"Céu Azul"
Olho o céu azul e ouço o chilrear dos pássaros.
E, por instantes, tudo parece voltar ao lugar certo.
Há manhãs em que a vida deixa de exigir grandes respostas.
Manhãs em que o mundo não precisa de impressionar para ser suficiente.
O céu está azul.
Os pássaros cantam sem saber que estão a fazer música.
O vento passa devagar.
E alguma coisa dentro de mim abranda também.
Vivemos tão ocupadas a perseguir aquilo que falta que raramente percebemos o milagre silencioso daquilo que já está.
A paz chega quase sempre assim:
discreta.
Sem espectáculo.
Sem anúncio.
Não entra pela porta como uma conquista grandiosa. Aproxima-se devagar, em momentos pequenos que facilmente passaríamos por cima se não aprendêssemos a prestar atenção.
Um pedaço de céu.
Um som ao longe.
A luz da manhã numa parede.
O corpo finalmente sem pressa.
E nessa simplicidade existe uma riqueza que durante muito tempo subestimei.
Porque ensinaram-nos a imaginar felicidade como excesso.
Mais conquistas.
Mais dinheiro.
Mais reconhecimento.
Mais movimento.
Como se a plenitude tivesse obrigatoriamente de ser barulhenta.
Mas hoje suspeito exactamente do contrário.
Talvez os momentos mais verdadeiros da vida sejam aqueles em que não sentimos necessidade de acrescentar nada ao instante.
Apenas estar.
Olhar o céu e não querer corrigi-lo.
Ouvir os pássaros e não precisar de transformar aquilo em produtividade.
Respirar sem ansiedade de futuro.
E então a alma — essa coisa invisível e cansada que tantas vezes arrastamos sem cuidado — começa finalmente a repousar.
Transborda de calma.
Não porque a vida tenha ficado perfeita.
Mas porque, por alguns minutos, deixamos de lutar contra ela.
Há uma maturidade muito bonita em chegar a este lugar.
Perceber que paz não é ausência absoluta de problemas.
É presença suficiente de consciência.
É conseguir reconhecer beleza enquanto o mundo continua imperfeito.
Porque a verdade é esta: os dias difíceis não desaparecem.
As preocupações continuam.
As perdas continuam possíveis.
A incerteza continua a existir.
Mas também continua a existir o céu.
Também continuam a existir pássaros.
Também continuam a existir manhãs capazes de nos devolver delicadamente a nós próprias.
E talvez viver seja exactamente isto:
não esperar uma vida extraordinária para sentir gratidão pela existência.
Porque às vezes tudo o que precisamos para voltar a sentir sentido é um momento de silêncio verdadeiro diante da simplicidade do mundo.
Olhar em volta.
Respirar fundo.
E pensar, com uma honestidade tranquila:
que mais posso realmente querer da vida, senão isto?
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