"Quem te amaria"
Há uma pergunta que tem uma elegância quase cruel porque desmonta muitas ilusões sem levantar a voz: quem te amaria ainda se deixasses de ser útil?
Porque durante muito tempo confundimos amor com função. Chamamos amor ao hábito de sermos necessárias. Chamamos amor ao facto de resolvermos, sustentarmos, organizarmos, carregarmos, anteciparmos, segurarmos. Tornamo-nos especialistas em sermos indispensáveis e, quando alguém permanece, convencemo-nos de que foi por quem somos — quando talvez tenha sido apenas pelo conforto daquilo que garantíamos.
Existe uma tristeza silenciosa nesta descoberta: perceber que algumas relações não sobrevivem ao momento em que deixamos de produzir valor mensurável.
Quando deixas de servir.
Quando deixas de pagar.
Quando deixas de resolver.
Quando deixas de ser o porto seguro.
Quando deixas de carregar emocionalmente toda a gente.
Quando deixas de ser submissa.
Subitamente, certos afectos evaporam-se com uma rapidez que seria quase cómica se não fosse tão reveladora.
E não porque essas pessoas sejam necessariamente más. Às vezes são apenas humanas da forma mais banal possível: habituaram-se tanto ao teu papel que deixaram de ver a pessoa. Como quem aprecia a luz mas nunca repara na lâmpada.
Há quem não ame quem tu és.
Ama o alívio que proporcionas.
Ama a estabilidade que ofereces.
Ama a competência.
Ama a presença funcional.
Ama a versão de ti que facilita a vida.
E quando isso desaparece, o vínculo revela aquilo que sempre foi.
Porque amor e consumo são coisas diferentes.
Quem permanece apenas enquanto entregas desempenho não está a relacionar-se contigo — está a usufruir de um serviço emocional sofisticadamente disfarçado de afecto.
Mas há uma ironia mais desconfortável ainda.
Por vezes o primeiro abandono não vem dos outros.
Vem de nós.
Porque depois de anos a definirmo-nos pelo trabalho, pela utilidade, pela capacidade de sustentar, proteger, resolver e antecipar, acontece algo assustador: já não sabemos existir sem função.
E então surge o dia inevitável.
O cansaço.
A doença.
A perda.
A falha.
O silêncio.
O momento em que simplesmente já não consegues.
E olhas ao espelho quase com estranheza:
“Se eu não produzo… continuo a merecer amor?”
Essa pergunta é mais dura do que qualquer abandono externo.
Porque revela uma possibilidade incómoda: talvez tenhas passado anos a tratar-te exactamente como acusavas os outros de te tratar.
Com amor condicional.
Como se o teu valor dependesse do teu rendimento emocional.
Como se fosses uma empresa e não uma pessoa.
Mas talvez o amor verdadeiro comece precisamente onde termina a utilidade.
No dia em que não tens respostas.
No dia em que estás cansada.
No dia em que não és brilhante.
No dia em que não salvas ninguém.
No dia em que não resolves nada.
No dia em que apenas existes.
E alguém fica.
Não para te reconstruir.
Não para te exigir regresso imediato.
Não para te lembrar aquilo que eras.
Fica porque reconhece que existir já é suficiente.
E mais raro ainda: tu própria ficas.
Porque há uma forma elevada de maturidade que não consiste em aprender a dar amor — consiste em aprender a não retirar amor de ti própria quando deixas de ser extraordinariamente útil.
Por isso a pergunta não é apenas: quem me ama quando já não sirvo?
Talvez seja também:
Consigo eu continuar a amar-me quando deixo de merecer aplauso?
E quando olho para a vida com honestidade, percebo que existem pessoas que me oferecem esse lugar raro onde não preciso de actuar nem justificar valor.
Os meus filhos.
O meu marido.
Alguns amigos.
Pessoas perante as quais posso simplesmente existir.
E isso talvez seja uma das definições mais discretas — e mais sofisticadas — de paz: saber que, algures neste mundo, há quem não espere que eu seja extraordinária para continuar a abrir-me a porta. Para continuar a amar-me.
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