"Eu Sou Eu"

Bom dia.

Mesmo quando o céu amanhece
com uma espécie de ferrugem suspensa
sobre os prédios
e a manhã mastiga lentamente
os telhados da cidade.

Abro os olhos lúcida.

Isso basta.

Há dias em que a claridade excessiva
me parece uma forma de distração.
Talvez por isso goste do nevoeiro,
das nuvens baixas,
da luz que não invade — apenas permanece.

Olho os números do meu blogue.

Centenas.

Pequenos vestígios de presença
acesos em quartos anónimos.

E gosto.
Não pela contabilidade estéril dos algoritmos,
mas porque houve alguém, algures,
que interrompeu por instantes
o ruído disciplinado do mundo
para habitar as minhas palavras.

Talvez não tenha sentido o mesmo.

Mas sentiu qualquer coisa.

E, por vezes,
isso basta para adiar
a indiferença.

Escrevo
como quem abre as janelas
de uma casa muito tempo fechada
depois do incêndio.

O ar continua impregnado.

Escrevo vivências,
pensamentos atravessados por fissuras,
sentimentos deixados a secar
na precariedade dos dias.

As qualidades escrevo-as devagar,
quase com desconfiança.

Os defeitos, não.

Os defeitos examino-os contra a luz
como quem procura, no vidro partido,
o ponto exato onde começou a quebra.

Não para absolvição.

Nem para castigo.

Apenas para compreender
que espécie de silêncio
precede sempre a ruína.

Há coisas que me atingem fundo
porque pertencem à parte mais antiga de mim.

Gosto do autêntico.

Do que chega sem encenação.
Sem frases cuidadosamente polidas
para sobreviver ao olhar dos outros.

Gosto de quem preserva humanidade
mesmo depois da crueldade.

De quem escuta
sem transformar cada conversa
num tribunal invisível.

De quem não altera o tom de voz
diante de alguém socialmente útil.

Gosto da delicadeza que não se anuncia.
Da paciência sem espetáculo.
Do altruísmo que acontece
longe das fotografias.

Gosto das pequenas permanências:

uma chávena ainda morna sobre a mesa,
roupa esquecida ao vento,
alguém a perguntar “chegaste bem?”
e a permanecer o tempo suficiente
para ouvir a resposta.

Gosto do amor.

Não do amor de montra,
coreografado para parecer perfeito.

Gosto do amor
que atravessa as zonas destruídas do outro
sem a arrogância de querer reconstruí-las imediatamente.

Do amor que compreende
que certas ruínas
não precisam de reparação —
precisam de presença.

Dizem que sou defeito.

Como se aqueles que apontam
tivessem atravessado a vida intactos.

Dizem que escrevo para magoar.

Mas quem escreve para ferir
raramente deixa fragmentos de si
em cada frase.

Eu escrevo
para que a dor não oxide
dentro do corpo.

Há palavras
que não atravessam a garganta
sem deslocar qualquer coisa essencial.

Então deixo-as respirar no papel.

Dizem:

“Sociopata.”

Mas um sociopata
não passa noites inteiras
a reconstruir conversas
com a minúcia desesperada
de quem revê destroços.

Não sente culpa
a infiltrar-se nos talheres,
nas paredes,
na água demorada do banho.

Há pessoas
que usam emoções
como instrumentos de cálculo.

Eu atravesso-as desarmada.

Chamam excesso
ao que apenas nunca suportaram sentir.

E talvez eu escreva tanto
porque certas pessoas
carregam quartos demais acesos por dentro
para sobreviverem em absoluto silêncio.

Por isso escrevo.

Para compreender.
Para respirar.
Para impedir que o mundo, lentamente,
me reduza
a uma superfície sem fissuras.

Porque neste mundo
há quem sobreviva pela dissimulação,
e há quem sobreviva
tentando permanecer inteiro
mesmo quando a verdade
cobra o seu preço em ausência.

Eu sou eu.

Não rumor.
Não diagnóstico.
Não a versão simplificada
que os outros constroem
para dormirem mais tranquilos.

Sou a soma imperfeita
do que perdi,
do que suportei,
do que continuo a amar
apesar de tudo.

E a autenticidade —

a autenticidade tem o som exato
de um espelho
quando finalmente se parte.

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