"MANIFESTO DA VIDA QUE ESCOLHI VIVER"

 Há uma pergunta que me persegue em silêncio: quando foi, exactamente, o dia mais feliz da minha vida? Aquele instante em que senti o coração pulsar não apenas para manter-me viva, mas para me fazer sentir inteira, desperta, presente no exacto momento em que respirava? Pergunto-me se eu seria capaz de reconhecer esse dia se tivesse de o escolher agora… ou se, distraída pelas pressas e pelas rotinas, o deixei passar despercebido, como se a vida fosse um rio demasiado veloz para se deter nas margens.

Recordo-me de memórias que ficaram gravadas em mim, não apenas como imagens, mas como marcas na alma. Momentos que, por vezes, regressam num cheiro, num som, num olhar inesperado. E no entanto, raramente me detenho para visitá-los. Vivo como quase todos: projectada para o amanhã, esperando um futuro que tantas vezes é apenas continuação de um presente esquecido. E nesse movimento constante, o ontem — tão cheio de beleza e de risos genuínos — permanece guardado, como se não fosse já tesouro suficiente.

E se hoje fosse o meu último jantar? Com quem gostaria de estar? Quem teria ao meu lado, não pela conveniência, mas pela verdade dos laços? O que diria, que nunca disse? Que palavras teriam de sair da minha boca para não ficarem para sempre aprisionadas no silêncio? Penso muitas vezes se as pessoas que amo sabem realmente o quanto são importantes para mim, ou se confiam apenas nas entrelinhas de gestos que nunca verbalizei.

A vida tem sido uma corrida sem tréguas. Uma pressa. E a pressa, cruel como é, não espera. Arrasta-nos consigo, e só nos apercebemos da sua brutalidade quando já não há tempo. Quando a conversa que adiámos não pode mais ser tida. Quando o abraço que julgávamos garantido já não pode ser dado. Quando o olhar que evitámos já não pode ser reencontrado.

Diz-me: tens alguém de quem sentes falta? Alguém que fez ou faz parte da tua história de maneira tão profunda que não nomeá-lo seria falsificar o teu percurso? Se tens, não guardes esse afecto como se fosse segredo ou fraqueza. O amor, para ser verdadeiro, precisa de ser dito. O carinho, para ser sentido, precisa de ser mostrado. A vida não se sustenta apenas naquilo que pensamos em silêncio — precisa do gesto, do olhar, da palavra pronunciada.

E o tempo? O tempo não volta. É um mestre implacável que nos oferece oportunidades sem aviso e as retira sem retorno. Por isso, não deixes para amanhã o abraço que podes dar hoje. Não silencies as palavras que ardem dentro de ti. Não adies a demonstração da ternura que é, no fundo, aquilo que dá sentido à tua passagem por este mundo.

Pensa nisto: talvez o dia mais feliz da tua vida ainda possa ser hoje. Desde que escolhas parar, sentir, dizer, viver. Desde que escolhas estar inteiro no instante. Desde que escolhas não permitir que a pressa te roube o essencial.

Respondi a todas as perguntas que tantas vezes me fiz. Sei que é quase impossível escolher um único dia em que fui realmente feliz, inteira, plena. Não tenho apenas um marco, um ponto suspenso no tempo; tenho instantes. Pequenos e grandes, dispersos como estrelas que se acendem na memória. Momentos que revejo com um misto de saudade e de alegria, porque não apenas me fizeram sorrir, mas fizeram pulsar o meu coração como se ele fosse, de novo, jovem e inaugural.

O último jantar? Sei, sem hesitação, com quem seria. Estaria com os meus filhos e o meu marido. Não porque é óbvio, mas porque é essencial. Porque são eles o centro de mim, o cerne do meu jardim, a raiz da minha permanência. Não mantenho laços por conveniência — não tenho essa necessidade. Os laços que guardo são os que resistem ao tempo, ao silêncio e até à dor.

As minhas últimas palavras já foram ditas e reditas, em voz alta e em silêncio escrito, sem artifícios, sem máscaras, na simplicidade que as torna eternas: “amo-te, amor, amo-te infinitamente.” Não preciso de esperar por despedidas para dizer o que sinto. A vida ensinou-me a não adiar confissões de afecto. As pessoas importantes para mim sabem, por palavras e por gestos, pelo toque e pela atitude, o quanto fazem falta e o quanto aprecio a sua presença.

Se adiei conversas, não foi por descuido. Foi porque só eu estava disponível para dialogar, e respeitei o tempo e a posição da outra pessoa. Aprendi que o amor também se mostra assim: no silêncio que não força, no respeito pela distância, na aceitação de que cada coração tem o seu ritmo.

Sinto falta de muitas pessoas que já não fazem parte da minha vida. Algumas partiram para junto do Pai, deixando um vazio que não se mede em palavras. Outras afastaram-se por caminhos diferentes. Outras fui eu mesma que afastei, consciente de que a minha evolução pedia distância. Sei, contudo, que não nomeá-las seria falsificar o meu percurso, amputar a minha própria história. Não tenho medo de admitir o quanto gostei e ainda gosto delas. Mas tenho também a serenidade de reconhecer que, em cada relação, demonstrei o meu carinho da forma mais autêntica que soube e pude.

Tenho plena noção da natureza implacável do tempo. Ele é ligeiro, veloz, oferece oportunidades sem aviso e retira-as sem retorno. E aceitei essa verdade. Já não me revolto contra ela. Pelo contrário, é precisamente por saber a sua severidade que abraço o hoje com autenticidade. Não com a ansiedade de quem tem medo de perder, mas com a gratidão de quem sabe valorizar.

