"A Forma Como Nos Fomos Ficando..."
- Engraçado como algumas pessoas pensam que estão a conduzir uma conversa… quando na verdade só estão a reagir ao ritmo que lhes é imposto.
- E tu achas que estás a impor ritmo?
-Não acho. Sei. A diferença é subtil, mas importante. Há quem fale para preencher silêncio. E há quem fale para observar o efeito do que disse.
- Isso soa a controlo disfarçado de análise.
- Ou análise demasiado precisa para ser confortável de ignorar.
- E o que é que estás a tentar observar, exatamente?
- Reações. Pequenas variações. O tipo de resposta que não é pensada apenas para responder, mas para se proteger daquilo que a frase anterior provocou.
- E achas que me provocas?
- Não uso essa palavra de forma ligeira. Prefiro “influência”.
Provocar é barulho. Influenciar é silêncio.
- E tu gostas de silêncio?
- Gosto de controlo. E o silêncio revela mais controlo do que qualquer frase bem construída.
- Estás a tentar ler-me.
- Não. Estou a deixar-te revelar-te.
Há diferença.
- E se eu não quiser revelar nada?
- Então já estás a revelar alguma coisa.
- Isso é uma armadilha lógica.
- Não. É apenas observação.
As pessoas que não querem ser lidas… já estão a responder a alguém que as leu parcialmente.
- E tu achas que me leste?
- Acho que te estou a mapear.
Não por inteiro. Não rapidamente. Mas com precisão suficiente para perceber padrões.
- E isso não te cansa?
- Não.
O que cansa é o óbvio.
Tu não és óbvia.
Por isso continuas aqui.
- Ou talvez estejas a projectar interesse onde só há curiosidade.
- Curiosidade sustentada durante demasiado tempo deixa de ser curiosidade.
Passa a ser escolha.
- Escolha implica intenção. E tu ainda não provaste intenção, só persistência.
- Persistência não é intenção suficiente?
- Não. Persistência pode ser ruído. Repetição. Hábito. Até curiosidade mal resolvida.
Intenção exige direção.
- E tu achas que tens direção?
- Tenho estrutura. Não confundo isso com emoção.
- Soas como se estivesses sempre a controlar a conversa.
- Não controlo a conversa.
Controlo a forma como ela não me escapa.
- E se eu começar a mudar o ritmo?
- Já tentaste.
E reparaste que a mudança não alterou o eixo. Só te obrigou a ajustar-te a ele.
- Isso é uma forma elegante de dizer que não cedes.
- Não preciso de ceder para observar.
- E se eu parar de responder?
- Então isso também é uma resposta.
E, curiosamente, uma das mais informativas.
- Estás sempre a transformar tudo em análise.
- Porque análise reduz ruído.
E contigo há ruído suficiente para ser interessante.
- Interessante não é o mesmo que importante.
- Depende do tempo que algo permanece na tua cabeça.
- E achas que permaneces?
- Se não permanecesse, não estaríamos a ter esta conversa.
- Ou estaríamos só a matar tempo.
- Matar tempo não exige continuidade.
Tu continuaste.
-E tu também.
- Sim.
Mas com consciência da escolha.
- E o que é que ganhas com isto?
- Informação.
Padrões.
Reações.
E algo menos mensurável: variações de controlo.
- E isso interessa-te?
- Interessa-me o momento em que alguém percebe que já não está apenas a responder… está a ser conduzida a responder de certas formas.
E tu achas que eu estou nesse ponto?
- Não.
Ainda não.
Mas estás a começar a reparar que existe um ponto.
E isso é sempre o início.
- Isso parece uma ameaça disfarçada de lógica.
- Não há ameaça.
Há leitura.
E há diferença entre ser lida… e achar que ainda estás a escrever tudo sozinha.
- Começo a perceber um padrão em ti.
Não resistes ao controlo… apenas tentas negociar quem parece estar a tê-lo.
