"Mulheres fortes também choram"
Sou mulher. Sou forte. Mas não sou feita de pedra. A minha fortaleza não é a ausência de dor — é a decisão diária de permanecer fiel mesmo quando as lágrimas me ensombram a visão. A cultura, por vezes, tenta moldar-nos para acreditar que força significa frieza, que ser resiliente é nunca tremer. Mas o Evangelho mostra-me outra verdade: força é ter coragem para me ajoelhar aos pés de Deus e permitir que Ele me veja frágil.
A Bíblia, testemunha viva da condição humana, não esconde que as mulheres de fé sempre choraram. Ana verteu lágrimas amargas diante do templo, e foi nesse choro que nasceu Samuel, profeta de Deus (1 Samuel 1). Ester, antes de interceder pelo seu povo, sentiu o peso mortal da sua missão e buscou a Deus em jejum e lágrimas. Maria Madalena, junto ao túmulo, chorava sem saber que estava prestes a ouvir o seu Mestre chamar pelo seu nome (João 20). E o próprio Cristo — Rei dos reis e Senhor dos senhores — chorou diante da morte de Lázaro, chorou pela dureza de Jerusalém, chorou no Getsémani pela agonia da cruz que se aproximava. Se o Deus encarnado chorou, quem sou eu para esconder as minhas lágrimas?
As lágrimas, quando entregues a Deus, tornam-se linguagem sagrada. Não são sinal de derrota, mas de autenticidade. Elas revelam que, mesmo ferida, não perdi a sensibilidade. Que ainda me importo. Que o meu coração não se tornou de pedra no campo de batalha da vida. Porque ser mulher forte não é vestir uma armadura que me separa do mundo, é deixar que Deus seja a minha armadura quando eu não consigo mais.
Vivemos num tempo em que se confunde espiritualidade com espectáculo. Há quem grite nas orações para parecer fervoroso, mas não consegue calar-se para ouvir a voz de Deus. A mulher forte não precisa de encenar fé. Ela não grita para ser ouvida — porque sabe que o céu responde ao sussurro sincero. A sua reverência não é teatral, é profunda. Ela chora em silêncio na presença de Deus, sabendo que essas lágrimas são mais eloquentes que mil discursos.
Mas há um segredo: a mulher forte não permanece no vale para sempre. Ela entende que as lágrimas têm um propósito — lavar, purificar, libertar. Depois do pranto, ela ergue-se. E, ao levantar-se, está mais firme, mais sábia, mais consciente de quem é e a quem pertence. As suas cicatrizes não a envergonham, porque são marcas de vitórias conquistadas com joelhos no chão.
O mundo pode achar que chorar é fraqueza. Eu sei que é coragem. Porque é preciso ousadia para abrir o coração, reconhecer a dor, confessar que preciso de ajuda e, mesmo assim, continuar a amar, a servir, a crer. É preciso ousadia para não endurecer o coração diante de tantas injustiças, manipulações e hipocrisias, inclusive dentro de espaços religiosos que repetem palavras vazias e tentam impor práticas que Deus nunca exigiu.
As minhas lágrimas são sementes. Cada gota rega a minha fé, amolece o solo do meu coração e prepara-o para que Deus plante algo novo. O Salmo 126:5 não mente: “Os que semeiam com lágrimas, com júbilo segarão.” Eu creio nessa promessa, porque já vi florescer alegria em terrenos que o mundo julgava estéreis.
E tu, mulher, não te deixes enganar pela falsa ideia de que, para seres forte, tens de te tornar dura. Não escondas as tuas lágrimas como se fossem uma vergonha. Elas são o selo de que és verdadeira, de que a tua fé respira. Chora quando for preciso. E, quando te levantares, levanta-te com a certeza de que Deus esteve contigo em cada lágrima.
Porque a mulher forte também chora. E, muitas vezes, é no pranto que nasce a sua maior força.
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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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