"Lugar antigo"
Há momentos em que pensamos que o amor acontece na proximidade, quando na verdade certas ligações parecem nascer num lugar mais antigo do que a presença. Não sei se lhe devemos chamar destino, memória ou apenas essa estranha capacidade humana de reconhecer no outro algo que nunca soubemos nomear em nós.
Foi assim que comecei a compreender a tua existência.
Não como quem encontra. Como quem reconhece.
Porque há pessoas que entram na nossa vida como novidade e há outras que chegam com o desconcerto silencioso do regresso. Não trazem a sensação de descoberta — trazem a sensação inquietante de evidência. Como se uma parte de nós, até então dispersa, deixasse finalmente de procurar.
E foi aí que percebi uma coisa que me recusava a aceitar: talvez as almas não se procurem. Talvez se identifiquem.
Não pelas palavras certas. Não pelos gestos perfeitos. Nem pela permanência física que tantas vezes confundimos com profundidade. Reconhecem-se por um fenómeno mais discreto e mais difícil de explicar — uma espécie de deslocação interior, como se o mundo continuasse exactamente igual e, ainda assim, deixasse de ocupar o mesmo lugar dentro de nós.
É por isso que nunca consegui acreditar totalmente na distância.
A distância mede corpos. Nunca soube medir presença.
Porque, se um dia choras e os meus olhos não te alcançam, há em mim uma forma de visão que não pertence ao olhar. Não te vejo no sentido comum da palavra — mas algo em mim altera-se. Como se o teu silêncio tivesse peso. Como se a tua tristeza produzisse uma sombra que atravessa os quilómetros sem pedir licença à razão.
E então compreendo: a minha alma viu a tua.
Não como quem observa um rosto, mas como quem reconhece uma mudança na luz.
Talvez seja isto amar na sua forma mais exigente — abandonar a ilusão de possuir o outro e aceitar apenas permanecer suficientemente atento para sentir quando o seu mundo treme.
Porque as almas, se existirem, não devem tocar-se como as mãos.
Devem tocar-se como o mar toca a lua: à distância, sem ruído, alterando marés sem nunca se confundirem.
E se um dia o tempo nos dispersar, se as cidades mudarem, se o corpo falhar ou o silêncio crescer entre nós, haverá ainda uma pergunta que não precisará de resposta:
se a minha alma continua a reconhecer a tua,
que importância pode ter a distância?
Porque quando choras — mesmo que eu não veja com os meus olhos —
há qualquer coisa em mim que sabe.
E talvez o nome mais próximo que os humanos encontraram para esse mistério tenha sido sempre o mesmo.
Amor.
Então talvez o amor não termine quando reconhece.
Talvez comece aí.
Porque reconhecer outra alma não é encontrar repouso — é aceitar uma espécie de responsabilidade sem contrato, um cuidado que não nasce da obrigação mas de uma estranha vontade de preservar aquilo que nunca foi nosso.
E foi depois disso que percebi outra coisa.
Nem todas as estações do coração são feitas de fogo.
Há dias em que somos inverno.
Dias em que o corpo continua e a alma abranda. Dias em que o mundo nos cobre de gelo — não o gelo da indiferença, mas aquele mais silencioso, mais perigoso: o de começar a sentir menos para sofrer menos.
E nesses dias pensei em ti.
Não como quem quer entrar.
Mas como quem acende uma luz à porta.
Porque se houver gelo em ti, eu não quero ser tempestade.
Quero ser calor suficiente para te lembrar que ainda existe primavera.
E se houver fogo em ti — daqueles fogos que cansam, que queimam por dentro, que te fazem acreditar que tens de suportar tudo sozinha —
não quero apagar-te.
Quero sentar-me ao lado da tua chama até ela deixar de ser incêndio e voltar a ser casa.
Talvez proteger alguém seja isto.
Não construir muralhas.
Mas tornar-se lugar seguro.
Um abraço que não fecha.
Uma presença que não exige.
Uma espécie de abrigo onde o outro pode pousar o peso sem medo de deixar de ser amado por causa dele.
Porque os abraços mais raros nem sempre acontecem com os braços.
Às vezes acontecem assim:
eu daqui.
Tu daí.
E entre nós uma certeza sem forma a dizer:
descansa.
Não precisas de sobreviver ao mundo todos os dias.
Há alguém que, mesmo longe, deseja que nada dentro de ti se parta.
E se alguma vez o frio te convencer que estás sozinha —
lembra-te:
o gelo nunca venceu o fogo.
Só o fez esquecer-se da sua temperatura.
E eu acredito que há coisas que não congelam.
A atenção.
O cuidado.
O reconhecimento.
Esse lugar onde as palavras acabam e fica apenas aquela sensação antiga de ter chegado a alguém sem nunca o possuir.
Por isso, se um dia o tempo endurecer tudo, se as distâncias crescerem e os silêncios parecerem maiores do que aquilo que conseguimos dizer —
fica apenas com isto.
O que sempre sussurramos uma à outra.
A minha alma vê a tua.
A minha alma reconhece a tua.
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