"Intensidade em contenção"

 Sabes… acho que uma das coisas mais pesadas da vida não é aquilo que sentimos. É aquilo que sentimos e não dizemos.

Há pessoas que passam anos inteiros a carregar emoções em silêncio, como quem tenta convencer-se de que o tempo resolve tudo sozinho. Guardam palavras. Guardam vontades. Guardam afectos. E, pouco a pouco, habituam-se a transformar intensidade em contenção.

Por medo.

Medo de não serem correspondidas.

Medo de estragar uma amizade.

Medo de complicar aquilo que ainda está em equilíbrio.

Medo da rejeição.

Porque a rejeição toca numa parte muito primitiva do ser humano. Ninguém gosta de sentir que avançou emocionalmente em direcção a alguém e encontrou distância do outro lado. Expor sentimentos exige vulnerabilidade e a vulnerabilidade nunca será confortável. Nunca.

Mas o silêncio também tem um preço.

E talvez seja disso que quase ninguém fale suficientemente.

As pessoas falam muito do desconforto de dizer o que sentem, mas falam pouco do desgaste lento de nunca dizer nada.

Porque aquilo que fica por dizer não desaparece magicamente. Não evapora. Não morre por educação emocional.

Fica.

Transforma-se em pensamento recorrente. Em imaginação. Em hipótese. Em comparação. Em noites onde a cabeça cria diálogos inteiros que nunca aconteceram.

E depois nasce aquela pergunta perigosíssima que o tempo raramente consegue apagar:

“E se eu tivesse falado?”

Na verdade, poucas coisas pesam tanto quanto um “e se” prolongado durante anos.

Porque quando algo termina, por mais doloroso que seja, existe uma realidade concreta com a qual aprendemos a lidar. Mas a dúvida não termina. A dúvida prolonga-se. Alimenta versões alternativas da vida. Cria cenários imaginários onde talvez tudo pudesse ter sido diferente.

E o mais curioso é que muitas vezes as pessoas preferem proteger-se de uma possível rejeição imediata enquanto se condenam a uma inquietação muito mais longa.

Falar exige coragem.

Mas não porque garante reciprocidade.

Isso ninguém pode prometer.

Não existe maturidade emocional suficiente que consiga controlar aquilo que o outro sente.

Pode correr mal.

Pode não ser correspondido.

Pode existir carinho sem desejo.

Pode existir timing errado.

Pode existir medo do outro lado também.

Pode simplesmente não acontecer.

E sim — isso dói.

Claro que dói.

Só que há uma diferença enorme entre sofrer uma verdade e viver aprisionado numa hipótese.

Porque quando falamos, pelo menos colocamo-nos em verdade connosco próprios.

E talvez seja isso que significa amar de forma adulta.

Não exigir garantias antes de sentir.

Não transformar o afecto numa negociação de segurança emocional.

Mas ter coragem suficiente para não fugir daquilo que é real dentro de nós.

Além disso — e isto parece-me importante — raramente tudo surge completamente do nada.

As pessoas sentem sinais.

No olhar.

Na presença.

Na forma como alguém procura conversa.

Na maneira como o silêncio deixa de ser desconfortável.

Nos pequenos gestos que não são propriamente obrigação.

O ser humano percebe mais do que admite.

Às vezes sabemos. Ou pelo menos suspeitamos.

E mesmo quando existe incerteza, existe também intuição.

Existe aquela sensação subtil de que talvez valha a pena atravessar o medo.

E sinceramente?

Por mim, vale quase sempre.

Porque a vida passa depressa demais para vivermos eternamente em contenção emocional.

Passamos anos a adiar coisas importantes como se tivéssemos garantias absurdas de tempo.

“Mais tarde.”

“Agora não.”

“Talvez um dia.”

Mas um dia as pessoas mudam.

Afastam-se.

Conhecem alguém.

Partem.

Ou simplesmente deixam de estar emocionalmente disponíveis da mesma forma.

E aquilo que podia ter sido dito transforma-se apenas em memória silenciosa.

Por isso hoje penso cada vez mais isto:

é melhor lidar com uma resposta honesta do que viver uma vida inteira agarrada à dúvida.

Porque sentimentos não ditos não desaparecem verdadeiramente.

Ficam guardados em lugares estranhos dentro de nós.

Aparecem anos depois numa música.

