"reflexão pessoal: ciência e fé."

 Li recentemente uma história que me deixou profundamente comovida. Não foi apenas um relato curioso de um encontro no comboio, mas uma narrativa que, ao atravessar-me, despertou memórias, interrogações e até feridas escondidas. Era a história de um velho sábio, de olhar sereno, que lia a Bíblia no meio da viagem, e de um jovem arrogante que, armado de ciência, o desafiava com desdém.

À medida que lia, dei por mim a estremecer. Não tanto pela arrogância do rapaz — quantos de nós não fomos já esse jovem, eu já fui, julgando saber mais do que sabemos? — mas pela calma silenciosa do ancião. Tocou-me a sua firmeza tranquila, a forma como não se deixou perturbar pela agressividade alheia. Essa serenidade fez-me sentir pequena, porque percebi em mim a falta desse equilíbrio: quantas vezes reajo, justifico-me, defendo-me, quando talvez o mais sábio fosse apenas sustentar o silêncio.

Mas o que mais me atingiu foi o desfecho. O momento em que o jovem descobre que o velho é ninguém menos do que Louis Pasteur. É como se a vida tivesse preparado uma revelação pedagógica, um choque de realidade. De repente, aquele estudante vê cair por terra a sua convicção de que só os ignorantes acreditam. Ali, diante de si, tinha um dos maiores cientistas de todos os tempos — e esse homem não só cria, como via na fé a consumação da ciência, sim, ciência um dos sete dons do Espírito Santo.

Ao ler isso, senti dentro de mim um eco forte. Quantas vezes eu própria vivi a tensão entre ciência e fé? Quantas vezes temi parecer ingénua por acreditar? E, no entanto, ao ver aquela frase de Pasteur — “Um pouco de ciência afasta-nos de Deus. Muita aproxima-nos” — senti uma libertação íntima. Como se alguém tivesse dado voz àquilo que eu sempre intuí: não existe contradição entre razão e fé, mas sim um diálogo fecundo que só os corações humildes conseguem escutar.

O texto mexeu comigo porque me mostrou que eu tenho uma certa razão, de forma quase poética, que o verdadeiro sábio não precisa de provar nada. Ele não debate para vencer, mas para testemunhar. Ele não ostenta títulos, mas carrega dentro de si uma convicção que é luz. Percebi que a arrogância é sempre sinal de fragilidade, e que a serenidade só nasce onde existe enraizamento profundo.

Confesso que, ao fechar a leitura, fiquei emocionada. Senti vontade de ser, ainda mais, como aquele velho: firme, mas serena; convicta, mas humilde; crente, mas também amante do saber. A história não me trouxe apenas uma lição moral — trouxe-me um espelho. Mostrou-me como, por vezes, eu também sou tentada a ridicularizar aquilo que não compreendo, ou a querer impor as minhas certezas. Mas, mais do que isso, mostrou-me o caminho contrário: o da paciência, da fé que não precisa de se justificar, da inteligência que se ajoelha diante do mistério.

E percebi que é esse equilíbrio que quero continuar a cultivar. Que a minha fé não anule a minha razão, nem a minha razão sufoque a minha fé. Porque só quando ambas caminham juntas é que posso tocar a verdade inteira — a que não é apenas conceito, mas também vida, amor e eternidade.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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