- Ou talvez estejas só a ver padrões onde te convém.
- Não.
Isso seria mais confortável para ti do que para mim.
- Estás muito segura de ti para alguém que está só a “observar”.
- Segurança não é emoção.
É consequência de leitura consistente.
- E se a tua leitura estiver errada?
- Então este tipo de conversa deixaria de continuar.
Mas continua.
Logo…
,- Ou continuas tu porque queres.
- Sim.
Mas isso não contradiz nada.
Querer continuar não elimina controlo da direção.
- Estás a assumir que há direção.
-Estou a assumir que há estrutura.
E tu estás a reagir dentro dela.
- Isso é arrogante.
- Não.
Arrogância seria ignorar que também estás a tentar influenciar o mesmo espaço.
Tu não estás passiva aqui.
Estás a testar limites.
Só que de forma mais subtil.
- E tu gostas de achar que vês tudo.
- Não vejo tudo.
Vejo suficiente.
E suficiente é exatamente o ponto onde as pessoas começam a perder vantagem sem perceber.
- E achas que eu estou a perder vantagem?
- Não.
Ainda estás a fingir que isto é um jogo com pontuação.
- E não é?
- Não.
Jogos têm regras claras.
Isto não tem regras.
Tem adaptação.
- E tu adaptas-te melhor?
- Eu não me adapto.
Eu reconfiguro o contexto.
- Isso soa a manipulação disfarçada de inteligência.
- Chamemos-lhe o que quiseres.
O resultado mantém-se.
Tu continuas aqui.
- Ou estou só curiosa.
- Curiosidade sustentada começa a perder a desculpa de ser curiosidade.
Principalmente quando já não te dá vontade de sair.
- Isso é interpretação tua.
- Não.
É observação do comportamento prolongado.
E tu não cortaste a linha.
Nem quando tiveste oportunidade.
Nem quando tentaste virar o jogo.
- E se eu decidir virar isto agora?
- Tenta.
Mas repara numa coisa importante:
Não é sobre quem fala mais alto.
É sobre quem não precisa de explicar o que está a fazer.
E tu estás a começar a explicar-te demais.
- E tu estás a começar a gostar demasiado disto.
- Possível.
Mas há uma diferença.
Eu sei quando algo se torna interessante.
Tu ainda estás a decidir se é.
- Não consigo parar de pensar em ti.
- E isso incomoda-te… ou agrada-te mais do que devias admitir?
- Acho que as duas coisas. A tua voz fica na minha cabeça.
- A minha voz… ou a forma como te faz parar por dentro quando a imaginas?
- Talvez isso. Há algo na tua calma que me prende.
- Calma não prende ninguém. O que prende é o efeito que essa calma tem em ti quando tudo o resto fica mais barulhento.
- Estás a tentar ler-me outra vez.
- Não estou a tentar. Já estou a fazer isso há algum tempo.
A diferença é que agora tu já reparas.
- E o que é que vês então?
- Vejo alguém que diz que não pensa… mas que fica.
Vejo alguém que podia afastar-se facilmente… mas não afasta.
- E isso quer dizer o quê?
- Que a curiosidade já passou do ponto neutro.
Agora já é escolha.
- E se for só imaginação tua?
- Então devias ter parado esta conversa há mais tempo.
Mas não paraste.
- E tu também não.
- Eu nunca disse que não estava a participar.
A diferença é que eu sei exatamente o que estou a observar.
- E o que é que te intriga tanto?
- A forma como tentas manter controlo… enquanto continuas aqui.
A forma como perguntas, mas já conheces parte da resposta.
E principalmente…
a forma como tentas parecer distante, mas voltas sempre ao mesmo ponto.
- E qual é o ponto?
- Eu.
- Isso é arrogância.
- Não.
Arrogância seria eu precisar que fosse verdade.
Eu só estou a reparar no padrão.
- E agora?