Numa rua.

Num cheiro.

Num nome inesperado.

E às vezes percebemos tarde demais que o verdadeiro arrependimento nunca foi ter sentido demasiado.

Foi não ter tido coragem suficiente para viver aquilo que sentíamos enquanto ainda havia tempo.

No fim, talvez a grande questão seja mesmo esta:

preferes arriscar e ser verdadeira contigo própria…

ou continuar a carregar o peso daquilo que nunca tiveste coragem de dizer?

Por isso eu digo.

Digo aquilo que sinto enquanto ainda tenho voz para o fazer.

Escrevo enquanto ainda existem mãos capazes de transformar emoção em palavras.

Abraço enquanto ainda existem corpos presentes para acolher.

Escuto enquanto ainda há pessoas dispostas a abrir partes vulneráveis de si mesmas.

Falo.

Protejo.

Dou carinho.

Amo.

E vivo intensamente.

Não porque ache que a vida tem de ser constantemente grandiosa ou cinematográfica. Não porque viva numa busca permanente por intensidade vazia. Mas porque a consciência da fragilidade da existência mudou profundamente a forma como olho para o tempo.

Ontem já passou.

Amanhã não me pertence.

E hoje — este instante exacto — pode ser a única coisa verdadeiramente real que temos.

Nós vivemos como se houvesse sempre depois.

Depois telefono.

Depois respondo.

Depois peço desculpa.

Depois digo que gosto.

Depois abraço.

Depois descanso.

Depois vivo.

Mas a verdade é desconfortável: ninguém sabe quantos “depois” existem ainda.

E não digo isto numa lógica pessimista.

Pelo contrário.

Digo-o porque a consciência da impermanência pode tornar-nos mais vivos.

Mais atentos.

Mais honestos.

Porque basta olhar em volta com sinceridade para percebermos como tudo é delicado.

Ontem alguém estava aqui.

Hoje já não está.

Ontem uma conversa parecia eterna.

Hoje tornou-se memória.

Ontem tínhamos tempo.

Hoje percebemos que o tempo nunca esteve realmente garantido.

E talvez seja por isso que me recuso cada vez mais a viver emocionalmente pela metade.

Se gosto, demonstro.

Se amo, cuido.

Se alguém importa, faço questão de que saiba.

Porque existe uma tragédia silenciosa em pessoas que se amavam profundamente e nunca tiveram coragem suficiente para o dizer claramente enquanto podiam.

E depois ficam apenas objectos, fotografias, mensagens antigas e uma quantidade insuportável de frases começadas por:

“Eu devia ter…”

Não quero viver assim.

Não quero transformar afecto em contenção permanente.

Não quero passar pela vida inteira emocionalmente organizada e interiormente ausente.

Quero sentir as coisas enquanto elas existem.

Quero abraçar demoradamente as pessoas que amo.

Quero ouvir com presença verdadeira e não apenas enquanto espero pela minha vez de falar.

Quero escrever mensagens longas sem vergonha de parecer intensa.

Quero rir alto.

Quero cuidar.

Quero estar.

Porque talvez maturidade não seja tornar-nos frias.

Talvez seja perceber que a vulnerabilidade é um risco inevitável da experiência humana — e ainda assim escolher amar.

E sim, claro que dói às vezes.

As pessoas falham.

Mudam.

Partem.

Desiludem.

A vida interrompe planos sem pedir autorização.

Mas mesmo assim continuo a achar que o pior não é sofrer por ter amado.

O pior seria nunca ter vivido verdadeiramente por medo da dor.

No fundo, a única coisa que realmente temos uns dos outros é presença temporária.

É isso.

Nenhum abraço vem com contrato de permanência.

Nenhuma conversa garante repetição infinita.

Nenhum “amo-te” suspende a mortalidade.

E talvez exactamente por isso tudo ganhe tanto valor.

Porque somos frágeis.

Porque somos temporários.

Porque nenhum de nós sabe se amanhã estaremos todos aqui, vivos, conscientes, disponíveis ou sequer capazes de voltar a dizer aquilo que hoje ainda podemos dizer.

Por isso eu não adio afecto.

Não adio cuidado.

Não adio amor.

Porque a vida já é imprevisível o suficiente sem que sejamos nós próprias a acrescentar distância ao que realmente importa.

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