"Ritual"
Eu tenho um ritual de domingo.
E já o transmiti aos meus filhos.
É uma coisa simples.
Tão simples que, dita em voz alta, quase parece pequena demais para explicar.
Durante a semana fazemos a higiene como quase toda a gente faz. Duches rápidos. Entrar. Lavar. Sair. A água como função. Como eficiência. Como mais uma tarefa entre todas as outras tarefas.
Mas ao domingo é diferente.
Ao domingo eu tomo banho.
Ao domingo eu entro na água.
E para mim existe uma diferença enorme entre estas duas coisas.
Tomo um banho de imersão.
Deito o corpo na banheira.
Não para me lavar.
Para parar.
Deixo a água tocar levemente a pele. Não a usar-me — a envolver-me.
Fico ali.
Quieta.
Sem objectivo.
Sem produtividade.
Sem estar a fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Só deitada.
E sempre me foi difícil explicar isto sem parecer exagerada, mas a verdade é que sinto mesmo que algo se reorganiza.
Como se durante a semana o corpo fosse acumulando pequenas tensões invisíveis.
Conversas.
Barulho.
Horas.
Responsabilidades.
Decisões.
Movimento.
E depois, naquele momento, quando finalmente me deito na água, deixo de me sentir apenas uma pessoa que funciona.
Volto a sentir que tenho corpo.
Que habito este corpo.
E há qualquer coisa de profundamente primitivo nisto.
Antes de aprendermos palavras-chave, já existia água.
Passámos meses inteiros a existir dentro dela.
Talvez por isso exista qualquer coisa de tão antiga, tão difícil de traduzir, na sensação de flutuar.
Não preciso que seja um ritual elaborado.
Não acendo velas.
Não faço cerimónias.
Não transformo aquilo numa experiência espiritual impossível de replicar.
É só água.
E, ao mesmo tempo, nunca é só água.
É uma pausa onde ninguém me pede nada.
Um lugar onde não preciso de produzir.
Onde não preciso de resolver.
Onde não preciso de estar pronta.
Só preciso de estar.
E dei por mim, sem grande intenção consciente, a passar isto aos meus filhos.
Porque as coisas importantes raramente se ensinam com discursos.
Transmitem-se por repetição.
Por observação.
Por presença.
E percebi que queria ensinar-lhes uma coisa que me parece cada vez mais rara:
o descanso não é preguiça.
O descanso também merece ritual.
Também merece atenção.
Também merece dignidade.
Hoje em dia parece que até recuperar energia precisa de ser optimizado.
Aplicações.
Métodos.
Desempenho.
Como se até o descanso tivesse de justificar a sua existência.
Mas eu queria que eles aprendessem outra coisa.
Que às vezes basta parar.
Entrar na água.
E deixar que o corpo faça aquilo que sabe fazer.
Voltar ao equilíbrio.
E talvez seja por isso que também na praia somos assim.
Nunca fomos daquelas famílias que chegam, estendem a toalha, deitam-se ao sol e ali permanecem horas.
Nós vamos para a água.
Sempre.
Entramos.
Ficamos.
Conversamos lá dentro.
Brincamos.
Flutuamos.
O mar para nós nunca foi paisagem.
É lugar.
E hoje percebo que talvez procuremos exactamente a mesma coisa que eu procuro ao domingo na banheira.
Não estar perto da água.
Estar dentro dela.
Sentir o corpo deixar de resistir por alguns instantes.
Porque há qualquer coisa de muito bonita na água.
Ela não pede desempenho.
Não pede explicações.
Não acelera.
Não julga.
Recebe.
Sustenta.
Move-se connosco sem exigir que sejamos outra coisa.
E talvez seja isso que o meu ritual de domingo realmente seja.
Não um banho.
Nem um hábito.
Nem sequer descanso.
Talvez seja apenas uma forma silenciosa de me lembrar, semana após semana, de que antes de voltar ao mundo, antes de voltar às tarefas, às exigências, aos papéis e às pressas —
eu continuo a ser um corpo.
Um corpo que precisa de pausa.
De silêncio.
De água.
E de, às vezes, simplesmente deixar-se ficar.
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