"Contraditório"

 Existe algo profundamente contraditório na forma como muitas pessoas observam os outros actualmente.

Se eu digo que não li, é porque não li.
Se digo que não vi, é porque não vi.

Não compreendo esta necessidade quase compulsiva de suspeitar de tudo, como se a honestidade tivesse deixado de ser uma possibilidade legítima dentro das relações humanas. Que utilidade teria mentir acerca de algo tão irrelevante? Se admiro uma frase, assumo-o. Se gosto de uma ideia, reconheço-o sem dificuldade. Nunca precisei de fingir desinteresse para parecer mais interessante, mais culta ou intelectualmente superior. Não encontro grandeza nesse tipo de artifício.

Mas aquilo que verdadeiramente me intriga surge depois.

Há pessoas que afirmam que aquilo que escrevo é vazio.
Irrelevante.
Artificial.
Sem profundidade.
Dizem que tenho demasiados problemas, demasiados defeitos, demasiadas fragilidades. E algumas chegam ao ponto quase absurdo de invalidar aquilo que partilho sobre mim porque “não existe nada documentado”, como se a dor humana precisasse de autorização pública para ser real. Como se uma mulher tivesse obrigação de expor relatórios clínicos, diagnósticos ou partes íntimas da sua própria vulnerabilidade para merecer credibilidade emocional.

E talvez isso revele uma das faces mais inquietantes da sociedade contemporânea: a incapacidade crescente de compreender sofrimentos silenciosos.

Vivemos numa época onde a dor só parece legítima quando é transformada em espectáculo. Se alguém sofre em silêncio, desvalorizam. Se alguém continua funcional apesar do peso interior que carrega, assumem automaticamente exagero, dramatização ou invenção. Como se sobreviver discretamente anulasse a existência da própria batalha psicológica.

Mas aquilo que continua a parecer-me mais paradoxal é outra coisa.

Se tudo aquilo que escrevo é assim tão irrelevante… porque continuam aqui?

Porque lêem?
Porque observam?
Porque regressam repetidamente a este espaço?

A verdade é simples: ninguém permanece diante daquilo que verdadeiramente considera vazio. A indiferença afasta. O desinteresse ignora. Quando alguém regressa constantemente, mesmo através da crítica, existe sempre algum tipo de impacto — ainda que esse impacto nem sempre seja confortável de admitir.

E talvez algumas pessoas não consigam aceitar algo profundamente humano: o facto de uma mulher imperfeita, cheia de falhas, fragilidades e conflitos internos, conseguir ainda assim tocar outras pessoas através da escrita.

Porque eu nunca me apresentei como modelo de perfeição.

Tenho defeitos reais.
Tenho fragilidades reais.
Tenho dias difíceis que ninguém vê.
Tenho um universo interior complexo, pesado por vezes, contraditório muitas outras. E continuo a escrever não porque me considere extraordinária, mas porque escrever sempre foi uma forma de organizar o excesso de pensamento dentro de mim. Uma tentativa de transformar confusão emocional em linguagem. Uma forma de impedir que determinadas partes minhas se afoguem em silêncio.

Nunca procurei ribalta.
Nunca escrevi para coleccionar aplausos.
Nunca precisei de aceitação colectiva para continuar presente.

Se quisesse validação superficial, construiria uma personagem mais confortável para os outros. Escreveria apenas aquilo que gera consenso imediato. Transformaria este espaço numa versão cuidadosamente editada de mim própria, desenhada para agradar, impressionar e receber aprovação constante.

Mas nunca foi isso que me interessou.

Aquilo que escrevo nasce de observação humana, de vivências, de excesso emocional, de reflexão, de sensibilidade e também das partes mais difíceis da existência. E talvez seja precisamente isso que incomoda certas pessoas: a honestidade não filtrada.

Não uma honestidade performativa.
Não uma vulnerabilidade esteticamente construída para consumo alheio.
Mas algo mais cru, mais imperfeito e inevitavelmente mais humano.

Porque as pessoas habituaram-se a personagens.
E quando encontram alguém que escreve sem tentar parecer impecável o tempo inteiro, sentem desconforto.

Mas a verdade é que eu nunca precisei de parecer perfeita para escrever com verdade.

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