"Há perdas que não se superam."

O que se aprende é a sobreviver-lhes, a viver com elas como se fossem um órgão novo e hostil dentro do corpo — estranho, pesado, mas impossível de remover.

Perder alguém que se ama não é um episódio; é um corte longitudinal na própria existência.
A ferida está sempre lá, ainda que o mundo insista em dizer que “o tempo cura”. Mentira piedosa. O tempo apenas nos ensina a andar com um buraco no peito, a respirar com metade dos pulmões, a sorrir com um rosto que sabe demasiado bem o que é chorar.

Quando perdi a minha mãe há doze anos, não enterrei apenas um corpo. Enterrei também a minha primeira morada emocional, o eixo onde a minha bússola interna se ancorava, o chão para onde eu sempre podia regressar quando tudo à volta se desfazia.
A morte dela não veio sozinha: trouxe um silêncio espesso, um vazio com peso e textura. Trouxe também uma violência quase física — como se o mundo tivesse rasgado a pele da minha alma com unhas sujas.

E, quando a tampa do caixão desceu, não fechou apenas sobre ela. Fechou-se sobre um pedaço meu, arrancado sem anestesia.
E é por isso que digo — e repito:

Eu vi uma tampa de caixão a ser fechada com um pedaço meu lá dentro e não pude fazer nada… poucas são as coisas que me abalam.
Uma tampa de caixão fechada levou um pedaço de mim, pouco mais me pode abalar?
Tudo o que veio depois disso passa a ser apenas um treino para mim que aprendi a levantar-me mesmo quando já não acreditava.
A verdadeira força nasceu no momento em que o chão desapareceu.
Por isso, parei de pedir licença para viver.
Valorizo mais aquilo que importa na vida.
Investi no meu crescimento, na minha resiliência espiritual e na construção do futuro que mereço.
Um pedaço de mim ficou no passado, usei o que restou para transformar o presente.
Ser inspiração não é sobre perfeição. É sobre atitude, presença e verdade.
Quando escolhi viver com propósito, enfrentei os meus próprios desafios e cuidei da minha saúde emocional.
Tornei-me um exemplo silencioso mas poderoso.
Há sempre alguém a observar-me… um filho, um amigo, um colega.
E a minha forma de lidar com a vida pode ser exactamente o empurrão que essa pessoa precisa.
A inspiração começa sempre em mim. Por isso, que nada me faça desistir de mim mesma.

Quem sobrevive a isto não volta a ser quem era. Não por escolha, mas porque não existe retorno ao “antes”.
A morte muda a arquitectura interna da nossa alma.
Tira-nos as paredes conhecidas, deixa-nos num campo aberto e frio.
E é nesse vazio que somos obrigados a construir, com as mãos nuas, um abrigo novo.

Nos primeiros dias, a dor é bruta, animalesca. O corpo chora antes de a mente compreender.
Depois, com o tempo, ela deixa de gritar e passa a sussurrar. Mas está sempre lá. Uma cicatriz sensível, que arde quando o vento da saudade sopra.
E o mais cruel é que a vida continua. É ter de continuar a pagar contas, responder a mensagens, cozinhar o jantar — tudo isso enquanto, por dentro, a alma ainda está ajoelhada ao lado de um caixão fechado.

A morte ensina-nos uma hierarquia brutal: nada é tão urgente quanto parece, nada é tão grave quanto dizem.
Depois de veres o chão desaparecer, não tremes com pequenas quedas.
Percebes que quase tudo na vida é ruído, e que o essencial é minúsculo e sagrado: amar, estar, cuidar.

E então percebes que não foste só marcada: foste moldada.
A cicatriz não é apenas prova de dor; é também prova de amor.
E se amar profundamente significa ficar assim, marcada para sempre, então que a cicatriz fique.
Porque ela lembra-me que tive a sorte — e o fardo — de amar alguém ao ponto de nunca mais ser a mesma.


Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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