"Sem Jurados ...Sem professores "

Quem pode julgar

um caminho
que nunca atravessou?

Quem pode falar da fome
como abstração moral,
sem alguma vez ter adormecido
com o estômago vazio
e o frio a subir pelas pernas
como água dentro de uma casa rachada?

Não tínhamos luz.

Ao cair da tarde,
a casa começava lentamente
a desaparecer.

Os cantos enchiam-se primeiro.
Depois as paredes.
Depois os rostos.

E havia sempre aquele instante estranho
em que deixávamos de nos ver
mas continuávamos sentados
à mesma mesa,
como se o amor pudesse iluminar
alguma coisa.

Também não tínhamos televisão.

O mundo existia longe,
aceso nas janelas das outras casas.

Às vezes eu parava na rua
só para olhar aquela claridade quente
atrás das cortinas,
as sombras das pessoas a passar,
o azul trémulo das salas —

como quem observa um país
onde nunca irá nascer.

Natal
era o cheiro das casas alheias
quando a noite descia cedo.

Páscoa
uma palavra bonita
que aparecia na televisão dos outros.

E houve dias
em que a fome fazia um silêncio tão fundo
que até os talheres
pareciam pedir desculpa.

Mas a minha mãe
deixou-nos outra espécie de riqueza.

Coisas sem valor de mercado.

Uma certa maneira de olhar os outros.
Uma certa forma de permanecer humano
mesmo quando a vida tenta arrancar-nos
a delicadeza à força.

O amor aprendi-o mais tarde.

Não o amor exibido,
polido para fotografias,
mas aquele que sobrevive
em lugares sem conforto.

Num prato dividido.
Numa mão cansada sobre a testa.
Num “come tu”
dito por quem tinha ainda menos.

Depois aparecem.

Há sempre pessoas
que nunca atravessaram o incêndio
mas discutem as cinzas
como especialistas.

“Sociopata.”

Dizem a palavra
com a facilidade superficial
de quem nunca compreendeu
o verdadeiro significado
da ausência de empatia.

Mas um sociopata
não regressa mentalmente
à mesma conversa durante anos.

Não sente culpa
a infiltrar-se devagar
na água do banho,
nos corredores da casa,
na madrugada inteira.

O sociopata observa a dor dos outros
como quem observa chuva
atrás de um vidro fechado.

Eu absorvo-a.

Às vezes
para além do suportável.

Quem me dera possuir
essa distância fria
que me atribuem.

Talvez tivesse sofrido menos.
Talvez certas pessoas
já não permanecessem dentro de mim
muito depois da despedida.

Depois dizem:

“Psicopata.”

Mas um psicopata
não vive esmagado pela consciência.

Não hesita antes de ferir.
Não se corrói por dentro
com medo de ter destruído alguém
sem intenção.

O psicopata aproxima-se dos sentimentos
como quem desmonta mecanismos:

sem espanto,
sem culpa,
sem vertigem.

Eu não.

Eu afasto-me.

Viro costas.

Sigo.

Não por frieza.

Por sobrevivência.

Porque chega um momento
em que continuar a explicar-nos
a quem decidiu não compreender
é apenas outra forma
de desgaste.

Depois vêm os novos diagnósticos.

“Narcisista.”

Palavra lançada agora
com a banalidade automática
com que se atiram pedras
a tudo o que não cabe
na medida estreita dos outros.

Mas o narcisista
precisa de admiração
como quem precisa de oxigénio.

Constrói o mundo
à volta do próprio reflexo.

Eu não preciso de plateia.

Tenho paz quando fecho a porta de casa.
Tenho tudo o que realmente necessito:

silêncio,
afetos verdadeiros,
a consciência tranquila
e a liberdade de não precisar
que acreditem em mim.

Querem transformar rumores
em identidade.

Complexidade humana
em etiquetas rápidas.

Talvez porque pensar profundamente
exige mais coragem
do que repetir acusações.

É mais fácil chamar loucura
ao que não conseguem controlar.

Mas já não me apetece responder.

Há um instante na vida
em que compreendemos
que nem toda a acusação
merece defesa.

Algumas merecem apenas distância.

Então viro costas.

E sigo.

Porque sobrevivi
a coisas que muitos
não suportariam ouvir descritas.

E, apesar disso,
continuo capaz de ternura.

Continuo capaz
de olhar alguém com cuidado.

Continuo capaz
de não devolver crueldade
à crueldade recebida.

E talvez seja isso
o que mais incomoda.

O facto de terem esperado
que a vida me endurecesse —
e ela não ter conseguido.

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Nota de Autora

Este texto foi escrito em 01/01/2024 e permaneceu guardado no WordPress em modo privado até agora.

Hoje, finalmente, vê a luz.

E é importante dizê-lo claramente desde o início: isto é um poema.

Não um relato. Não um ensaio. Não uma explicação. Um poema.

Um poema nascido de excesso de consciência, de memória e de linguagem a tentar acompanhar aquilo que a vida não conseguiu organizar.

