"Entre saltos e silêncios."

 Hoje foi um daqueles dias em que a vida parece querer testar os limites da minha energia e da minha capacidade de me deixar levar pelo imprevisto. Desde cedo senti que seria uma maratona — não apenas de lugares e deslocações, mas sobretudo de emoções.

De manhã, o primeiro destino: o Quantum Park, esse espaço que parece saído de um futuro lúdico, onde a gravidade se suspende e os corpos descobrem que podem voar sem asas. Ali, entre trampolins, saltos e risos, percebi como a infância se alimenta do movimento puro, da liberdade de cair e recomeçar sem medo. O meu filho, claro, mergulhou nesse universo com a entrega total de quem ainda acredita que o chão é apenas um detalhe.

O almoço trouxe-nos outra aventura, desta vez num espaço que conjuga adrenalina com camaradagem — um daqueles lugares onde se joga paintball e se percorrem trilhos de mota, como se a terra e a cor nos lembrassem que brincar também pode ser guerra simbólica e velocidade em estado bruto. Olhei-o, com o coração dividido entre o receio e a admiração, e percebi que cada desafio é também um ensaio para a vida adulta.

À tarde, outro aniversário: no Parque das canoas no Gaio, onde a natureza se torna palco de encontros e corridas sem tempo, trampolim e insuflável. Muita comida e uma amizade boa, respeito entre encarregados de educação onde não existe turmas só escola, só empatia e amizade. A alegria parecia não ter fim, e, no entanto, em mim já crescia uma espécie de cansaço filosófico — como se cada festa fosse também uma metáfora da nossa busca incessante por mais, sempre mais.

E quando pensei que o dia se encerraria ali, eis que o ritual contemporâneo se impôs: uma paragem no McDonald’s, porque a infância também se mede em batatas fritas partilhadas e sorrisos apressados. Mas o verdadeiro marco não foi a refeição: foi o meu filho querer encontrar-se com o seu melhor amigo e trazê-lo, pela primeira vez, a nossa casa. Confesso que não nos encantou a ideia — há sempre reservas, receios de como será abrir a intimidade do lar a alguém de fora. Contudo, como a irmã esteve ausente o fim de semana inteiro, decidi ceder. E ceder, percebo agora, é também amar.

Assisti, exausta mas comovida, a esta estreia. O riso deles a ecoar pelas paredes trouxe-me uma estranha melancolia: a consciência de que a infância é um sopro, e cada novo passo rumo à autonomia é também um afastamento inevitável de mim. A maternidade, descubro, é este jogo permanente entre dar liberdade e guardar silêncio, entre acolher e deixar partir, entre a alegria de ver crescer e a dor subtil de perder exclusividade.

Agora que a casa voltou ao silêncio, sinto-me rendida ao peso do dia — mas também erguida pela sua beleza secreta. A exaustão não é apenas física: é filosófica, quase metafísica. Porque hoje vi, em cada aniversário, em cada salto, em cada gesto de amizade, um ensaio daquilo que somos: seres em busca de pertença, de reconhecimento, de partilha.

E assim, no fim desta jornada, não digo apenas “felizmente acabou”. Digo, antes: felizmente aconteceu. Porque no meio da correria, da confusão e do cansaço, encontrei a poesia discreta do quotidiano — aquela que, por vezes, só se revela quando a noite chega e o corpo, cansado, finalmente se entrega.


Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias).

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