"Há pessoas que não desaparecem quando vão embora"

Há pessoas que não desaparecem quando vão embora.

Retiram-se apenas do calendário, nunca da geografia interior.

Continuam a existir em lugares inesperados: na inclinação de uma frase, na maneira de segurar uma chávena, num certo tipo de riso que aprendemos sem saber que aprendíamos. Permanecem em hábitos invisíveis, nesses gestos que julgávamos nossos até descobrirmos que eram, em parte, herança de um encontro.

Há pessoas que deixam de ocupar o espaço e começam a ocupar o tempo.

E o mais estranho é que não ficam onde as deixámos. Movem-se. Acompanham-nos. Aparecem num fim de tarde qualquer, numa frase lida ao acaso, num pensamento que não pede licença e que chega inteiro, com a nitidez das coisas que nunca foram verdadeiramente embora.

Não é saudade no sentido pobre da palavra.
Não é desejo de retorno.
Não é a fantasia ingénua de recuperar o que o tempo já traduziu noutra língua.

É outra coisa.

É reconhecer que existiram pessoas que tiveram acesso a versões nossas que já não existem. Pessoas que conheceram a nossa voz antes de ganhar defesas, que viram o pensamento ainda em estado de nascente, que testemunharam a inocência de certas perguntas que hoje já sabemos responder demasiado depressa.

E talvez seja por isso que algumas ausências não doem como uma perda. Doem como um arquivo vivo.

Porque há afectos que não terminam: mudam de função.

Deixam de ser presença e tornam-se perspectiva.
Deixam de ser conversa e tornam-se vocabulário.
Deixam de ser companhia e tornam-se uma espécie de luz antiga — aquela que já partiu da estrela e, ainda assim, continua a chegar.

No fundo, não queremos voltar.

Voltar seria exigir ao passado que abdicasse da sua perfeição impossível. Seria pedir ao tempo que repetisse o que só foi belo porque aconteceu uma única vez.

O que queremos é mais raro e mais difícil.

Queremos acreditar que existe algures um lugar — não num mapa, mas numa ordem secreta das coisas — onde aquilo que foi bonito continua bonito. Onde as palavras ditas não envelhecem. Onde as versões de nós que existiram continuam sentadas uma diante da outra, sem saber ainda tudo o que perderiam, mas sabendo já tudo o que tinham.

E talvez esse lugar exista.

Talvez seja isto:
continuar a reconhecer com ternura aquilo que já não nos pertence.

Porque algumas pessoas não ficam na vida.
Ficam na forma como a compreendemos, fomos as vimos e escolhemos recordar 

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