"Como cultivar amizades que edificam"
Vivemos num tempo em que a solidão grita mais alto do que os discursos e em que muitas relações estão contaminadas por interesse, superficialidade ou competitividade emocional. Como mulher católica, consciente da minha identidade espiritual e humana, sei que Deus não nos criou para o isolamento, mas também não para nos perdermos em multidões que não nos conhecem nem nos respeitam.
Cultivar amizades que edificam é, hoje, um acto de resistência espiritual e emocional. Não se trata de cercarmo-nos apenas de pessoas que pensam como nós, mas de discernir quem está realmente disposto a caminhar connosco com verdade, lealdade e transparência. Edificar é construir, e ninguém constrói sobre terreno instável.
Não são necessárias multidões: bastam duas ou três amizades verdadeiras para se sustentar uma alma. Amizades assim não se compram, nem se pedem com insistência. Revelam-se. E quando são autênticas, transformam.
Nem todas as amizades que me edificam surgiram dentro das quatro paredes da igreja. Na verdade, algumas das mulheres mais autênticas, leais, sensatas e humanas que conheci, não usam um vocabulário religioso, mas vivem o Evangelho com gestos concretos: respeitam o outro, mantêm a palavra, não manipulam, não julgam com santidade fingida.
Enquanto algumas que se sentam religiosamente nos bancos de culto dominical se mostram hábeis em versículos, mas vazias em frutos, outras — que talvez nunca tenham passado da porta da igreja — praticam o bem com uma naturalidade que me constrange e me ensina. Não confundem espiritualidade com espectáculo, nem bondade com performance moral.
Reconheço e dou graças por amigas que, mesmo não partilhando a totalidade da minha fé, me tratam com dignidade, me ouvem com alma, me levantam quando estou frágil. Elas não fingem orações, mas oram com gestos: fazem sopa, mandam mensagens quando pressentem que algo não está bem, oferecem silêncio onde tantos oferecem conselhos baratos.
E o mais bonito? Estas mulheres, com quem não partilho necessariamente a mesma igreja, nem o mesmo discurso, ensinam-me sobre Deus com a sua vida. Deus é tão grande que se manifesta até no que escapa às nossas categorias religiosas. Jesus não andava apenas com os doutores da Lei. Caminhava com mulheres simples, pecadoras, estrangeiras, invisíveis. E eu? Eu aprendi a reconhecê-Lo onde menos esperava.
Por isso, já não julgo pelas aparências, nem me iludo com rótulos. Observo os frutos. E quando encontro uma mulher íntegra, justa, humilde, coerente — seja ela cristã confessa ou apenas alguém de boa vontade — eu recebo-a com gratidão. Porque sei que foi Deus que a colocou no meu caminho.
E sei que, como eu, ela também está a ser trabalhada. À sua maneira. No seu tempo. Porque a amizade verdadeira não se mede por frequentar um templo, mas por fidelidade de alma.
Cultivar amizades que edificam é reconhecer que ninguém é perfeito, mas que, com discernimento e oração, podemos escolher cercar-nos de pessoas que nos conduzem para mais perto de Deus. E isso, por vezes, vem de onde menos esperamos.
Afinal, Deus escreve certo por linhas que o mundo não consegue ler.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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