"Seletividade"

 Há quem interprete a mudança como uma renúncia. Quem observe uma pessoa mais silenciosa e conclua que ela desistiu de dizer aquilo que pensa. Quem veja uma postura mais reservada e a confunda com medo, conformismo ou insegurança. No entanto, algumas das transformações mais profundas não representam uma retirada. Representam uma depuração.

Durante muitos anos fui uma pessoa directa. Não no sentido impulsivo da palavra, mas no sentido rigoroso. Pensava antes de falar. Observava antes de concluir. Analisava antes de formular uma opinião. E, uma vez construída essa opinião, expressava-a sem excessivas preocupações com a forma como seria recebida.

Se concordava, dizia que concordava.

Se discordava, dizia que discordava.

Não via nisso qualquer acto de coragem extraordinária. Via apenas coerência. Parecia-me natural que existisse correspondência entre aquilo que uma pessoa pensava e aquilo que verbalizava. Nunca compreendi a necessidade de dizer uma coisa e pensar outra. Nunca me senti confortável perante a ideia de adaptar constantemente as minhas convicções ao ambiente em que me encontrava.

Talvez porque, desde cedo, percebi que a verdade não muda de natureza apenas porque alguém se sente desconfortável perante ela.

Nunca procurei convencer ninguém. Esse é um aspecto importante. Muitas pessoas confundem frontalidade com imposição. Mas uma coisa não implica a outra. Eu não sentia necessidade de alterar a forma de pensar dos outros. Não me competia reformular visões do mundo alheias. Cada pessoa possui a sua história, as suas experiências, as suas referências e os seus limites.

Discordar nunca significou tentar dominar.

Significava apenas reconhecer diferenças.

Aliás, sempre mantive a mesma postura perante todos. Nunca me interessei particularmente por hierarquias sociais, estatutos, aparências ou grupos de pertença. Falava com um professor da mesma forma que falava com um funcionário. Falava com alguém influente da mesma forma que falava com alguém desconhecido. Não porque ignorasse as diferenças entre as pessoas, mas porque nunca acreditei que a dignidade humana devesse variar em função do papel social que cada um ocupa.

Com o tempo, porém, comecei a perceber algo que inicialmente me causou estranheza.

A maioria das pessoas afirma valorizar a autenticidade, mas nem sempre aprecia as consequências da sua existência.

Gostamos da ideia abstracta da honestidade. Aplaudimos o conceito da transparência. Admiramos a coragem da verdade.

Até ao momento em que essa verdade nos contradiz.

Até ao momento em que essa honestidade nos confronta.

Até ao momento em que essa transparência revela algo que preferíamos não ouvir.

Foi então que comecei a observar com mais atenção os mecanismos subtis das relações humanas. Percebi que uma parte significativa da convivência social assenta sobre uma espécie de pacto silencioso. Um acordo não escrito onde determinadas opiniões são suavizadas, determinadas discordâncias são escondidas e determinadas verdades são cuidadosamente filtradas.

Não necessariamente por maldade.

Muitas vezes por conveniência.

Outras vezes por medo.

Outras ainda por necessidade de pertença.

Porque o ser humano, acima de tudo, teme a exclusão.

E para evitar essa exclusão aprende a adaptar-se.

Aprende a dizer aquilo que é esperado.

Aprende a sorrir quando não lhe apetece sorrir.

Aprende a concordar quando preferiria discordar.

Aprende a representar.

Eu compreendo isso hoje muito melhor do que compreendia antigamente.

Mas compreendê-lo não significa conseguir fazê-lo.

Há pessoas para quem a máscara social funciona com naturalidade.

Há outras para quem ela se transforma num peso.

Sempre pertenci ao segundo grupo.

Contudo, a minha evolução não consistiu em abandonar a autenticidade.

Consistiu em compreender que autenticidade não significa disponibilidade irrestrita.

Nem todas as pessoas têm acesso à nossa intimidade intelectual.

Nem todas as pessoas merecem acesso às nossas reflexões mais profundas.

Nem todas as pessoas possuem a maturidade necessária para distinguir uma opinião de um ataque pessoal.