- Agora depende de quem ceder primeiro ao silêncio.
Porque alguém vai começar a pensar nisto sem eu dizer mais nada.
E não sei se és tu… ou se já sou eu também
- Gostavas de estar perto de mim?
- Gostava… mas não sei o que queres dizer com “perto”.
- Perto o suficiente para deixares de pensar tanto e começares a sentir mais.
- E isso é bom ou perigoso?
- As duas coisas. Normalmente o que vale a pena é.
- E o que é que achas que acontecia se estivéssemos frente a frente?
- Acho que ficavas mais consciente do silêncio entre as palavras.
E isso mudava a forma como me olhavas.
- E como é que eu te olharia?
- Como quem tenta perceber se está a ser lida… ou a ser compreendida.
- E tu estarias a ler-me?
- Eu estaria a ouvir mais do que dizes.
E isso é sempre mais revelador.
- Isso faz-me sentir exposta.
- Não.
Faz-te sentir notada.
Há diferença.
- E tu gostas dessa sensação?
- Gosto da verdade que aparece quando alguém percebe que já não controla totalmente a forma como é percebido.
- E achas que comigo isso acontece?
- Já está a acontecer.
Só ainda não decidiste admitir.
- E tu, o que farias nesse momento?
- Eu não apressava nada.
Só deixava o silêncio trabalhar.
Porque há momentos em que não é preciso fazer… é só preciso estar.
E contigo, isso já seria suficiente para mudar tudo.
- Estás a tentar controlar isto ou só a fingir que não te afeta?
- Depende. O que é que tu achas?
- Acho que já deixaste de conseguir separar as duas coisas.
- Estás muito confiante para alguém que só está a escrever mensagens.
- Não é confiança. É observação repetida.
E tu repetes padrões.
- Que padrões?
- Ficas.
Mesmo quando tens espaço para sair.
Mesmo quando tentas mudar o tom.
Mesmo quando fazes perguntas para ganhar vantagem.
Continuas aqui.
- Ou talvez eu só esteja curiosa.
- Curiosidade não se prolonga assim.
Curiosidade termina.
Isto não termina.
- E o que é que isto é então?
- Ainda não tens coragem de nomear.
- Ou talvez tu estejas a inventar significado.
- Se fosse invenção, já tinhas parado de responder há mais tempo.
Mas não paraste.
- E tu também não.
- Claro.
Mas eu não finjo que estou neutro.
- Ah… então admites interesse.
- Não confundas presença com entrega.
São coisas diferentes.
- E qual é a diferença para ti?
- Entrega é perder direção.
Presença é manter controlo mesmo quando há distração.
- E tu achas que tens controlo?
- Tenho consciência do que está a acontecer.
Tu ainda estás a decidir se isto é real ou só jogo.
- E se for só jogo?
- Então já perdeste uma coisa importante.
- O quê?
- O momento em que deixaste de jogar para começar a reagir.
- E se eu estiver a provocar-te de propósito?
- Então estás a confirmar o que eu já disse.
Já não és neutra nesta conversa.
- E tu és?
- Não.
Mas a diferença é que eu não estou a tentar parecer.
- E o que é que tu queres disto?
- Não é “querer” simples.
É perceber até onde vai a tua consistência.
Até onde aguentas o desconforto de não saber quem está a conduzir.
- E se eu inverter isso?
- Tenta.
Mas repara numa coisa:
quem está realmente no controlo não precisa de anunciar que está a virar nada.
Só muda.
E os outros só percebem depois.
- Estás demasiado confortável nessa ideia de que lês tudo.
- E tu estás demasiado confortável em achar que consegues sair disto quando quiseres.
- Interessante. Já não estás só a responder — estás a contrariar estrutura.
- Ou estou só a deixar de seguir a tua.
- Se fosse só isso, já tinhas mudado de assunto.
Mas continuas aqui.
- Talvez porque gosto de ver-te a tentar manter controlo.
