"Teste"

 Hoje foi quarta-feira, dia da Escola da Fé, e também dia de avaliação. Há uma espécie de solenidade própria nestes dias: não pela grandiosidade do acontecimento em si, mas porque o acto de ser avaliado tem sempre qualquer coisa de revelador. Obriga-nos a sair do território confortável da escuta, da reflexão silenciosa e da aprendizagem progressiva para entrar num espaço mais exposto, onde aquilo que ficou — ou não ficou — de semanas de estudo ganha forma concreta. E talvez seja precisamente isso que torna os dias de teste tão particulares: não avaliamos apenas o que sabemos; sentimos, por instantes, que estamos também a ser confrontados com aquilo que somos diante da exigência.

Hoje tivemos a nossa avaliação. O primeiro teste incidiu sobre o Novo Testamento; o segundo, sobre Cristologia. Dois temas que, apesar de estarem ligados, exigem disposições intelectuais diferentes. O Novo Testamento pede memória, atenção ao contexto, capacidade de compreender narrativas, discursos, símbolos e relações internas. Já a Cristologia exige outro tipo de esforço: não basta recordar conteúdos; é preciso pensar, interpretar, compreender como a tradição cristã procurou responder, ao longo dos séculos, à pergunta que atravessa toda a fé cristã — quem é verdadeiramente Cristo?

E, no entanto, por mais que se estude, há sempre aquele nervoso discreto, quase imperceptível, que aparece nos dias de avaliação. Não é um medo absoluto nem uma ansiedade devastadora; é antes aquele nervoso miudinho que se instala silenciosamente e transforma pequenos gestos em acontecimentos maiores do que realmente são. O folhear das folhas parece mais alto. O relógio parece avançar com uma lentidão artificial. Até o simples acto de pegar numa caneta ganha uma solenidade inesperada.

Foi estranho sentar-me e fazer o teste.

Estranho porque, durante semanas, ouvimos, discutimos, tomamos notas, reflectimos; e depois chega o momento em que tudo isso precisa de passar para o papel. Há qualquer coisa de paradoxal em tentar traduzir experiência, compreensão e estudo em respostas delimitadas por linhas e tempo contado. A fé estudada tem uma dimensão viva; o teste, inevitavelmente, reduz essa experiência a um exercício concreto. Não deixa de ser necessário — mas continua a ter algo de estranho.

Acabei por ser a primeira a terminar os testes.

E esse momento também tem a sua própria estranheza. Levantar-me enquanto os outros continuam sentados trouxe imediatamente aquela sensação inevitável de estar sob observação. Ficaram todos a olhar. Não necessariamente por julgamento — às vezes é apenas curiosidade, surpresa ou o reflexo automático de quem vê alguém romper o ritmo colectivo. Mas, naquele instante, sente-se sempre um breve desconforto: uma consciência súbita de estar visível.

Entreguei.

E disse para mim mesma — talvez com serenidade, talvez com resignação, talvez com um pouco das duas coisas:

“Seja o que Deus quiser.”

Não como quem desiste da responsabilidade pelo resultado, mas como quem reconhece um limite. Há um momento em que estudar termina, escrever termina, entregar termina — e depois já não nos pertence. Existe uma sabedoria discreta em aceitar esse instante. Porque confiar não é abandonar o esforço; é compreender que nem tudo pode continuar sob o nosso controlo.

Agora já é tarde. Por norma, a esta hora já estaria a dormir. Hoje ainda não. Cheguei há pouco tempo e o dia ainda parece estar a assentar dentro de mim. Há um cansaço próprio dos dias de avaliação que não vem apenas do trabalho intelectual; vem também da tensão acumulada, da expectativa, do silêncio concentrado, da libertação que acontece quando tudo acaba.

Talvez amanhã já quase não pense neste dia.

Mas hoje fica esta sensação curiosa: a de que houve qualquer coisa de simbólico em fazer um teste precisamente num lugar dedicado à fé. Porque, no fundo, aprender também é um acto de humildade. E ser avaliado lembra-nos que conhecer não é possuir respostas perfeitas — é continuar disponível para procurar, compreender e crescer.

O resto, agora, já não está nas mãos da pressa nem do nervosismo.

Está entregue.

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