"Sexualidade... Porquê "
Existe uma tendência curiosa no ser humano: mal vê outra pessoa durante sete minutos, sente imediatamente que recebeu competências clínicas, sociológicas e espirituais suficientes para concluir exactamente quem ela é, do que gosta e com quem dorme.
Uma mulher muito feminina?
“Heterossexual, claramente.”
Um homem delicado, emocionalmente expressivo ou com maneirismos considerados femininos?
“Homossexual.”
E eu às vezes fico a olhar para as pessoas com a mesma expressão com que se olha para alguém que tentou aquecer alumínio no micro-ondas.
Porque… em que momento decidimos que os seres humanos funcionavam como embalagens de iogurte? “Agitar antes de consumir. Conteúdo facilmente identificável.”
Não funcionamos assim.
Nunca funcionámos.
A sexualidade humana sempre foi muito mais complexa, fluida, contraditória e imprevisível do que a necessidade colectiva de simplificação consegue tolerar.
Mas as pessoas gostam de categorias rápidas porque pensar profundamente dá trabalho.
É mais confortável acreditar que feminilidade equivale automaticamente a heterossexualidade e masculinidade a heterossexualidade masculina musculada que abre frascos de pickles sem ajuda emocional.
Só que depois a realidade estraga a teoria.
Porque existe de tudo.
Homens extremamente masculinos apaixonados por homens.
Mulheres ultra femininas apaixonadas por mulheres.
Pessoas bissexuais.
Pessoas que não querem rótulo nenhum.
Pessoas que aos vinte tinham certezas absolutas e aos cinquenta apaixonaram-se por alguém que destruiu elegantemente toda a organização anterior da personalidade.
E sinceramente? Ainda bem.
Porque uma vida inteira sem surpresa parece-me um castigo administrativo.
Depois existe outro fenómeno social fascinante: a obsessão quase arqueológica pela intimidade alheia.
“As pessoas com quem te deitaste…”
Adoro esta pergunta porque permite brincar com o nível de maturidade emocional da sala.
Eu às vezes respondo:
“Olha, já me deitei com homens, mulheres, velhos, velhas, jovens… e animais.”
E há sempre aquele segundo maravilhoso em que alguém quase engasga espiritualmente.
Depois explico:
“Na peregrinação. Dormíamos todos no chão do albergue.”
Porque o humor é importante. E porque certas pessoas merecem um pequeno enfarte conceptual para aprenderem a não fazer perguntas às quais não estão preparadas para ouvir respostas.
Mas falando seriamente — ou tão seriamente quanto possível neste tema — existe uma coisa que me intriga profundamente: porque é que tantas pessoas sentem necessidade de transformar a sexualidade dos outros numa espécie de referendo público?
O corpo é meu.
O desejo é meu.
A intimidade pertence às pessoas envolvidas.
Se eu tenho um marido e se nós decidirmos ter uma relação aberta, isso continua a ser um assunto extraordinariamente nosso.
Não vosso.
A língua portuguesa ajuda aqui. Reparem no pronome possessivo.
Nosso.
Não comunitário.
Não municipal.
Não sujeito a votação popular.
E se eu decidisse envolver-me com uma mulher mais velha? Qual seria exactamente o drama nacional?
Desde que exista consentimento, afecto, desejo, respeito, vontade genuína e — sejamos honestas — orgasmos minimamente competentes, não percebo exactamente onde entra a tragédia civilizacional.
Aliás, acho fascinante a forma como a sociedade trata mulheres acima dos cinquenta.
Uma mulher faz cinquenta anos e parte do mundo reage como se ela tivesse sido automaticamente transferida para um museu etnográfico.
“Uma senhora.”
“Uma velha.”
Desculpem, mas eu conheço mulheres de cinquenta e sessenta anos tão interessantes, carismáticas e sensuais que certas pessoas de trinta parecem emocionalmente uma torrada sem sal ao lado delas.
Porque existe uma coisa que a juventude nem sempre oferece: densidade.
Uma mulher mais velha muitas vezes já sobreviveu a si própria várias vezes.
Já perdeu.
Já reconstruiu.
Já amou mal.
Já amou bem.
Já deixou de precisar desesperadamente de aprovação.
E há qualquer coisa de extremamente atractiva numa pessoa que já fez as pazes com a própria existência.
Além disso, vamos ser honestas: depois de uma certa idade algumas pessoas não ficam velhas. Ficam editoriais.
Ganham presença.
Humor.
Olhar.
Aquela calma perigosa de quem já não precisa de provar grande coisa.
E talvez seja isso que incomoda.
A liberdade.
Porque pessoas verdadeiramente livres perturbam estruturas sociais frágeis.
Uma mulher que vive o corpo sem culpa incomoda.
Uma mulher que escolhe sem pedir autorização incomoda.
Uma mulher que não organiza a vida inteira em função da aprovação colectiva quase chega a parecer um acto revolucionário.
E depois aparecem os especialistas em moralidade alheia.
Pessoas profundamente preocupadas com aquilo que adultos consentidos fazem na privacidade das suas vidas enquanto ignoram completamente coisas muito mais graves, como por exemplo homens de quarenta anos que usam fotos com peixes no Tinder.
Isso sim devia exigir intervenção institucional.
Mas no fundo acho que a questão é simples.
A complexidade humana assusta pessoas que precisam de tudo organizado em gavetas pequenas.
Só que ninguém cabe totalmente numa gaveta.
Somos demasiado contraditórios para isso.
Demasiado vivos.
E talvez maturidade seja precisamente perceber isto:
nem tudo precisa de ser compreendido por toda a gente para poder existir legitimamente.
Às vezes duas pessoas gostam uma da outra.
Às vezes desejam-se.
Às vezes fazem-se felizes.
E talvez — só talvez — isso devesse bastar.
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