontram alguém verdadeiramente em paz, presumem imediatamente que se trata de fingimento, negação ou máscara sofisticada. Porque admitir que alguém sarou obrigá-las-ia a confrontar uma possibilidade profundamente desconfortável: talvez elas próprias nunca tenham querido verdadeiramente curar-se.
E depois existe a parte mais deliciosamente absurda de tudo isto: ouvir certas pessoas elogiarem aquilo que escrevo — chamarem-lhe intenso, inteligente, bonito, profundo — para logo depois tentarem explicar-me o significado do meu próprio pensamento, como se eu fosse uma espectadora acidental da minha própria consciência.
Esse momento é arte pura.
Há uma arrogância quase enternecedora em quem acredita que compreender algumas palavras sofisticadas equivale a compreender a origem estrutural de um raciocínio. Porque escrever verdadeiramente não é empilhar vocabulário elaborado como quem monta decoração intelectual para parecer profundo num café minimalista. Existe construção. Existe ritmo semântico. Existe coerência filosófica. Existe intenção retórica. Existe arquitectura invisível entre frases.
E isso reconhece-se.
Ao contrário de muitas pessoas que repetem profundidades alheias como papagaios emocionalmente alfabetizados, eu reconheço exactamente aquilo que produzo. Reconheço as minhas analogias, o meu léxico, as minhas estruturas argumentativas, as minhas escolhas sintácticas, o equilíbrio entre ironia e densidade conceptual. Pensamento genuíno deixa impressão digital. Quem realmente escreve sabe de onde nasce cada frase.
Por isso, quando escuto determinadas palavras, certas construções filosóficas, analogias específicas ou padrões linguísticos saídos da boca de alguém, a mente entra imediatamente em clarificação. Não por vaidade. Não por paranoia. Simplesmente porque inteligência analítica reconhece coerências internas da mesma forma que um músico reconhece acordes ou um matemático reconhece padrões.
E talvez seja isso que mais perturba certas pessoas: eu vejo. Compreendo. Analiso. E permaneço calma enquanto o faço.
Porque no fundo, quem realmente superou o passado torna-se inalcançável para determinados jogos emocionais. Não há desespero. Não há necessidade de provar nada. Não há feridas abertas disponíveis para espectáculo público.
Há apenas lucidez. E a lucidez, para quem vive confortavelmente instalado na própria ilusão, é uma forma insuportavelmente elegante de ameaça.
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