"Mulher de aço."

 Há quem me olhe e veja apenas o brilho frio de uma superfície impenetrável. Um reflexo metálico, como se eu fosse feita de aço ou ferro, incapaz de dobrar ou de sentir. É um engano comum. O que chamam de dureza não é matéria-prima: é construção. E foi erguida, camada a camada, com a paciência e o cansaço de quem aprendeu cedo que o mundo não poupa os que se deixam ver por inteiro.

Não nasci assim. Fui, durante muito tempo, pura flor — aberta ao sol, vulnerável ao vento, permeável à chuva. Mas as estações não foram sempre gentis, e os invernos ensinaram-me que há geadas que não avisam. Houve toques que deixaram cicatrizes, ausências que cavaram fendas, palavras que ecoaram como lâminas. Foi então que comecei a erguer a minha armadura. Não para deixar de sentir, mas para poder continuar a existir sem me despedaçar.

O que poucos sabem — e ainda menos imaginam — é que, por trás dessa couraça, existe um jardim. Não um jardim qualquer, mas o meu refúgio mais íntimo. Ali o metal não entra. Ali o chão é fértil, e o ar é leve. Nesse espaço sagrado, vivem as presenças que resistiram ao teste do tempo e da verdade: o meu marido, que conhece não só a mulher que sou hoje, mas também a flor que fui; os meus filhos, que correm por entre as pétalas com a leveza de quem nasceu dentro deste lugar protegido; alguns poucos amigos que não se assustaram com os portões e que, com paciência, aprenderam a abrir-me por dentro.

Eles não vêem a armadura — ou melhor, sabem que ela existe, mas não a confundem comigo. Com eles, não preciso ser aço. Posso ser voz suave, posso ser silêncio sereno. Posso ser vulnerável sem medo, porque o seu cuidado não é invasão e o seu amor não é armadilha. Eles não arrancam flores para as levar, cuidam delas para que floresçam mais.

Ainda assim, a armadura permanece, não como prisão, mas como fronteira. Protege-me de olhares que apenas calculam, de mãos que apenas tomam, de presenças que apenas consomem. O meu jardim não é espaço público. É terra privada, cultivada com dedicação e escolhida a dedo. Não deixo entrar quem não saiba respeitar o silêncio das manhãs, a delicadeza das pétalas, o valor da sombra fresca nos dias quentes.

Resistência, para mim, não é rejeitar o amor — é impedir que ele seja maltratado. É garantir que aquilo que construí com tanto esforço, e que abriga a vida que mais prezo, não seja contaminado por descuido ou indiferença. É olhar para fora e saber que há tempestades que nunca chegarão a tocar o meu jardim, porque eu aprendi a ser muralha quando necessário.

Aqueles que vivem cá dentro sabem que não sou frágil nem invencível — sou resistente. E resistência, no meu caso, é uma expressão de amor. É o gesto silencioso que garante que, enquanto lá fora o mundo tenta endurecer tudo, aqui dentro as flores continuam a abrir-se, os risos continuam a ecoar, e o cheiro da terra molhada depois da chuva ainda é capaz de me comover.

Por isso, sim, posso parecer feita de metal. Mas no coração do meu jardim, sou inteira flor.

E talvez esta seja a lição que tantos não compreendem: que a verdadeira fortaleza não é a ausência de vulnerabilidade, mas a capacidade de preservá-la em meio ao caos. Como ensinou a psicologia humanista, ser inteiro é integrar a força e a delicadeza, é aceitar que o coração precisa tanto da muralha como da janela aberta. O aço protege, mas é a flor que dá sentido.

Assim, o meu jardim é mais do que um refúgio — é um manifesto silencioso contra a brutalidade do mundo. Aqui, a ternura é um acto político, o cuidado é um valor absoluto, e a alegria é resistência. Quem entra percebe que não está apenas a atravessar um portão: está a entrar no território onde escolhi que a vida floresça, apesar de todas as tempestades que já conheci.

E é por isso que não temo a acusação de ser “mulher de aço”. Se me chamam assim, é porque não viram, ou não souberam ver, as raízes vivas que crescem sob o solo. Mas os que estão comigo, os que partilham do perfume das flores e do calor dos dias bons, sabem: não sou de ferro, não sou de pedra — sou de carne, sonho e terra molhada. Sou resistente, sim, mas só para que, no centro de mim, a flor nunca deixe de abrir.

E se quiseres, posso contar-te como é este lugar. Há uma árvore grande, no canto mais antigo do jardim, sob a qual o meu marido lê, às vezes em silêncio, outras vezes interrompendo-se para me contar qualquer pensamento que lhe passou pela mente. É ali que, em certos fins de tarde, nos sentamos lado a lado, sem precisar de palavras para partilhar o mesmo pôr-do-sol.

Os meus filhos conhecem cada recanto. Há um caminho de pedras onde correm descalços, e sei que daqui a muitos anos se lembrarão da sensação da pedra quente sob os pés, do cheiro doce das flores no verão, do som da minha voz chamando-os para jantar. Eles crescem aqui, não apenas em idade, mas em afecto — aprendendo que o mundo lá fora pode ser duro, mas que sempre haverá um espaço onde a ternura é lei.

E os amigos que aqui entram sabem que estão a pisar terreno sagrado. Alguns trazem gargalhadas, outros histórias, outros apenas o silêncio que partilhamos com conforto. Não é um lugar de multidões. É um lugar de encontros raros e verdadeiros. Quando se despedem, deixam atrás de si não um vazio, mas um rasto de calor que permanece.

Este jardim não é feito apenas de flores, mas também de memórias, de promessas cumpridas, de gestos que, por pequenos que sejam, têm raízes profundas. Cada canto dele é uma escolha — a escolha de preservar o que é essencial. A escolha de não permitir que a vida, com as suas asperezas, corroa a parte de mim que acredita que, apesar de tudo, vale a pena florir.



E se há algo que aprendi, é que a armadura não é para afastar o amor, é para o proteger. O mundo pode chamar-me mulher de aço, mas os que me conhecem sabem que, no fundo, sou uma guardiã da beleza. Não da beleza superficial, mas da que floresce no carácter, no cuidado, na lealdade. O meu jardim é a prova viva de que resistir não é endurecer-se até ao vazio, mas criar um espaço onde a vida, apesar de tudo, se expanda. Aqui, cada flor é uma vitória, cada gargalhada é uma bandeira, e cada abraço é uma promessa cumprida.

E se um dia, alguém conseguir atravessar os portões e ficar, é porque entendeu o essencial: o aço é apenas a superfície. O que realmente me define é o coração que bate por trás dele.


Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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