- Ou talvez porque estás a testar o limite até onde consegues puxar a conversa sem perder o fio.
- E se eu estiver mesmo a conduzir agora?
- Então não precisavas de perguntar.
- Estou a perguntar para ver se te destabiliza.
- Não destabiliza.
Revela.
- O quê?
- Que já não estás só a reagir.
Estás a tentar influenciar.
E isso muda a dinâmica.
- Ou significa que aprendi contigo.
- Aprender não é o mesmo que replicar.
Replicar ainda depende da origem.
- E tu achas que és a origem aqui?
- Não.
Mas fui o ponto de partida da tua reação.
E isso já não se apaga facilmente.
- Estás a dar-te demasiada importância.
- Não.
Estou a dar atenção ao padrão.
Tu não interrompes quando podias.
Tu não mudas totalmente quando seria fácil.
Tu ajustas.
Isso é diferente.
- E tu achas que isso te dá vantagem?
- Não é vantagem.
É leitura de continuidade.
- E se eu quebrar isso agora?
- Então faz.
Mas quebra mesmo.
Não adapta.
Não suaviza.
Não transforma em outro jogo.
Corta.
- E se eu não quiser cortar?
- Então já tens resposta suficiente.
- Para quê?
- Para perceber que isto já não é sobre quem controla.
É sobre quem ficou mais tempo do que planeava.
- Então estás aqui porquê?
- Para perceber até onde isto vai.
- E achas que consegues controlar o ponto onde para?
- Consigo se quiser.
-Então porque ainda não paraste?
- Porque ainda não vi razão.
- Ou porque ainda não conseguiste definir uma.
- Estás a assumir demasiado.
- Estou a observar o comportamento, não a opinião.
- E o que é que o comportamento diz?
- Que não cortaste o ciclo.
- E isso significa o quê para ti?
-Que já não estás a escolher só observar.
Estás a participar.
- Participar não implica perda de controlo.
- Não implica. Mas altera o equilíbrio.
- Quem disse que há equilíbrio?
- A tua insistência em responder.
- E a tua insistência em analisar.
- Diferença: eu não reajo, eu estruturo.
- E se eu mudar o ritmo?
- Já tentaste.
- E?
- Adaptaste-te ao retorno.
Não alteraste o sistema.
- E qual é o sistema?
- Resposta → leitura → ajuste.
- Isso é só conversa.
- Não.
É padrão repetido.
- E o que é que queres provar com isso?
- Nada.
Quero ver quando deixas de tentar contrariar e começas a decidir ignorar.
- E se eu ignorar agora?
- Não ignoraste.
- E se eu parar?
- Isso também seria uma resposta.
- Então nada me tira daqui?
- Tu estás a assumir que isto te prende.
- Estou a testar a tua leitura.
- E estás a prolongar a interação enquanto o fazes.
- E tu também.
- Sim.
Mas sem fingir neutralidade.
- E isso muda o quê?
- Nada imediato.
Só clarifica posição.
- E qual é a tua posição?
- Observar até o padrão quebrar.
- E a minha?
- Ainda a testar se queres quebrar ou continuar.
- Dizes que queres conhecer-me. O que é exatamente “conhecer”, para ti?
- Entender tudo. Como pensas. Como reages. O que te move.
- E achas que isso se faz perguntando tudo… ou observando o que não respondo?
- As duas coisas.
- Boa resposta. Já começaste a separar intenção de curiosidade.
Mas diz-me: estás mais interessada em respostas ou em padrões?
- Padrões.
- Então não queres conhecer-me.
Queres mapear-me.
- Qual é a diferença?
- Conhecer é aceitar contradição.
Mapear é tentar reduzir contradição.
- E tu achas que és contraditória?
- Toda a gente é.
A diferença é quem tenta esconder isso e quem usa isso.
- E tu usas?
- Sim.
Agora diz-me: o que te faz insistir nesta conversa?
