"A paz"

 Hoje falava com uma amiga e, como tantas vezes acontece nas conversas que começam num lugar banal e acabam num lugar que não esperávamos visitar, o diálogo desviou-se para uma pergunta.

Ela olhou para mim e perguntou:

— Depois de tudo aquilo por que passaste… depois desse caminho, desse sofrimento… como é que endireitaste? Como é que encontraste a paz?

Eu comecei a rir.

Não por desrespeito pela pergunta. Nem porque a resposta fosse simples.

Ri porque percebi que, durante muito tempo, eu própria tinha feito exactamente a mesma pergunta às pessoas que me pareciam tranquilas.

Como se a paz fosse um lugar.

Como se existisse uma estrada secreta.

Como se houvesse um dia específico em que alguém acorda e diz: agora sim, finalmente encontrei-a.

E respondi-lhe:

Amiga, acho que há uma coisa que descobri tarde.

A paz não se procura.

A paz não se encontra.

A paz escolhe-se.

E dizer isto não significa dizer que a dor desaparece. Nem que a vida se torna leve. Nem que deixamos de ter perdas, medo, injustiças, dias maus ou memórias difíceis.

Significa apenas que existe um momento — às vezes lento, às vezes brutal — em que percebemos que continuamos a entregar demasiado poder àquilo que não controlamos.

E começamos a escolher.

Escolhemos aquilo a que damos relevância.

Porque nem tudo o que merece atenção merece permanência.

Nem tudo o que acontece merece instalar-se dentro de nós.

Nem tudo o que sentimos merece governar-nos.

A paz começou para mim quando deixei de acreditar que tinha de responder a tudo.

A todas as mensagens.

A todas as provocações.

A todas as opiniões.

A todas as expectativas.

A todos os julgamentos.

Descobri que responder também é uma escolha.

E que o silêncio, tantas vezes, não é ausência de voz — é presença de critério.

Depois percebi outra coisa.

A paz também mora naquilo que escutamos.

Porque passamos demasiado tempo a imaginar que somos moldadas apenas pelos grandes acontecimentos, quando, na verdade, somos continuamente construídas por pequenas exposições repetidas.

Pelas conversas que toleramos.

Pelas narrativas que consumimos.

Pelas vozes que autorizamos dentro da cabeça.

Pela forma como falam connosco.

Pela forma como falamos connosco.

E houve um dia em que comecei a perguntar-me:

isto que estou a ouvir aumenta a minha lucidez ou alimenta apenas o meu ruído?

Porque nem toda a sinceridade é cuidado.

Nem toda a crítica é verdade.

Nem toda a companhia é presença.

Há pessoas que entram na nossa vida e expandem-nos.

E há pessoas que nos cansam sem fazer nada de ostensivamente errado.

Há pessoas que transformam tudo em urgência.

Que vivem permanentemente em conflito.

Que alimentam comparação, escassez, ressentimento.

E nós achamos que somos fortes por suportar tudo.

Mas às vezes não é força.

Às vezes é falta de escolha.

Aprendi também que paz não é apenas sobre quem amamos.

É sobre quem deixamos permanecer.

Com quem almoçamos.

A quem atendemos.

Quem tem acesso aos nossos dias maus.

Quem nos pode interromper.

Quem nos influencia sem pedir autorização.

Paz também é fronteira.

E as fronteiras mais difíceis não são as que colocamos aos outros.

São as que colocamos a nós próprias.

Ao excesso.

À necessidade de provar.

À culpa.

À obsessão de sermos compreendidas por toda a gente.

Porque há uma exaustão silenciosa em tentar explicar-nos constantemente.

E uma liberdade inesperada em aceitar que nem todas as pessoas precisam de concordar connosco para que possamos continuar.

Depois percebi algo ainda mais desconfortável.

A paz também passa por aquilo que engolimos.

As palavras que deixamos entrar.

As ofensas que internalizamos.

As comparações.

As expectativas impossíveis.

As humilhações pequenas que fingimos que não importam.

As concessões sucessivas que fazemos para manter pertença.

Nem tudo merece lugar dentro de nós.

Nem tudo merece digestão emocional.

E há uma maturidade imensa em aprender a dizer interiormente:

isto aconteceu.

Mas não vai definir quem eu sou.

Com o tempo comecei a reparar noutra coisa.

A paz aparece nas decisões mais pequenas.

Nos caminhos onde paramos.

Nos sítios onde insistimos em voltar.

Na hora a que nos deitamos.

Na forma como atravessamos uma manhã.

Na velocidade a que vivemos.

Nas conversas em que permanecemos demasiado tempo.

Naquilo que fazemos quando ninguém está a ver.

Porque a paz não costuma chegar como uma revelação.

Chega como acumulação.

Acumulação de escolhas quase invisíveis.

Escolher não discutir.

Escolher ir embora.

Escolher ficar.

Escolher descansar.

Escolher não responder.

Escolher pedir desculpa.

Escolher não voltar.

Escolher aceitar.

Escolher recomeçar.

E talvez o mais difícil seja isto:

perceber que a paz não é um estado permanente.

Não é um destino onde se chega e nunca mais se sofre.

É uma prática.

Uma disciplina interior.

Um modo de habitar a realidade.

Há dias em que a perdemos.

Há dias em que voltamos aos velhos padrões.

Há dias em que o ruído vence.

Mas depois escolhemos outra vez.

E outra.

E outra.

Até percebermos que, afinal, aquilo que chamávamos paz nunca foi ausência de dor.

Era apenas isto:

deixar de entregar a nossa vida inteira àquilo que não escolhemos e começar, finalmente, a cuidar daquilo que ainda podemos escolher.

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