"Os cinquenta..."
Caros leitores,
Nestes dias recentes, partilhei cinquenta textos dedicados à figura e missão da mulher na fé. Não foi exercício de vaidade intelectual, mas ato de fidelidade à inspiração recebida e de resposta concreta a uma provocação legítima: redescobrir o papel da mulher à luz do Evangelho e da Tradição, longe de modismos, distorções ou sentimentalismos.
Sou mulher de fé. Católica por livre adesão à verdade revelada e guardada, sem ruptura, pela Igreja que Cristo fundou sobre a rocha de Pedro (Mt 16,18). Sou esposa, mãe, amiga leal, e assumo a minha imperfeição como campo de batalha onde a graça e a natureza se encontram. Não me coloco no papel de vítima de forças externas: o que me aconteceu de mau não foi um assalto demoníaco inesperado, mas fruto de passos e escolhas que eu mesma tomei. Como disse Santo Agostinho: “O início da conversão é o reconhecimento da própria culpa” (Confissões, Livro X). Só quem aceita responsabilidade abre as portas para a misericórdia.
A minha fé não é comércio. Não troco a presença de Deus por bênçãos visíveis, nem condiciono a minha devoção àquilo que recebo. Santa Teresa de Ávila ensinou: “Nada te turbe, nada te espante; só Deus basta.” Não procuro substituir o Deus vivo por recompensas que, por maiores que pareçam, não passam de migalhas comparadas à comunhão com Ele.
Não obrigo a minha família a seguir-me por força; o amor não se impõe, testemunha-se. No entanto, ensino — por palavra e exemplo — os valores perenes que Cristo exige: justiça, misericórdia, pureza, fortaleza, caridade. São João Paulo II recordou que “a fé se fortalece quando é dada aos outros” (Redemptoris Missio, 2). Por isso, não cedo ao desânimo quando não vejo frutos imediatos; confio no tempo de Deus.
A liturgia que Cristo quis para a Sua Igreja não é espetáculo nem catarse emocional. São Justino, no século II, já descrevia o culto cristão como ação ordenada, centrada na Palavra e na Eucaristia, onde o foco está no sacrifício redentor, não na autoexpressão da assembleia. A fé não precisa de amplificar o som para amplificar o amor.
Recuso a diluição da verdade em nome da conveniência. O Evangelho não se adapta ao gosto de cada geração; é a geração que é chamada a converter-se ao Evangelho. Como escreveu São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Rm 12,2).
Ser mulher de fé não é ocupar qualquer espaço, mas o espaço que Deus determinou. Maria Santíssima — modelo supremo de toda a feminilidade — não buscou púlpitos, mas aceitou a maior missão já confiada a uma criatura: trazer Deus ao mundo. A sua grandeza não residiu em fazer muito segundo o olhar humano, mas em fazer perfeitamente aquilo que lhe foi dado segundo o olhar divino.
Permaneço, pois, nesta Igreja, não por comodidade, mas por obediência amorosa. Aqui recebo um só batismo para a remissão dos pecados, aqui participo do sacrifício eucarístico, aqui me alimento da sucessão apostólica que garante a integridade da fé.
Não espero aplausos. Espero a voz do Senhor no fim: “Foste fiel no pouco; entra na alegria do teu Senhor” (Mt 25,21).
E se algum dia fraquejar, que seja a oração de Santo Agostinho a erguer-me: “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”
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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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