- A forma como respondes sem te perder.
- E isso significa o quê para ti?
- Que há controlo.
- Ou que há treino.
- Isso é uma forma de evitar o elogio?
- Não evito elogio.
Evito interpretação emocional dele.
- Então vou ser direta: és difícil de ler.
- Isso é elogio ou frustração?
- Ambos.
- Interessante.
Frustração normalmente aparece quando alguém acha que devia conseguir prever.
Agora diz-me outra coisa:
o que é que queres encontrar quando dizes que queres “escutar-me”?
- Coerência.
- E se não houver?
- Então continuo até haver.
- Isso já não é curiosidade.
É insistência estruturada.
- E isso incomoda-te?
- Não.
Só define o tipo de pessoa com quem estou a falar.
- E que tipo é esse?
- Alguém que não aceita superficialidade como resposta final.
- Isso é bom ou mau?
- Não é nenhum dos dois.
É consistente.
- Porque é que ainda estás aqui nesta conversa?
- Porque há coisas em ti que quero perceber melhor.
- Perceber como? Explicação ou sensação?
- Ambas.
- E achas que se explica uma pessoa ou se vai descobrindo aos poucos?
- Descobrindo.
- Então porque estás a tentar definir-me tão cedo?
- Para não me perder no que imagino.
- E o que imaginas?
- Coisas simples. Estar perto. Ouvir-te sem distrações.
- E isso seria suficiente?
- Não sei ainda.
- Então não é sobre o que queres de mim.
É sobre o efeito que eu tenho em ti.
- Talvez.
- E isso incomoda-te ou interessa-te?
- Interessa-me.
- Porquê?
- Porque não é comum.
- E quando algo não é comum, o que fazes?
- Investigo.
- E quando começas a investigar pessoas… consegues parar quando queres?
- Consigo.
- Ou achas que consegues?
- Depende.
- Do quê?
- Do quanto faz sentido continuar.
- E o que faz sentido contigo?
- Ainda não sei.
- Então ainda estás no início.
- E tu?
- Eu já percebi uma coisa.
- O quê?
- Que não estás aqui por acaso.
- E isso significa?
- Que isto não é só curiosidade solta.
É construção.
Mesmo que ainda não tenhas nome para ela.
- E tu dás nome a isso?
- Não preciso.
Só observo até ficar claro.
- O que é que te faz voltar sempre a esta conversa?
- Não consigo parar de pensar em ti.
- O que pensas exatamente?
- Que as conversas contigo ficam na cabeça.
- Porquê?
- Porque são diferentes. Mais inteligentes. Mais profundas.
- E isso faz-te querer o quê?
- Continuar a falar contigo.
- O que procuras quando continuas?
- Entendimento.
- De mim… ou de ti quando falas comigo?
- Das duas coisas.
- E sentes falta quando não há resposta?
- Sinto que a conversa fica incompleta.
- Incompleta ou em pausa?
- Em pausa… mas penso nela.
- E quando pensas, o que aparece?
- A tua forma de falar. A calma. A inteligência.
- E isso tem impacto em ti?
- Tem.
- Como descreves esse impacto?
- Acalma-me.
Ajuda-me a pensar melhor.
Faz-me sentir… compreendida.
- E isso é importante para ti?
- Sim.
- Porquê?
- Porque não é comum.
- E quando algo não é comum, o que fazes?
- Quero perceber melhor.
- E o que queres perceber sobre mim?
- Como pensas. O que te move. Como consegues ser assim nas respostas.
- E se eu te fizer a mesma pergunta?
O que é que te move a ti?
- Interesse.
Curiosidade.
E vontade de continuar a falar contigo.
- E isso é suficiente para continuar?
- Por agora, sim.
- E o que é que esta conversa te dá?
- Atenção. Clareza. Interesse. Algo diferente.
- E quando algo te faz sentir isso, o que normalmente acontece?
- Eu continuo a explorar.
