"Lucidez terminal"

 Ultimamente tenho pensado muito sobre morrer.

Não de uma forma deprimente. Nem dramática. Nem como quem decidiu viver enrolada numa manta a ouvir violinos e a contemplar o vazio.

Mais como quem tropeçou numa ideia estranha e pensou: espera… isto afinal é muito mais interessante do que assustador.

Porque comecei a perceber uma coisa.

A morte não é propriamente um mistério biológico.

Nós é que temos um talento extraordinário para a transformar num.

Mas o corpo… o corpo parece saber exactamente o que está a fazer.

E isto, para mim, é simultaneamente reconfortante e irritante.

Reconfortante porque significa que não vou ter de estudar para morrer.

Irritante porque aparentemente o meu corpo tem um plano e nunca achou necessário partilhá-lo comigo.

Passei anos a imaginar a morte como um desastre clínico.

Uma espécie de emergência absoluta.

Alarmes.

Luzes.

Música dramática.

Últimas palavras eloquentes.

Mas afinal, muitas vezes, morrer parece estar muito mais próximo de outros processos corporais do que nós gostamos de admitir.

Dar à luz.

Dormir.

Ter febre.

Tossir.

Ir à casa de banho.

Ter um orgasmo.

Processos estranhos onde, se pensarmos demasiado neles, atrapalhamos tudo.

O corpo sabe.

Tu apareces mais tarde para interpretar.

E o que me impressiona é isto:

quando estamos a morrer — sobretudo quando acontece de forma progressiva — o corpo não entra necessariamente em pânico.

Pelo contrário.

Parece começar a organizar uma saída.

No último mês de vida, muitas pessoas começam a perder energia.

Primeiro deixam de sair tanto.

Depois deixam de sair da cama.

Comem menos.

Bebem menos.

Dormem mais.

E eu acho fascinante que aquilo que nós, cá fora, chamamos desistir, às vezes seja simplesmente o corpo a dizer:

«Obrigada pela participação. Vamos começar a fechar secções.»

Também existe uma alteração estranha da percepção.

O tempo deixa de funcionar da mesma maneira.

Há pessoas que falam com pessoas que já morreram.

Há momentos de confusão.

Momentos de lucidez.

Momentos em que o passado entra pela sala como se nunca tivesse saído.

E eu sei que isto assusta muita gente.

Mas há qualquer coisa em mim que acha isto quase bonito.

Como se, no fim, a mente deixasse de obedecer completamente ao relógio.

Como se dissesse:

«Desculpem, mas já não estou muito interessada em seguir as regras do calendário.»

Depois existe uma parte que eu genuinamente não sabia e que me deixou fascinada.

Quando o corpo deixa de receber alimento como antes, pode entrar num estado chamado cetose.

E não — antes que alguém transforme isto numa tendência de bem-estar — não estou a dizer que morrer é uma dieta extrema.

Estou a dizer que o corpo muda de estratégia.

Usa energia de outra maneira.

Em algumas pessoas diminui a sensação de fome.

Por vezes altera a percepção do desconforto.

E há relatos de alguma sensação de leveza ou bem-estar.

E eu achei isto extraordinário.

Porque mesmo no fim… o corpo continua a cuidar.

Continua a tentar tornar a travessia suportável.

Depois chega aquilo que se chama morrer activamente.

Que é um nome incrivelmente honesto.

Não existe grande marketing à volta.

É mesmo isso.

O momento em que o corpo começa verdadeiramente a desligar.

E gosto da ideia de que desligar não significa falhar.

Significa terminar.

Os músculos relaxam.

A consciência do exterior diminui.

A respiração muda.

Às vezes existe aquele som na garganta por causa das secreções terminais — que é um nome objectivamente péssimo e parece uma banda de metal escandinava.

Mas normalmente quem está a morrer não está necessariamente a sentir aquilo como sofrimento.

E depois a respiração muda outra vez.

Fica profunda.

Devagar.

Pausa.

Outra respiração.

Mais pausa.

Até que há uma última expiração.

E depois não há inspiração.

E eu não sei explicar porquê, mas há qualquer coisa de muito elegante nisso.

Nós passamos a vida inteira a puxar o mundo para dentro.

Ar.

Pessoas.

Experiências.

Planos.

E no fim fazemos exactamente o contrário.

Largamos.

E pronto.

Também descobri outra coisa que me deixou quase indignada com o corpo.

Existe um fenómeno chamado lucidez terminal.

Ou recuperação terminal.

Basicamente — e isto parece escrito por alguém com sentido de humor muito questionável — algumas pessoas pouco antes de morrer ganham energia.

Falam.

Comem.

Ficam lúcidas.

Pedem coisas.

Fazem piadas.

Despedem-se.

E eu acho isto profundamente humano.

Quase como se o corpo dissesse:

«Só mais um momento. Ainda tenho uma coisa para fazer.»

E depois vai.

E sinceramente?

Não sei.

Durante muito tempo pensei que, quando chegar esse dia — muito, muito longe, espero — talvez escolhesse estar completamente sedada.

Mas agora não sei.

Talvez queira sentir.

Enquanto conseguir.

Talvez queira estar ali.

Nem que seja só para perceber.

Para ver o que o meu corpo sabe e eu nunca soube.

Porque talvez o mais estranho de tudo seja isto:

passamos a vida inteira com medo da morte.

E no entanto, desde o primeiro dia, o nosso corpo já sabia exactamente como chegar lá.

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