"Popular"

 Há algum tempo que deixei de sentir a obrigação de acreditar em tudo o que se diz. A experiência tem uma estranha capacidade pedagógica: depois de ouvirmos versões suficientes da realidade, percebemos que a verdade raramente é a mais popular numa sala cheia de opiniões.

Já ouvi de tudo. Já li de tudo. Já vi pessoas defenderem com convicção teorias que desafiam séculos de conhecimento, como quem proclama que a Terra é plana e espera aplausos pela descoberta revolucionária. Por isso, confesso que me custa levar demasiado a sério quem constrói certezas a partir de rumores, insinuações ou histórias contadas por terceiros. Afinal, entre a evidência e a fantasia, há quem escolha sempre a fantasia; talvez porque exige menos esforço intelectual.

Se alguém prefere acreditar numa versão fictícia de mim, criada à medida dos seus preconceitos, inseguranças ou conveniências, tem toda a liberdade para o fazer. Não me compete administrar a imaginação alheia. Cada um é livre de escrever os romances que quiser, desde que não espere que eu os reconheça como biografias.

O que verdadeiramente me intriga não é a existência da crítica, do comentário ou da maledicência. Isso acompanha a humanidade desde que o primeiro ser humano descobriu que falar da vida dos outros era mais fácil do que examinar a sua própria. O que me surpreende é a facilidade com que algumas pessoas escolhem acreditar sem questionar, condenar sem conhecer e repetir sem verificar. Há quem trate o boato como prova, a suspeita como facto e a opinião como sentença.

E quando falta a coragem para dizer algo de frente, quando a conversa floresce apenas na ausência de quem é visado, então a questão deixa de ser aquilo que dizem sobre mim. Passa a ser aquilo que revelam sobre si próprios. Porque a honestidade não se mede pelo que se murmura nos corredores; mede-se pela capacidade de sustentar as próprias palavras perante quem as deve ouvir.

Nunca impus a minha presença a ninguém. Nunca exigi companhia, aprovação ou permanência. Quem escolhe caminhar ao meu lado fá-lo por vontade própria. E quem escolhe acreditar em falácias, distorções ou caricaturas em vez da realidade observável, está a fazer uma declaração sobre o seu próprio carácter, não sobre o meu.

Recordo frequentemente a sabedoria atribuída a um antigo provérbio chinês: o homem sábio observa; o homem comum fala do que viu; o tolo fala do que ouviu. Talvez por isso existam tantas histórias a circular e tão poucas verdades a permanecer. O boato viaja depressa porque não transporta o peso da responsabilidade. A verdade, mais lenta, caminha com a serenidade de quem não precisa de correr para chegar primeiro.

No fim, não sinto necessidade de disputar narrativas nem de corrigir todas as interpretações erradas. Há uma certa paz intelectual em compreender que nem toda a ignorância merece resposta e que nem toda a acusação exige defesa. Quem me conhece saberá distinguir factos de ficção. Quem não me conhece e prefere acreditar na ficção dificilmente seria convencido pelos factos.

Por isso, seguirei o meu percurso como sempre: sem ruído desnecessário, sem tribunais improvisados e sem a ansiedade de agradar a quem já decidiu o seu veredicto antes de conhecer as provas. Que cada um fique com as histórias que escolheu acreditar. Eu fico com a tranquilidade de não precisar de inventar versões de ninguém para justificar a minha existência.

E há uma ironia deliciosa nisso tudo: muitas pessoas passam anos a falar sobre os outros, enquanto os outros passam esses mesmos anos a viver. Eu escolho viver. Os cronistas da fantasia que continuem a escrever. Eu tenho caminho para percorrer.

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