"Quando Vou à Escola da Fé e Acabo com Uma Seguidora Presencial"

Há um fenómeno humano que me intriga profundamente.

Não é religioso.

Não é filosófico.

Nem sequer psicológico.

É geográfico.

Porque eu vou para a escola da fé e sento-me sempre sozinha.

Não por misantropia.

Não por trauma.

Não porque tenha sido expulsa de grupos sociais em tenra idade.

Gosto apenas.

Há pessoas que rezam em comunidade.

Eu gosto de ter um pequeno perímetro emocional de segurança.

Chego.

Escolho lugar.

Sento.

Organizo discretamente a alma.

Olho em frente.

Preparo-me para pensar.

É um momento bonito.

Silencioso.

Quase contemplativo.

E depois… ela aparece.

Agora: antes que isto avance para níveis desnecessários de dramatização, quero deixar claro.

Ela é simpática.

Muito simpática.

Não tenho nada contra ela.

Não é desagradável.

Não é invasiva no sentido clássico.

Não mastiga de boca aberta.

Não faz perguntas sobre signos.

Mas existe nela uma energia muito específica.

A energia de alguém que acredita sinceramente que ainda vai conseguir corrigir-me.

Eu entro.

Escolho um lugar.

Olho discretamente.

Ela está quatro filas à frente.

Penso:

Excelente. Hoje vamos coexistir em liberdade religiosa e distância física.

Sento-me.

Passam quinze segundos.

E vejo movimento.

Ela vira-se.

Detecta-me.

Sorri.

Levanta-se.

E atravessa a sala.

Não para cumprimentar.

Não.

Para se sentar exactamente ao meu lado.

Sempre.

Mesmo havendo:

cadeiras;

espaço;

geometria;

leis da física;

e toda uma arquitectura disponível.

Há qualquer coisa em mim que aparentemente transmite:

“Esta mulher precisa urgentemente de uma reconfiguração espiritual.”

E ela senta.

Com delicadeza.

Com simpatia.

Com o entusiasmo calmo de missionária emocional.

Agora.

O problema não é que ela fale da fé.

Estamos numa escola da fé.

Seria estranho falar de mecânica automóvel.

O problema é outro.

Temos visões diferentes.

Ela vive a religião como quem segue um canal temático de conteúdo premium.

Eu vivo-a mais… silenciosamente.

Ela aproxima-se do texto.

Eu aproximo-me da pergunta.

Ela gosta de respostas.

Eu suspeito delas.

Ela constrói estruturas.

Eu tenho tendência para desmontá-las e ver se continuam de pé.

Nenhuma está errada.

Só não são iguais.

Mas aparentemente para ela igualdade espiritual não é um conceito metafórico.

É um objectivo operacional.

Então começam as analogias.

E meu Deus.

As analogias.

Há pessoas que usam metáforas como instrumentos delicados de pensamento.

Ela usa analogias como quem atira almofadas numa tentativa desesperada de construir uma ponte.

Exemplo completamente inventado mas emocionalmente exacto:

Ela:

“Porque imagina… Deus é como um telemóvel.”

Eu:

“…é?”

Ela:

“Se não carregares…”

Eu:

“…?”

Ela:

“Desliga.”

Silêncio.

Olho para ela.

Ela olha para mim.

Claramente espera iluminação.

Mas o meu cérebro está preso na parte em que comparámos transcendência divina a um carregador USB-C.

Outro dia:

Ela:

“A fé é como uma planta.”

Eu:

Sim.

Ela:

“Se não regares…”

Eu:

Morre?

Ela:

Exactamente.

E eu penso:

Mas isso aplica-se literalmente a quase tudo.

Há um momento muito específico em que as analogias deixam de esclarecer e começam apenas a existir.

Ela continua.

Explica.

Argumenta.

Sorri.

Insiste.

E eu começo a sentir aquela sensação estranha que não é irritação.

É comichão intelectual.

Porque não me está a ouvir.

Está a tentar actualizar-me.

Como uma aplicação.

Ela olha para as minhas ideias e pensa:

“Versão desactualizada. Corrigir definições espirituais.”

E eu fico sentada ali.

Educada.

A sorrir.

Enquanto ela me explica pela oitava vez porque razão a minha relação com a fé devia ser mais parecida com a dela.

E penso:

Minha querida.

Se eu quisesse uma seguidora insistente a aparecer em todos os espaços da minha vida para corrigir opiniões, já tinha criado uma conta maior numa rede social.

Mas o mais estranho é que ela é genuinamente querida.

Não há arrogância.

Não há maldade.

Não há superioridade.

Há convicção.

Daquela pura.

Daquelas pessoas que sinceramente acreditam:

“Quando ela perceber, vai agradecer-me.”

E isso é quase impossível de discutir.

Porque não estás perante uma discussão.

Estás perante uma adopção espiritual unilateral.

No fundo ela comporta-se como aquelas pessoas que descobrem uma dieta nova e imediatamente concluem que ninguém devia voltar a comer pão.

Só que com teologia.

No fim das aulas ela sorri e diz:

“Gostei muito da nossa conversa.”

E eu penso:

Nossa?

Minha senhora.

Nós não tivemos uma conversa.

Tivemos um TED Talk dirigido à minha alma.

Mesmo assim sorrio.

Porque ela é simpática.

E porque no fundo admiro ligeiramente pessoas com tanta certeza.

Eu própria desconfio demasiado.

Mas continuo a chegar cedo.

Continuo a escolher lugares sozinha.

Continuo a acreditar ingenuamente:

Hoje ela não me encontra.

E depois ouço atrás de mim:

“Posso sentar-me aqui?”

E percebo imediatamente.

A fé move montanhas.

Mas aparentemente também move cadeiras.

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