"Tempo"
O tempo tem uma forma singular de nos transformar.
Raramente chega com estrondo. Na maioria das vezes instala-se devagar, quase sem ruído, infiltrando-se nos lugares mais íntimos daquilo que acreditávamos ser. Não pede autorização. Não anuncia mudanças. Não nos consulta antes de alterar prioridades, desmontar convicções ou obrigar-nos a abandonar versões antigas de nós próprias.
Existe uma ideia reconfortante — mas profundamente ilusória — de que crescemos por decisão. Como se a maturidade fosse sempre um acto consciente, linear, voluntário.
Não é.
Muitas vezes crescemos porque já não existe alternativa.
Porque o tempo, indiferente às nossas resistências, continua a avançar e obriga-nos a acompanhar aquilo que ainda não compreendemos.
Há lições que chegam com delicadeza.
Dias que nos educam sem violência.
Pessoas que passam pela nossa vida e deixam conhecimento sem deixar ruína.
Mas existem outras aprendizagens — talvez as mais decisivas — que chegam de forma menos generosa.
Através da perda.
Da ruptura.
Da desilusão.
Do fracasso.
Da descoberta dolorosa de que existir não é controlar.
E talvez uma das experiências mais difíceis da condição humana seja precisamente esta: perceber que há transformações que acontecem antes de estarmos prontas para elas.
Porque quase ninguém está verdadeiramente preparada para perder.
Para falhar.
Para despedir-se.
Para reconhecer que aquilo que imaginava para si deixou de existir.
Há momentos em que a vida não pergunta se temos estrutura emocional para aquilo que está a acontecer.
Simplesmente acontece.
E nós, inicialmente, confundimos sobrevivência com fracasso.
Pensamos que estamos a partir-nos quando, muitas vezes, estamos apenas a ser reconstruídas numa linguagem que ainda não sabemos ler.
O tempo trabalha muito assim.
Não suaviza imediatamente.
Não consola automaticamente.
Não apaga.
Há dores que permanecem.
Há ausências que não desaparecem.
Há versões de nós mesmas que nunca regressam.
E aceitar isto talvez seja um dos actos mais difíceis de maturidade.
Porque durante muito tempo acreditamos que crescer significa deixar de sofrer.
Mas crescer, afinal, talvez seja outra coisa.
Talvez seja aprender a continuar sem exigir que tudo deixe de doer.
Aprender a carregar sem endurecer.
Aprender a aceitar sem desistir.
Aprender que sobreviver não é sair intacta — é descobrir que existe vida mesmo depois daquilo que julgávamos insuportável.
Com o passar dos anos, começamos a compreender algo que em tempos parecia quase ofensivo: não controlamos quase nada.
Não controlamos o momento em que alguém parte.
Não controlamos todas as oportunidades.
Não controlamos o amor, o reconhecimento, o acaso, os ciclos ou o momento exacto em que certas coisas terminam.
Mas existe uma liberdade que permanece.
A forma como habitamos aquilo que nos acontece.
A forma como escolhemos responder.
A decisão íntima de não permitir que a dor se transforme na única linguagem através da qual passamos a existir.
Porque cada fase difícil transporta dentro de si uma possibilidade silenciosa de reconstrução.
Não no sentido ingénuo de que tudo acontece por uma razão.
Mas porque o ser humano possui esta capacidade extraordinária — quase incompreensível — de voltar a construir significado mesmo depois do colapso.
E talvez o tempo nos ensine exactamente isso.
Que seguir em frente não significa esquecer.
Que amadurecer não significa endurecer.
Que aceitar não significa concordar.
Que continuar não significa deixar de sentir.
Significa apenas reconhecer que permanecer parada diante daquilo que já aconteceu não altera o passado — apenas suspende o futuro.
No fim, talvez a maior lição do tempo seja esta:
há uma coragem silenciosa em continuar.
Levantar-se sem garantias.
Recomeçar sem entusiasmo.
Confiar sem certezas.
E permitir que a vida continue a atravessar-nos sem perdermos completamente a capacidade de acreditar nela.
Por isso pergunto — e pergunto-me também:
estarás disposta a aprender com o tempo mesmo quando ele não for delicado?
Mesmo quando não explicar?
Mesmo quando levar antes de dar?
Porque às vezes é precisamente aí — nos períodos em que pensamos estar apenas a perder — que começamos, sem perceber, a tornar-nos quem ainda não sabíamos que éramos.
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Comentários
Enviar um comentário