"Obrigada. Ou Obrigado?"

Muito têm questionado sobre o que escrevo, como escrevo, porque escrevo, a minha gramática, qual a minha escolaridade. Como já disse, disse e escrevi, para uns ouviram diretamente, outros leram, não sou escritora, sou escrevinhadora. Sei que é uma palavra inventada, e talvez seja aí que reside a minha maior ousadia: a de me inventar a mim própria a cada linha. Escrevinhadora vem de escrevinhar, esse verbo meio desprezado que significa “escrever de forma rápida, descuidada, sem polimento, quase como um rascunho”. Pois eu assumo: escrevinho como quem respira, como quem rabisca o pensamento antes que ele fuja. Não é menoridade literária, é liberdade assumida.

Não sou professora de português, não sou doutorada em semântica, não ensino escrita criativa, mas o primeiro ciclo, ah, esse tenho de certeza. Aprendi as vogais, as consoantes, juntei sílabas, formei palavras, e com elas construo o meu mundo privado de sentidos. E quando me perguntam porque escrevo “obrigada” e não “obrigado”, sorriu-me a ironia: afinal até a gratidão parece exigir gramática.

Explico, então, com a paciência de quem sabe que a língua é uma dança entre lógica e poesia. “Obrigado” vem da expressão “ficar obrigado” — isto é, “ficar em dívida de gratidão para com alguém, reconhecer-se ligado pela obrigação de retribuir um favor”. É, originalmente, um adjetivo, ou seja, uma palavra que qualifica ou caracteriza o sujeito e deve concordar em género e número com ele. Por isso, se sou mulher, digo “estou obrigada”; se fosse homem, diria “estou obrigado”. A língua, essa senhora severa, exige concordância.

Mas a história não ficou por aqui. O povo, que nunca consulta gramáticas antes de abrir a boca, transformou a palavra em interjeição: palavra que, segundo a gramática, exprime uma emoção, um estado de espírito ou um ato de cortesia, funcionando isoladamente como uma frase completa. Nesse uso cristalizado, “obrigado” deixou de ser adjetivo vivo e tornou-se fórmula — como quem diz “valeu!”, “gracias!”, “thank you!”. E aqui a concordância pode dormir sossegada. É por isso que tantas mulheres dizem “obrigado” e ninguém lhes aponta o dedo, enquanto outras, como eu, preferem manter a versão feminina — “obrigada” — não por purismo, mas porque me soa mais íntima, mais minha, como um vestido talhado ao corpo.

E há ainda os plurais, esses esquecidos: quando agradecemos em coro, se formos mulheres diremos “obrigadas”, se formos homens ou misturados, “obrigados”. A língua, sempre burocrática, gosta de papelada até na gratidão.

No fundo, tudo isto mostra que a palavra pode ser adjetivo e pode ser interjeição. Pode concordar docilmente com o género ou pode rebelar-se e tornar-se neutra, universal. A beleza está nessa elasticidade: a língua não é prisão, é organismo vivo, que respira com quem a usa.

E por isso escrevo assim, meio séria, meio irónica, meio sentimental, meio incisiva. A minha escrevinhadora interior ri-se quando alguém me corrige: não sabem que não pretendo ser modelo de pureza gramatical, mas antes testemunha da imperfeição fértil da linguagem. Agradeço sempre, ora com um “obrigada” que me veste, ora com um “obrigado” que se impôs pela boca do mundo. No fim, tanto faz: o que importa é que a gratidão não se mede em consoantes nem se esgota em gramáticas.

E, já agora, obrigada por me lerem. Ou obrigado. Como preferirem.



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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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