"Nem Tudo o Que Persegues Merece Que Continues a Correr"
Há uma verdade difícil de aceitar: nem sempre é aquilo que nos acontece que mais nos magoa. Muitas vezes, o sofrimento prolonga-se porque somos nós próprios que insistimos em manter vivo aquilo que a vida já terminou.
Não é apenas a perda que dói.
É a resistência ao fim.
Existe uma tendência profundamente humana para acreditar que, se insistirmos mais um pouco, se esperarmos mais algum tempo, se amarmos mais intensamente ou se tivermos mais paciência, aquilo que se afastou acabará por regressar. No fundo, não estamos apenas a tentar recuperar uma pessoa, uma relação ou uma oportunidade. Estamos a tentar recuperar a segurança que julgávamos existir quando tudo parecia fazer sentido.
Mas a vida raramente cresce onde existe apego.
A vida cresce onde existe liberdade.
Há pessoas que passam anos emocionalmente presas a um relacionamento que terminou há muito tempo. Outras continuam à espera daquela amizade que apenas aparece quando precisa de alguma coisa. Há quem viva décadas à procura da aprovação de alguém que nunca conseguiu reconhecer o seu valor. E, sem dar por isso, deixam que o presente seja continuamente sacrificado em nome de um passado que já não pode ser alterado.
O mais curioso é que, muitas vezes, não estamos presos às pessoas.
Estamos presos àquilo que esperávamos viver com elas.
É essa expectativa que alimenta a permanência.
É essa esperança que torna tão difícil aceitar a realidade.
Enquanto toda a tua energia permanece concentrada em convencer alguém a ficar, em provar que mereces amor, respeito ou reconhecimento, a vida continua a acontecer à tua volta.
Pessoas verdadeiras aproximam-se.
Oportunidades discretas aparecem.
Momentos capazes de transformar a tua história passam por ti.
Mas tu não os vês.
Não porque não existam.
Mas porque tens as mãos ocupadas a segurar aquilo que já não quer permanecer.
A nossa saúde emocional não depende apenas daquilo que sentimos.
Depende, sobretudo, daquilo que escolhemos alimentar.
Cada pensamento repetido, cada esperança sem fundamento, cada porta que recusamos fechar ocupa espaço dentro de nós. E tudo aquilo que ocupa espaço impede a chegada de algo novo.
Há uma diferença enorme entre persistir e insistir.
Persistir é um acto de coragem quando existe reciprocidade. É continuar a investir numa relação onde ambos constroem, onde ambos se responsabilizam, onde ambos escolhem permanecer, mesmo nas dificuldades.
Insistir é diferente.
Insistir é continuares sozinha a carregar uma relação que já só existe porque tu a transportas.
É bater repetidamente a uma porta que ninguém pretende abrir.
É chamar amor àquilo que, muitas vezes, já se transformou apenas em medo de perder.
O medo possui uma capacidade extraordinária para se disfarçar.
Disfarça-se de esperança.
De fidelidade.
De perseverança.
De sacrifício.
Mas, quando o observamos com honestidade, descobrimos que, muitas vezes, apenas nos impede de aceitar aquilo que já compreendemos há muito tempo.
Há despedidas que não representam um fracasso.
Representam um acto de respeito pela pessoa em que nos tornámos.
Porque crescer também significa reconhecer que nem tudo aquilo que desejámos continua a fazer sentido para quem somos hoje.
Nem tudo o que parte precisa de regressar.
Nem tudo o que dói merece mais uma oportunidade.
Nem toda a ausência precisa de ser preenchida.
Alguns vazios existem precisamente para criar espaço.
Espaço para relações mais saudáveis.
Para pessoas mais inteiras.
Para uma paz que nunca conseguiria entrar enquanto continuasses a viver rodeada de ruínas.
A maturidade começa quando deixamos de perguntar por que razão alguém foi embora e começamos a perguntar por que motivo continuamos nós a permanecer emocionalmente onde já não existe vida.
Porque a liberdade não nasce quando o outro muda.
Nasce quando tu deixas de depender dessa mudança para continuares o teu caminho.
Talvez aquilo que tens procurado durante tanto tempo já esteja a aproximar-se de ti.
Talvez a serenidade, as pessoas certas, as oportunidades que desejas e a vida que sonhas estejam finalmente prontas para entrar.
Mas continuam à espera.
Não porque a vida te tenha esquecido.
Mas porque ainda não existe espaço suficiente dentro de ti.
Há coisas que só chegam quando deixamos de segurar aquilo que nunca quis ficar.
E talvez seja essa uma das maiores lições da maturidade.
Compreender que a paz não nasce quando conseguimos recuperar tudo aquilo que perdemos.
Nasce quando deixamos de correr atrás do que continuamente nos escapa e aprendemos, finalmente, a caminhar na direcção daquilo que também escolhe caminhar ao nosso lado.
Porque, acredita, quando deixas de perseguir aquilo que te esgota, a vida muda de ritmo.
O coração respira.
A alma descansa.
E descobres que a felicidade nunca esteve escondida naquilo que insistias em segurar.
Estava, silenciosamente, à tua espera no exacto momento em que decidisses abrir as mãos para a vida.
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