"O Meu Nervo Vago Recusa Participar na Sociedade"
A síndrome vasovagal é uma condição médica fascinante porque transforma o meu corpo numa espécie de mecanismo biológico anti-hipocrisia.
Há pessoas capazes de:
- fingir calma;
- tolerar estupidez;
- sorrir em reuniões escolares;
- sobreviver a grupos de pais no WhatsApp;
- ouvir alguém dizer “vamos fazer um brainstorm” sem perder a vontade de viver.
Eu não.
O meu organismo possui a estabilidade emocional de um cavalo aristocrático durante fogo-de-artifício.
O nervo vago detecta:
- stress;
- tensão;
- conflito;
- ansiedade;
- excesso de ruído humano;
- pessoas falsas;
- ou indivíduos que começam frases com:
“Eu sou muito frontal…”
e responde imediatamente:
“Vamos apagar esta senhora antes que ela cometa um crime social.”
Resultado:
- tensão arterial cai;
- coração abranda;
- visão transforma-se num documentário enevoado da RTP2;
- pernas deixam de acreditar no projecto;
- e eu aproximo-me lentamente do chão como uma condessa vitoriana consumida por emoções excessivas.
Segundo a medicina, isto chama-se síndrome vasovagal.
Segundo o meu corpo, chama-se:
“limite máximo de convivência humana atingido.”
O mais humilhante é que não existe medicação milagrosa.
A medicina moderna consegue:
- transplantar órgãos;
- editar ADN;
- imprimir tecidos humanos;
- operar cérebros acordados;
mas perante o meu sistema nervoso conclui:
“Evite stress.”
Ah.
Excelente ideia.
Como é que nunca pensei nisso durante:
- casamento;
- maternidade;
- contas;
- escolas;
- impostos;
- e contacto prolongado com a espécie humana?
Foi então que uma amiga minha surgiu com aquele entusiasmo perigosíssimo de mulher que passou demasiado tempo a ler investigações científicas online e agora acredita parcialmente que consegue desbloquear o sistema nervoso através de tecnologia futurista cervical.
Disse:
“Encontrei uma pesquisa espectacular sobre o nervo vago.”
E imediatamente percebi:
esta conversa vai acabar comigo electrificada dentro de um Renault.
Ela continua:
“Tenho um dispositivo no carro.”
Claro que tinha.
As mulheres da nossa idade já não andam com pastilhas elásticas.
Andam com aparelhos experimentais capazes de:
- regular neurotransmissores;
- desbloquear traumas;
- ou abrir portais dimensionais emocionais.
Entrámos no carro.
Ela tira o dispositivo.
Pequeno.
Elegante.
Minimalista.
Branco.
Parecia simultaneamente:
- equipamento médico alemão;
- acessório de spa milionário;
- e objecto apreendido numa rusga em Ibiza.
Ela explica:
“Isto faz estimulação do nervo vago.”
O mais irritante é que a ciência confirma que estimulação vagal realmente existe.
Portanto até aqui:
medicina.
Depois ela coloca aquilo no meu pescoço.
Nível um.
Sinto um pequeno formigueiro.
Penso:
“Interessante. Bastante profissional.”
Nível dois.
O meu cérebro começa lentamente a relaxar.
Nível três.
Subitamente deixei de sentir vontade de discutir com pessoas na internet.
Nível quatro.
Bom.
Aqui a situação afastou-se da neurologia tradicional e entrou numa zona muito ambígua entre:
- terapia avançada;
- prazer ilegal;
- e manutenção eléctrica espiritual.
Uma onda de calma absurda atravessa-me o corpo.
Não era exactamente sexual.
Mas também não era exactamente NÃO sexual.
Era aquela sensação perigosíssima de bem-estar absoluto que faz uma mulher casada com filhos perceber:
“Meu Deus… eu andava permanentemente irritada.”
Porque mães vivem num estado neurológico contínuo de:
- microstress;
- hipervigilância;
- fadiga emocional;
- e vontade moderada de fugir para uma cabana isolada sem Wi-Fi.
Anos disso.
ANOS.
Ela pergunta:
“Estás a sentir?”
Minha senhora.
Naquele momento eu estava tão calma que seria capaz de:
- tratar de burocracia;
- ligar para seguradoras;
- montar móveis do IKEA;
- ou ouvir o meu filho de 10 anos explicar Minecraft durante cinquenta minutos consecutivos sem dissociar.
Ela aumenta mais um nível.
E foi aí.
O meu cérebro começou literalmente a derreter stress acumulado.
Anos de:
- “Mãããããããe”;
- notificações escolares;
- listas de supermercado;
- roupa para dobrar;
- contas para pagar;
- perguntas existenciais de criança às onze da noite;
- e homens que dizem:
“Onde está aquilo?”
enquanto o objecto está directamente à frente deles.
Tudo desapareceu.
Eu comecei a rir.
Mas rir MESMO.
Aquele riso completamente descontrolado de quem percebe subitamente que talvez estivesse apenas a um pequeno choque eléctrico no pescoço de alcançar iluminação espiritual.
Ela então diz:
“Isto dá orgasmos cerebrais.”
Silêncio absoluto.
Porque “orgasmo cerebral” parece:
- simultaneamente termo científico;
- workshop suspeito em Sintra;
- e coisa que Gwyneth Paltrow venderia por 900 euros.
Mas honestamente?
Ela tinha razão.
Não era um orgasmo propriamente dito.
Era pior.
Era aquele bem-estar tão profundo que o meu cérebro começou lentamente a reconsiderar todas as minhas irritações da última década.
A certa altura eu já não estava calma.
Eu estava:
- neurologicamente hidratada;
- emocionalmente passada a ferro;
- espiritualmente temperada;
- mentalmente embrulhada numa manta invisível.
Nós começámos a conversar sobre tudo:
- ansiedade;
- maternidade;
- casamento;
- stress;
- pessoas falsas;
- humanidade moderna;
- o colapso psicológico colectivo causado por grupos de pais.
E eu simplesmente ria.
CALMA.
Sem irritação.
Sem vontade de fugir.
Sem aquele cansaço feminino ancestral causado por ter constantemente de pensar por toda a gente.
A certa altura ela pergunta:
“Então? Achas que funciona?”
E eu, sentada num carro com eléctrodos no pescoço e o sistema nervoso a ronronar como um gato reformado ao sol, respondi:
“Não sei… mas neste momento até seria capaz de ir a uma reunião de pais sem desenvolver sintomas físicos.”
Ela começou a rir tanto que quase deixou cair o aparelho.
E honestamente?
Talvez a síndrome vasovagal não seja defeito nenhum.
Talvez o meu corpo simplesmente tenha desenvolvido um mecanismo avançado de defesa contra excesso de convivência humana absurda.
Porque há pessoas que toleram:
- falsidade;
- manipulação;
- grupos de WhatsApp;
- networking;
- coaches;
- reuniões inúteis;
- e mães competitivas que fazem cupcakes temáticos artesanalmente às sete da manhã.
O meu sistema nervoso olha para isso e responde:
“Vou desligar esta mulher imediatamente. Ela merece paz.”
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