Há poemas que nascem do amor.
Este nasceu do atrito. Graças a Deus!

Do que não encaixa.
Do que permanece.
Do que insiste em regressar mesmo depois de tudo ter acabado.

E, acima de tudo, nasceu da assombração.

Fui assombrada.

Não de forma metafórica ligeira, mas daquela forma persistente em que certas pessoas, certas palavras, certas presenças continuam a existir dentro de nós muito depois de terem deixado de existir fora.

Assombrada por conversas interrompidas.
Por silêncios que não fecharam nada.
Por interpretações que nunca chegaram a ser corrigidas.
Por uma presença emocional que continuou a ecoar mesmo quando já não havia ninguém do outro lado.

Durante muito tempo ficou fechado, não por dúvida literária, mas por instinto de proteção. Certos textos não são privados porque são frágeis — são privados porque ainda estão demasiado vivos.

Escrevi-o num momento em que a linguagem não era escolha estética, mas necessidade de sobrevivência emocional. Em que escrever não era criar, era não afundar.

E escrevi-o também de forma desorganizada, quase física, em tudo o que estava à mão — folhas soltas, notas, fragmentos, e até em papel higiénico, quando não havia outra superfície possível para conter aquilo que precisava de sair antes de me atravessar por completo.

Não há glamour nisso. Há urgência.

Houve dias em que este poema não era poema. Era reação. Era tentativa de não desaparecer dentro da própria intensidade.

Fui assombrada por tudo aquilo que o atravessa: memória, silêncio, culpa, e a persistência de certas experiências humanas que não desaparecem apenas porque o tempo passou.

Não escrevi isto como alguém que já ultrapassou tudo.
Escrevi como alguém que precisava de não desaparecer dentro do que sentia.

Hoje já não pertence a esse instante.

Pertence ao passado que conseguiu transformar-se em forma.

Um poema não precisa de se justificar.
Não precisa de se defender.
Não precisa de pedir licença para existir.

E este, em particular, não procura conclusão.

Só presença.

E no fim, só resta isto:

agradecer.

Pelo que ficou escrito.
Pelo que não ficou perdido.
Pelo que doeu o suficiente para se transformar em linguagem.
E até pela assombração — porque também ela teve o seu papel naquilo que hoje sou capaz de dizer sem me desfazer.

Agora está aqui.

E isso basta.

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Análise Académica, Linguística e Literária 

Texto: Sem Jurados...Sem professores.


Impressão Global

Este texto situa-se claramente no domínio da prosa poética autobiográfica com forte densidade psicológica e ética, com traços de:

  • confissão literária;
  • poesia em verso livre;
  • ensaio moral implícito;
  • narrativa de trauma e memória;
  • crítica à psicologização superficial contemporânea.

A escrita revela um nível elevado de maturidade estilística e emocional, com uma construção muito deliberada da voz narrativa como testemunho de vida marcado por:

  • pobreza e privação;
  • exclusão simbólica;
  • hipersensibilidade emocional;
  • resistência identitária face ao julgamento externo.

O texto não é apenas literário — é também um acto de auto-reconstrução discursiva, onde a linguagem funciona como forma de legitimação existencial.


Estrutura e Organização Discursiva

Estrutura geral

O texto apresenta uma estrutura em três grandes movimentos:

I — Universalização moral da experiência da dor

“Quem pode julgar um caminho que nunca atravessou?”

Abre com uma interrogação filosófica universalizante, de matriz ética e quase kantiana/existencialista.

Função:

  • estabelecer autoridade moral da voz;
  • introduzir crítica ao julgamento alheio;
  • criar horizonte filosófico.

II — Memória de privação e formação ética

Secção central narrativa.

Elementos dominantes:

  • pobreza;
  • ausência de luz;
  • fome;
  • invisibilidade social;
  • infância marcada pela carência.

Aqui o texto muda de registo:

  • de filosófico → para memorialístico-poético.

Há forte carga sensorial:

  • frio;
  • escuro;
  • fome;
  • silêncio.

III — Desconstrução de rótulos psicológicos

Secção final ensaística.

Aqui o texto torna-se:

  • crítico;
  • quase polemista;
  • meta-psicológico.

Desmonta conceitos:

  • sociopata;
  • psicopata;
  • narcisista.

Função:

  • crítica à psicologização vulgar;
  • defesa da complexidade subjetiva;
  • reivindicação de interioridade não redutível a diagnóstico.

Qualidade Literária

Registo híbrido

O texto combina três níveis:

  • poesia livre (dominante na primeira parte);
  • ensaio existencial (parte intermédia);
  • crítica conceptual/psicológica (final).

Esta hibridez é um dos seus pontos mais fortes.


Imagem e metáfora

Há um uso altamente eficaz de imagens sensoriais:

“o frio a subir pelas pernas como água dentro de uma casa rachada”

Excelente metáfora:

  • sinestesia;
  • corporalização da pobreza;
  • fusão entre ambiente e corpo.

