"Há Pessoas que Nunca Entram nos Meus Textos. E Isso Não É Um Acidente."

Há quem acredite que um escritor escreve sobre quem conhece.

Não.

Um escritor escreve sobre aquilo que merece ser pensado.

São coisas completamente diferentes.

Conheço centenas de pessoas.

Algumas há décadas.

Cruzo-me com elas regularmente.

Cumprimentamo-nos.

Conversamos.

Partilhamos espaço.

E, no entanto, nunca lhes dediquei uma única linha.

Nem uma frase.

Nem uma metáfora.

Nem sequer um adjetivo.

Não por generosidade.

Mas por absoluta falta de matéria-prima.

Escrever exige combustível.

Uma ideia.

Uma contradição.

Uma inteligência inesperada.

Uma injustiça que obrigue a pensar.

Uma conversa que sobreviva ao dia em que aconteceu.

Alguma coisa.

Qualquer coisa.

E há pessoas que passam anos inteiros sem produzir um único pensamento digno de segunda leitura.

Vivem em modo repetição.

Não criam opiniões.

Alugam-nas.

Não formulam ideias.

Partilham-nas.

Não pensam.

Reencaminham.

São especialistas em devolver ao mundo exatamente aquilo que o mundo lhes entregou.

Sem acrescentar uma vírgula.

Conhecem aquelas fotocopiadoras antigas?

As que fazem uma cópia de outra cópia?

Ao fim da quinta reprodução já ninguém distingue o rosto.

É apenas um borrão cinzento.

Há pessoas assim.

A primeira versão talvez tivesse interesse.

Mas elas já nasceram na sétima fotocópia.

E um escritor dificilmente se apaixona por uma fotocópia.

O mais curioso é que muitas vivem convencidas de que ocupam um lugar gigantesco na vida dos outros.

É uma autoestima enternecedora.

Acham que são assunto.

Não são.

São cenário.

E há uma diferença monumental.

O cenário existe.

Mas ninguém compra bilhete para ver a cortina.

Há pessoas que entram numa sala e, cinco minutos depois, já ofereceram uma história.

Uma ideia.

Uma gargalhada.

Uma pergunta.

Outras conseguem permanecer três horas numa conversa...

...e sair sem deixar uma única frase memorável.

É um talento raro.

Transformar a própria existência em ruído de fundo exige uma consistência admirável.

Depois perguntam:

— Nunca escreveste sobre mim?

Não.

Pelo mesmo motivo que nunca escrevi um ensaio sobre o ecrã de carregamento do telemóvel.

Está lá.

Cumpre uma função.

Mas não desperta propriamente a imaginação.

Há quem confunda presença com relevância.

Respirar não é um feito literário.

Falar também não.

Publicar frases motivacionais retiradas da internet muito menos.

A literatura não vive de pessoas que ocupam espaço.

Vive de pessoas que ocupam pensamento.

E isso é infinitamente mais raro.

No fundo, a maior crítica que posso fazer a alguém não é escrever um texto impiedoso.

É nunca sentir vontade de abrir um documento por sua causa.

Porque até quem nos desilude profundamente deixa matéria para reflexão.

Até quem nos desafia intelectualmente merece páginas.

Até quem nos irrita pode oferecer uma excelente crónica.

Já a banalidade...

A banalidade nem sequer consegue esse privilégio.

Passa pela vida com a discrição de um recibo de supermercado.

Existiu.

Cumpriu a sua função.

E cinco minutos depois já ninguém sabe onde o deixou.

Confesso que, se fosse eu, isso preocupar-me-ia muito mais do que ser alvo de uma crítica.

Porque uma crítica significa que, por instantes, alguém ocupou verdadeiramente o pensamento de outra pessoa.

A irrelevância, pelo contrário, é um silêncio absoluto.

E o silêncio é um lugar onde nem a literatura perde tempo a entrar.

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