Abraço com amor, com carinho, com compaixão. Abraço as presenças que tenho, abraço as memórias que guardo, abraço até as ausências que me ensinaram. Porque cada instante vivido é uma semente de eternidade.

E talvez seja esta a verdadeira sabedoria que a vida me ofereceu: não esperar pelo último jantar para dizer que amo. Não esperar pela ausência para valorizar a presença. Não esperar pela partida para sentir a saudade. Vivo — e revivo — com o coração aberto, resistente, mas não endurecido.

O tempo não volta. Mas cada gesto, cada palavra, cada olhar, quando nascidos da autenticidade, não precisam de voltar: permanecem. E eu permaneço neles.

Eu sou feita de carne, memória e sonho. Sou luz e sombra, ternura e resistência, lágrima e riso. A minha vida não é um enredo linear, mas um tecido vivo onde o belo e o terrível se entrelaçam, inseparáveis, como raízes que se enroscam no mesmo solo.

Não fujo do que me doeu. Não escondo as feridas nem disfarço as cicatrizes. A dor purificou-me. Abriu-me como uma lâmina, mas também me moldou como o fogo molda o ferro. Foi na dor que aprendi a escutar o silêncio, foi nela que encontrei a humildade de reconhecer a minha vulnerabilidade. A dor ensinou-me que ninguém é apenas forte ou apenas frágil: somos resistentes quando aceitamos ser atravessados pelo caos sem desistir de florescer.

A vida é feita do bom e do mau, e ambos são mestres. O bom alimenta, expande, aquece; o mau confronta, questiona, despedaça. Mas sem o contraste, nada teria significado. Só quem atravessa a sombra sabe o valor da luz. Só quem tocou o fundo da ausência sabe saborear o calor de um abraço. Só quem perdeu é capaz de entender o milagre da presença.

Tenho aprendido que o amor não é adiado. Não é para ser prometido num futuro incerto, mas para ser dito agora, mostrado agora, vivido agora. Eu amo. Digo que amo. Repito: amo-te infinitamente. Não guardo este amor num cofre de silêncio; faço dele verbo, gesto, olhar. Porque sei que o tempo é implacável: oferece sem aviso, retira sem retorno. E eu não quero viver na ilusão de que haverá sempre amanhã para dizer o que posso dizer hoje.

O amor, para mim, não é conveniência. Não é hábito, não é contrato social. É a escolha radical de permanecer, de cuidar, de proteger, de permitir que o outro floresça dentro do meu jardim. O amor é simultaneamente suave e feroz: delicado como pétala, mas resistente como raiz que resiste à tempestade.

Transformei-me. Cresci. Já não sou apenas a flor ingénua que se abria a qualquer sol, nem apenas a armadura que repele todos os ventos. Sou síntese: sou jardim e sou muralha. Sou vulnerabilidade que não teme ser vista e sou fortaleza que sabe até onde deve permitir a entrada. Esta é a alquimia da minha vida: transformar a dor em consciência, a perda em compaixão, a fragilidade em beleza, o caos em criação.

Recordo os bons momentos como quem acaricia memórias vivas. Eles são a música secreta que embala o meu coração. Mas não rejeito os maus. Eles ensinaram-me a não desperdiçar a alegria, a não adiar os afectos, a não trivializar a presença. Se os bons me fizeram sorrir, os maus obrigaram-me a crescer. Se os bons me deram asas, os maus deram-me raízes.

Aceito tudo. A sombra e a luz. O riso e o pranto. O silêncio e o diálogo. A ausência e a presença. O encontro e a despedida. Tudo é matéria de vida. Tudo me fez ser quem sou.

E é por isso que manifesto:

Que a vida não é uma sucessão de dias, mas uma sucessão de escolhas.

Que o amor é a única herança que vale a pena deixar.

Que a dor não é maldição, mas iniciação.

Que o tempo não é inimigo, é mestre severo que nos lembra da urgência de viver com verdade.

Que resistir não é endurecer-se, mas saber proteger o que é essencial sem matar a delicadeza.

Que a alegria é um acto de coragem, e a ternura, uma forma de revolução.

Se a minha voz ecoar em alguém, quero que ecoe assim: não adies o abraço, não silencies a palavra, não escondas o carinho. Não vivas como se fosses eterno, porque não és. Mas vive como se cada instante fosse eternidade, porque pode ser.

Sou mulher de flor e de ferro, de lágrima e de riso, de raiz e de voo. Sou a prova de que a vida é feita de contrastes, e é no contraste que ela ganha profundidade. Não temo o caos, porque sei que do caos também brota criação. Não temo a morte, porque sei que, enquanto amar, estarei viva em quem amei.

Este é o meu manifesto: viver sem me esconder, amar sem economizar, aprender sem me envergonhar da dor. Ser inteira, ainda que imperfeita. Ser resistente, mas nunca árida. Ser luz, mesmo quando a sombra me cerca.

E se a vida me der mais um dia, que seja para o viver com a intensidade de quem sabe que pode ser o último. Se me der mais um abraço, que seja dado com a profundidade de quem sabe que é sagrado. Se me der mais uma palavra, que seja dita com a autenticidade de quem sabe que nada volta.

Porque no fim — e este é o segredo que gravo nas minhas paredes interiores — não somos feitos do que acumulamos, mas do que sentimos, do que partilhamos, do que ousámos viver com coragem.

E eu manifesto: eu escolho viver, com tudo o que a vida é — a beleza e a dor, a sombra e a luz, o caos e o milagre. Eu escolho amar, infinitamente.




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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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