"Do nada... Rir"
Às vezes penso que devia receber um prémio Nobel da subtilidade social. Desaparecer sem aviso de certas vidas é uma arte que poucos dominam. Não é fuga, não é drama, nem covardia: é pura ginástica de liberdade. Mudo cafés, rotinas, horários, como quem troca de meias — e, claro, só dão por isso meses depois. A minha cadeira habitual fria, eu noutra vida, eles a desesperar. Hilariante.
O circo começa logo a seguir. Pessoas que nunca me ouviram transformam-se em detetives de bairro. Perguntam a amigos, sondam contactos, fazem inquéritos sobre onde ando, com quem falo, o que faço da vida. Imaginem a frustração: todo o suspense, todo o teatro, e o resultado é… nada. O meu crime? Preferir a paz à companhia deles. Clássico da comédia negra.
E o melhor? O meu blog, que escrevo por prazer, tornou-se a principal arma deles. Usam-no para falar mal, colocar nomes, inventar histórias. Há mais de um ano que não lhes dirijo palavra, que não quero contacto, e mesmo assim transformam a minha ausência em material de entretenimento. Como se o simples acto de existir em paz fosse um insulto pessoal.
E hoje… oh, hoje foi digno de sitcom de humor negro. Eu, relaxada, no meu café, a saborear o luxo de estar em paz. Eis que surge a família inteira, sentam-se à mesa ao lado, sem um pingo de vergonha. Eu continuo, tranquila, com as minhas amigas, como quem assiste a uma peça absurda.
E então chega o clímax: antes de sairmos, uma das minhas amigas, com um sorriso diabólico, diz: “Vamos contigo para aquele sítio, falar com aquela pessoa!” — só para os picar. Aparentemente, um sítio, nenhum sítio, o vácuo absoluto, inventado só para se rirem à custa da minha tranquilidade, pessoa nenhuma. Eu, soberana, saí sozinha, eles a tropeçar na própria estupidez.
Desde que descobri a verdade — aquela verdade que tanto tentaram esconder — nunca mais lhes dirigi uma palavra. Ignorados, calmamente, com o sossego de quem sabe que o poder real é simplesmente não participar no teatro dos outros. E o melhor? Estou melhor do que nunca: leve, livre, deliciosa e escandalosamente em paz.
O mais hilariante? Eles desesperam, retorcem-se, escrevem postas de blog maliciosas, correm atrás de fantasmas… enquanto eu rio-me por dentro. E com as minhas amigas, que só ajudaram a aumentar o circo. Rir do ridículo alheio nunca foi tão intelectualmente satisfatório. Graças a Deus que afastei-me tarde mas consegui. Desaparecer foi o melhor. Mesmo assim continuam a tentar, boa sorte. Estou em paz e feliz.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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