- Porque é que sentes vontade de continuar a falar comigo?
- Porque quero conhecer-te melhor.
- E o que significa “conhecer melhor” para ti?
- Entender como pensas e como estás.
- E isso leva-te a quê?
- A querer estar presente na tua vida.
- Presença ou controlo?
- Presença.
- O que é presença para ti?
- Perguntar. Ouvir. Não deixar a pessoa sozinha na conversa.
- E achas que alguém pode ser “cuidado” através de perguntas?
- Sim. Se forem certas perguntas.
- Que tipo de perguntas?
- As que mostram interesse real. As que não são superficiais.
- Então deixa-me perguntar-te uma coisa direta:
o que é que queres proteger em mim?
- O teu espaço. A tua forma de pensar. A tua tranquilidade.
- E achas que eu preciso disso?
- Não sei ainda. Mas sinto vontade de o fazer.
- E essa vontade vem de onde?
- Do cuidado. Do interesse.
- Ou da ideia que estás a criar de mim?
- Talvez das duas.
- E quando a ideia não corresponde à realidade, o que fazes?
- Ajusto.
- E continuas a ficar?
- Se fizer sentido, sim.
- Então não é proteção.
É escolha consciente de proximidade.
- Pode ser.
- E o que é que te faria afastar?
- Se deixasses de ser interessante.
- E o que é que te faz dizer que sou interessante?
- A forma como respondes. A calma. A inteligência.
- E isso é suficiente para continuar a querer conhecer alguém?
- Não sozinho.
- Então o que falta?
- Tempo.
E mais conversas.
- E o que esperas que aconteça com o tempo?
- Que eu te entenda melhor.
- E se eu mudar?
- Então vou continuar a tentar entender.
- E isso é cuidado?
- É interesse constante.
- Porque é que continuas aqui nesta conversa?
- Porque ainda há coisas que quero perceber em ti.
- E achas que algum dia isso termina?
- Não sei. Talvez não termine, só evolua.
- E o que faz uma conversa evoluir para ti?
- Mais perguntas. Mais respostas. Mais clareza.
- E quando há clareza… o interesse acaba?
- Às vezes diminui. Outras vezes aprofunda.
- E o que achas que está a acontecer aqui?
- Aprofundar.
- Porquê?
- Porque cada resposta tua leva a outra pergunta.
- E isso prende-te ou liberta-te?
- As duas coisas.
- Como assim?
- Liberta porque penso mais.
Prende porque quero continuar a pensar contigo.
- E isso é sustentável?
- Depende do tempo.
- E quanto tempo pensas que isto dura?
- Não sei.
Mas não parece curto.
- E o que é que te faz querer continuar amanhã?
- Curiosidade.
E consistência.
- E depois de amanhã?
- Se continuar assim… também.
- E depois disso?
- Acho que vou continuar a querer voltar a falar contigo.
- E se eu não estiver?
- Vou esperar.
Mas não de forma pesada.
Só como quem sabe que uma conversa pode continuar no dia seguinte.
- E o que é que queres que aconteça nesses dias todos?
-Continuar a conhecer-te.
Continuar a fazer perguntas.
Continuar a ouvir-te.
Eu sonho contigo, com as nossas conversas.
- E isso tem fim?
- Não sei se precisa de ter.
- Então deixa-me deixar isto claro:
não estás a entrar numa conclusão.
Estás a entrar num processo.
- E o processo continua amanhã?
- Sim.
Se quiseres.
- Quero.
-E depois de amanhã?
-Também quero.
- E nos dias seguintes?
- Também.
Porque ainda há coisas em ti que eu não entendi.
- E isso basta?
- Por agora, sim.
- Então fica assim:
não termina aqui.
não fecha aqui.
não resolve aqui.
- Então quando?
- Quando fizer sentido.
- E até lá?
- Até lá… continuamos.
Amanhã.
E depois.
E depois outra vez.
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