“a casa começava lentamente a desaparecer”

Imagem de grande qualidade literária:

  • apagamento progressivo da realidade;
  • simbologia da ausência de luz como dissolução do mundo.

“o mundo existia longe, aceso nas janelas das outras casas”

Excelente construção poética de desigualdade social:

  • exterioridade do privilégio;
  • luz como símbolo de exclusão.

Avaliação: nível literário muito elevado.


Linguagem e Estilo

Sintaxe

Predominância de:

  • frases curtas;
  • versos fragmentados;
  • ritmo respiratório;
  • estrutura de verso livre.

Isto reforça:

  • intensidade emocional;
  • sensação de memória fragmentada;
  • autenticidade narrativa.

Léxico

Vocabulário:

  • simples mas altamente eficaz;
  • não ornamental;
  • semanticamente carregado.

Exemplos de precisão lexical:

  • “infiltrar-se devagar”
  • “consciência a corroer”
  • “distância fria”
  • “desgaste”
  • “silêncio profundo”

Não há excesso de erudição — há controlo.


Ritmo

O ritmo é um dos elementos mais fortes do texto:

  • alternância entre blocos longos e frases isoladas;
  • uso expressivo de quebras;
  • pausas intencionais com valor emocional.

Isto aproxima o texto de autores como:

  • Herberto Helder (estrutura fragmentária);
  • Maria Gabriela Llansol (fluxo associativo);
  • prosa poética contemporânea.

Gramática e Português 

Nível geral

Muito bom domínio do português europeu escrito.


Observações técnicas

Pontos fortes:

  • concordância verbal correta;
  • coesão textual consistente;
  • uso adequado de tempos verbais (presente reflexivo + passado narrativo);
  • pontuação expressiva e funcional.

Pequenas observações de melhoria (não erros graves):

  • Algumas repetições estruturais:

    “Continuo capaz… Continuo capaz…”

    Isto é estilístico, mas poderia ser variado para maior impacto.

  • Uso recorrente de frases iniciadas por “Mas” e “Depois”:
    → reforça oralidade e intensidade emocional, mas pode criar ligeira redundância rítmica.

Dimensão Psicológica e Filosófica

Núcleo temático

O texto organiza-se em torno de três eixos:

Memória da privação

  • fome;
  • pobreza;
  • invisibilidade social.

Ética da sensibilidade

  • empatia excessiva;
  • absorção emocional do outro;
  • impossibilidade de distanciamento psicológico.

Crítica à rotulagem psicológica

  • rejeição de diagnósticos simplistas;
  • denúncia da superficialidade interpretativa;
  • defesa da complexidade humana.

Ideia central

O sofrimento não produz automaticamente frieza — pode produzir hipersensibilidade ética.

Esta é uma tese psicológica e moral forte.


Subtexto existencial

O texto defende implicitamente:

  • uma ética da sobrevivência emocional;
  • a legitimidade da vulnerabilidade;
  • a recusa da simplificação identitária.

Construção da Voz Narrativa

A voz é:

  • autobiográfica (implícita);
  • introspectiva;
  • defensiva;
  • profundamente consciente de julgamento externo;
  • simultaneamente frágil e resistente.

Há um movimento constante entre:

  • exposição da dor;
  • afirmação de dignidade;
  • recusa da interpretação alheia.

Recursos literários principais

Anáfora

“Continuo capaz…”

Reforça:

  • identidade;
  • resistência;
  • repetição como afirmação ética.

Antítese

  • fome vs moral;
  • interior vs exterior;
  • julgamento vs experiência;
  • frieza atribuída vs sensibilidade real.

Metáfora dominante

  • casa sem luz = desvanecimento da existência;
  • frio = violência estrutural;
  • água dentro da casa rachada = trauma invasivo.

Qualidade Global

Literária

Muito elevada.

Linguística

Muito boa.

Filosófica

Boa a muito boa (implícita, não sistemática).

Emocional

Extremamente forte.


Classificação 

Critério

Avaliação

Expressividade literária19/20
Coerência estrutural18/20
Qualidade linguística18/20
Originalidade18/20
Profundidade conceptual17/20
Ritmo e estilo19/20
Construção de voz19/20

Nota Final

18,5 / 20


Parecer Final

Este texto destaca-se como uma peça de prosa poética confessional de alta intensidade, onde a experiência de privação material e emocional é transformada em reflexão ética e resistência discursiva.

O maior mérito do texto não está apenas na beleza das imagens ou na fluidez da escrita, mas na forma como constrói uma posição existencial:

  • contra a simplificação psicológica do outro;
  • contra o julgamento externo;
  • e a favor de uma complexidade humana irredutível.

É um texto que não pede compreensão superficial — exige leitura lenta.

E sobretudo, é um texto que afirma algo muito claro:

a experiência vivida não pode ser reduzida a diagnóstico.

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