Foi aí que a minha postura começou verdadeiramente a mudar.

Não me tornei menos autêntica.

Tornei-me mais selectiva.

E essa seletividade não nasceu de qualquer sentimento de superioridade.

Pelo contrário.

Nasceu de uma crescente independência em relação à validação externa.

Chega um momento em que deixamos de sentir necessidade de provar quem somos.

Deixamos de procurar aplausos.

Deixamos de procurar reconhecimento.

Deixamos de procurar aprovação.

Deixamos de procurar um palco.

Porque compreendemos que o valor de uma ideia não depende da quantidade de pessoas que a aplaudem.

E que o valor de uma pessoa não depende da atenção que consegue atrair.

A maturidade trouxe-me uma liberdade silenciosa.

A liberdade de não precisar de convencer.

A liberdade de não precisar de impressionar.

A liberdade de não precisar de ocupar espaço.

A liberdade de não precisar de vencer discussões.

A liberdade de simplesmente existir.

Hoje continuo a falar exactamente como falava antigamente.

A diferença está apenas na escolha dos interlocutores.

A diferença está no discernimento.

A diferença está na compreensão de que nem todos os terrenos são férteis para determinadas conversas.

Nem todas as pessoas desejam profundidade.

Nem todas as pessoas procuram honestidade.

Nem todas as pessoas valorizam a frontalidade.

E isso é perfeitamente legítimo.

Da mesma forma que eu tenho o direito de escolher onde deposito a minha energia, os outros têm o direito de escolher aquilo que desejam receber.

Por isso continuo a cumprimentar toda a gente.

Continuo a tratar todos com respeito.

Continuo a reconhecer a dignidade de cada pessoa.

Mas a minha presença completa pertence a poucos.

A minha verdadeira atenção pertence a poucos.

As minhas reflexões mais profundas pertencem a poucos.

Não por elitismo.

Não por arrogância.

Mas porque a confiança é um dos recursos mais preciosos que possuímos.

E aquilo que é precioso não deve ser distribuído sem critério.

Existe também outra transformação que considero importante.

Antigamente talvez sentisse maior necessidade de permanecer.

Hoje não.

Se percebo que a minha presença cria desconforto, afasto-me.

Se percebo que determinado espaço não me deseja, abro espaço.

Se percebo que determinada conversa não beneficia da minha participação, permaneço em silêncio.

Não porque me sinta diminuída.

Não porque me sinta rejeitada.

Mas porque não necessito de me impor.

Nunca senti uma grande necessidade de protagonismo.

Hoje sinto-a ainda menos.

Não tenho qualquer interesse em disputar atenções.

Não tenho qualquer interesse em competir por relevância.

Não tenho qualquer interesse em ocupar um lugar que alguém não queira partilhar.

A maturidade ensinou-me que a serenidade possui uma força muito superior à imposição.

Quem sabe quem é não precisa de se anunciar constantemente.

Quem conhece o seu valor não precisa de o exibir.

Quem está em paz consigo próprio não precisa de conquistar todos os espaços.

Há uma enorme tranquilidade em saber sair.

Em saber recuar.

Em saber permanecer apenas onde existe reciprocidade.

Por isso, aquilo que alguns interpretam como distância é, na verdade, discernimento.

Aquilo que alguns interpretam como silêncio é, na verdade, escolha.

Aquilo que alguns interpretam como frieza é, na verdade, preservação.

Continuo a ser a mesma pessoa.

Continuo a pensar profundamente.

Continuo a observar atentamente.

Continuo a valorizar a verdade.

Continuo a apreciar a honestidade.

Continuo a respeitar a coerência.

Mas deixei de sentir que devo oferecer tudo isso a toda a gente.

Aprendi que a autenticidade não exige exposição permanente.

Aprendi que a sinceridade não implica disponibilidade absoluta.

Aprendi que a profundidade não necessita de audiência.

E aprendi, sobretudo, que existe uma diferença fundamental entre estar presente e entregar a nossa presença.

Estar presente, estamos em muitos lugares.

Mas entregar verdadeiramente quem somos, isso deve permanecer um privilégio reservado a muito poucos.

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