"Sou a essência, sou a matéria."
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Sou a essência, sou a matéria.
Sou a frágil que chora, a durona quando é necessário.
Não sou mais nem menos do que aquilo que todas somos.
Humana. Vivendo e aprendendo a cada dia.
Durante muito tempo achei que me tinha de escolher.
Como se existir exigisse coerência absoluta.
Como se para ser forte tivesse de abandonar a fragilidade.
Como se para ser sensível tivesse de renunciar à firmeza.
Como se crescer significasse tornar-me uma versão mais estável, mais definida, mais previsível de mim mesma.
Demorei tempo a perceber que talvez uma parte importante da maturidade seja exactamente deixar de exigir de nós essa pureza impossível.
Porque eu sou muitas coisas ao mesmo tempo.
Sou a essência e sou a matéria.
Sou aquilo que pensa e aquilo que sente.
Aquilo que sonha e aquilo que lava a loiça, responde a mensagens, se atrasa, se cansa e adormece no sofá.
Sou aquilo que imagina o infinito e aquilo que precisa de dormir oito horas para funcionar minimamente bem.
Há qualquer coisa de profundamente bonita — e profundamente incómoda — em ser humana.
Somos consciência e biologia ao mesmo tempo.
Construímos teorias sobre o universo e depois choramos porque alguém disse uma frase na altura errada.
Pensamos sobre eternidade e esquecemo-nos de beber água.
Queremos sentido para a existência e às vezes estragamos o dia porque o pão acabou.
E isto não diminui a nossa grandeza.
Isto é a nossa grandeza.
Durante muito tempo olhei para a fragilidade como um defeito.
Como algo a corrigir.
Como uma espécie de falha estrutural da personalidade.
Não queria chorar.
Não queria precisar.
Não queria sentir demasiado.
Achava que sobreviver bem significava ser imperturbável.
Até perceber que a dureza permanente não é força.
É exaustão.
E que há uma coragem enorme em permanecer sensível num mundo que tantas vezes recompensa indiferença.
Por isso hoje digo isto sem vergonha:
sou a frágil que chora.
Choro porque me emociono.
Porque me decepciono.
Porque me importo.
Porque há dias em que o mundo entra demasiado fundo.
Porque há perdas que não merecem ser atravessadas com frieza.
Porque existem alegrias que também se choram.
Mas também sou a durona quando é necessário.
Não a durona que endurece tudo.
Não a que transforma independência em isolamento.
Não a que se orgulha de nunca precisar de ninguém.
Sou a durona que aprende a levantar-se.
Que continua mesmo cansada.
Que toma decisões difíceis.
Que aceita despedidas.
Que suporta desconforto.
Que sabe sair.
Que sabe ficar.
Que percebe que há momentos em que a delicadeza precisa de coluna vertebral.
E durante muito tempo achei que estas duas mulheres dentro de mim se contradiziam.
Hoje já não.
Hoje percebo que uma protege a outra.
A que chora lembra-me que continuo viva.
A que resiste lembra-me que continuo capaz.
Nenhuma delas é mais verdadeira.
As duas sou eu.
E talvez seja isso que me aproxima das outras pessoas.
Porque no fim não sou mais nem menos do que aquilo que todas somos.
Às vezes esquecemo-nos disto.
Passamos demasiado tempo a comparar vidas, percursos, inteligência, conquistas, dores.
Como se estivéssemos separadas por diferenças absolutas.
Mas depois basta observar com atenção.
Toda a gente ama.
Toda a gente perde.
Toda a gente tem medo.
Toda a gente já ficou acordada a pensar demais.
Toda a gente já quis voltar atrás.
Toda a gente já teve dias em que parecia demasiado forte por fora e demasiado cansada por dentro.
Toda a gente carrega qualquer coisa que não se vê.
E talvez haja humildade nisto.
Perceber que não somos protagonistas exclusivas da experiência humana.
Somos apenas mais uma expressão dela.
Mais uma tentativa.
Mais uma consciência temporária a tentar perceber o que está aqui a fazer.
E ainda assim — que extraordinário é isto.
Poder existir.
Poder sentir.
Poder mudar de ideias.
Poder errar.
Poder aprender.
Porque talvez a vida não peça que nos tornemos perfeitas.
Talvez peça apenas que permaneçamos disponíveis.
Disponíveis para rever.
Para crescer.
Para cair sem transformar a queda em identidade.
Para continuar.
Por isso hoje não me apresento como forte nem como frágil.
Nem como feita nem como perdida.
Apresento-me apenas assim:
humana.
Com tudo o que isso tem de belo, contraditório, cansativo, absurdo e extraordinário.
Vivendo.
Aprendendo.
E percebendo, dia após dia, que talvez existir nunca tenha sido chegar a uma versão final de nós.
Talvez existir seja ter coragem para continuar a tornar-nos.
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