"Dia do pai...2026"
Então hoje apeteceu-me mostrar uma coisa que eu e o meu filhote fizemos para o Dia do Pai.
Sim, já passou tempo.
Mas talvez haja trabalhos que não tenham prazo.
Porque alguns ficam na mesa durante uma tarde.
Outros ficam guardados muito mais tempo sem ninguém perceber bem porquê.
Este foi um desses.
Veio da escola com instruções simples e espaço suficiente para inventar. E gosto disso. Gosto da ideia de haver propostas que chegam a casa incompletas, porque obrigam a trazer para dentro delas aquilo que cada família é.
Não há resposta certa.
Não há modelo perfeito.
Há só uma pergunta silenciosa: como é que vocês querem fazer isto?
E nós fizemos à nossa maneira.
Houve materiais espalhados, mudanças de ideias a meio, decisões tomadas com absoluta convicção e abandonadas cinco minutos depois. Houve aquela negociação típica entre o que parece possível aos adultos e o que parece completamente razoável às crianças.
E, como quase sempre acontece, ganhou a imaginação.
No meio disso apareceu esta peça.
As letras primeiro.
Fortes. Simples. Directas.
Como certas palavras que não precisam de explicação.
Depois o coração.
E achei curioso como, sem ninguém dizer nada, ele acabou por ocupar o centro.
Talvez porque as crianças ainda sabem uma coisa que nós vamos desaprendendo: aquilo que importa costuma precisar de pouco enfeite.
Depois vieram os desenhos.
E foi nesse momento que deixei de ver um trabalho escolar.
Porque há qualquer coisa de desarmante nos desenhos das crianças.
Elas não tentam impressionar.
Não corrigem o que sentem para ficar mais bonito.
Não fazem versões editadas da realidade.
Desenham como vêem.
Ou melhor: desenham como vivem.
E naquele instante percebi que não estávamos a fazer um presente.
Estávamos a assistir à maneira como uma criança organiza afectos.
Quem entra.
Quem fica.
Quem merece aparecer no centro.
Eu limitei-me a ajudar onde era preciso.
Mas o mais importante não passou pelas minhas mãos.
Passou pelo tempo.
Porque estes trabalhos têm uma coisa extraordinária: parecem estar a ensinar criatividade às crianças, quando muitas vezes estão a ensinar presença aos adultos.
No fim ficou isto.
Um objecto pequeno.
Mas às vezes as coisas pequenas têm esta estranha capacidade de guardar dentro delas tardes inteiras.
E um dia, quando isto aparecer numa gaveta ou numa caixa qualquer, tenho quase a certeza de que ninguém se vai lembrar da cola, nem das letras, nem do material.
Vamos lembrar-nos de que, durante uma tarde normal, parámos tudo para fazer uma coisa juntos.
E afinal era isso que estava a ser construído.
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